Botando para desabar

O trem desgovernado, o prédio desabando, o noivo escorregando no altar depois de um não seguido de tapa no rosto.…

O trem desgovernado, o prédio desabando, o noivo escorregando no altar depois de um não seguido de tapa no rosto. O certo é que o branquinho está começando sua jornada de desespero em 15 segundos. O mulato dança ao ritmo do drible, corpo em balanço de gafieira.

Impõe a leveza fatal da inspuração. Esconde a bola com o calcanhar direito. No átimo dos instintivos, corta para a direita. Em desmoralização elástica, cai o branquinho de bunda no chão e dignidade mantida. Sentou em velocidade atômica sem apelar para o pontapé. Parece contemplar o curta-metragem raro nos telões ludopédicos nacionais.

O tombo cômico diante da supremacia artesanal do driblador, mereceu registro de um cinegrafista pontual. Ele chegou cedo para acompanhar o treino dos profissionais do Fluminense e captou uma imagem juvenil de encantamento. Sem dar espaço à proximidade dos corpos, o mulato passista em quatro linhas construiu a ponte invisível entre o cérebro na rajada de inteligência para consumação dos pés.

O sobrenome transformado em batismo boleiro do jovem e fugaz artista é Kenedy. Com um ene apenas. A homenagem dos seus pais ao senador democrata Robert (Bobby) Kennedy, irmão também assassinado do histórico presidente norte-americano tomou a imperfeição da grafia por erro do digitador do cartório. É Kenedy mesmo e assim seja.

Nasceu em 1996, dois anos depois do tetracampeonato conquistado por Romário bem coadjuvado por Taffarel e Bebeto em 1994 numa seleção que não jogava feio, jogava sisudo. Kenedy é seis anos mais moço que o feito do penta, onde jogadas de efeito técnico e moral limitavam-se ao atacante Ronaldo e ao espetacular meia Rivaldo, o último camisa 10 decente da seleção brasileira.

Tratado como joia no Fluminense, Kenedy já atuou na seleção brasileira dos menores de 17 anos sendo comandado pelo hoje homem forte das categorias de base, o volante aposentado Alexandre Gallo, guindado a diretor pela CBF de José Maria Marin, a imagem de Papai Adams das conspirações subterrâneas e distantes da arte.

Durante os anos inteiros de sua careira de marcador feroz, Gallo jamais produziu um lance parecido com o do flagrante do abençoado câmera, que deve gostar de futebol bonito. Gallo gosta pouco da sagrada firula, do jogo ganho em fintas e toques de coreografia.

Já baniu um minicraque por não ter cumprimentado um adversário e por usar biquinho. Seu sonho era de ser chefe de disciplina ou professor de Moral e Cívica, matéria obrigatória na Ditadura.

Tomara que ele não chame Kenedy, o driblador, e lhe dê uma reprimenda pela ousadia tão frequente nos pretéritos cheios de malandros arredios a esquemas táticos de defesa. Alegria, foi o que Kenedy produziu.

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Seu adversário não deve cair em depressões profundas. O bom nasceu para fazer o bonito e o mediano para tentar ao menos evitar. Jogando feio por vocação ou imposição dos Alexandres Gallos surgidos da entressafra entre a luminosidade e o apagão inventivo, hoje tão em voga no país considerado ideal.

No campo esperto da propaganda política, a gente tem que concordar: há um reino de faz de conta muito bem maquiado, berrantemente vermelho, antecipação da campanha da presidenta à reeleição.

O lance de Kenedy, a cópia original do bom de bola esquecido e perdendo a vez para truculentos e maratonistas, ganhou as páginas de internet e foi repetido até fora do país. Aos 18 anos, completados no último dia 8 de fevereiro, Kenedy demonstrou personalidade titular.

Fez da sua natureza, a bandeira do seu jogo, provou que o drible não humilha ninguém. É o recurso superior e plástico na poesia em cores, privilégio de ventre abolido nos treinos comandados por toscos.

Kenedy jamais poderá mudar seu jeito de jogar, nem que treinadores burros e retranqueiros lhe deem a ordem. A arte é a sua arma produtora de lágrimas de gratidão e da doce sensação de remake dos melhores filmes exibidos pelos campos brasileiros.

O jovem atacante do Fluminense, ágil e moleque, saltimbanco das perseguições inúteis dos beques, orgulharia a inspiração do seu batismo. Antes de ser baleado na cabeça por um demente sádico, a 6 de junho de 1968, no Ambassador Hotel em Los Angeles, quando caminhava liberto para assumir a cadeira do irmão na Casa Branca, Bobby Kennedy declarou: “Somente os que ousam podem alcançar a grandeza.”

 

Tormento

O torcedor do ABC deve buscar o máximo de paciência: sem mudanças profundas no time, o segundo turno será tocado na marcha fúnebre do primeiro, perdido pela péssima qualidade do time.

 

Um chute

Um chute de Somália acertando a trave no começo do segundo tempo foi a chance do ABC contra o Baraúnas. Um jogo de botar para roncar o campeão mundial dos insones. Pelada tipificada.

 

Márcio Passos

Muito oportuna a liberação de Márcio Passos por efeito suspensivo. É um jogador importante para defender. Hoje à noite contra o CRB, o América precisa é atacar para seguir em frente na Copa do Nordeste. É preciso fazer três e não tomar nenhum. Ou marcar quatro se levar um. Gol fora de casa vale dois.

 

Provável time

Alfredo é desfalque no ataque. Vetado pelo Departamento Médico, dá lugar a Rafinha, adiantado junto a Adriano Pardal. Os homens de área também fora. O provável América: Dida, Wálber, Cléber, Edson Rocha e Raí; Márcio Passos, Tiago Dutra, Fabinho e Rubinho; Adriano Pardal e Rafinha.

 

Marinho no carnaval

O maior ídolo do futebol potiguar será homenageado amanhã a partir das 18 horas. Marinho Chagas será a estrela dourada do bloco Jegue Empacado, que sai da Praça Ponta Negra. Marinho é alegria plena. Um dos idealizadores da turma é o jornalista Artur Pereira, gaúcho radicado em Natal e com grande experiência em redações de Veja, Estadão e O Globo e também no marketing político.

 

Condenado

A justiça alagoana condenou a 20 anos de cadeia o assassino de um torcedor do CRB em 2012. Pertencia a uma facção criminosa travestida de torcida organizada. É pouco, mas não deixa de ser um começo.

 

Holligans anjos

Em artigo no Jornal The Guardian, o jornalista inglês Johnatan Watts descreveu com precisão o nível de periculosidade das chamadas organizadas. Perto dessa gente, ele compara, os deploráveis hooligans europeus podem ser chamados de “anjos”.

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