Boteco no Conacan tem visitantes ilustres em sua galeria

O bar de Netão ou Alpendre Cultural, como queiram, é também o preferido por alunos e professores da UFRN

Poucos moradores de Candelária conhecem as histórias que já aconteceram no bar do Conacan, um lugar cujo cotidiano se confunde com a vida de seu administrador. Foto: Divulgação
Poucos moradores de Candelária conhecem as histórias que já aconteceram no bar do Conacan, um lugar cujo cotidiano se confunde com a vida de seu administrador. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Segundo a secretaria municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, o bairro de Candelária tinha quase vinte e um mil habitantes, em 2007 (ano que consta no site da instituição como o último em que foram recolhidos dados do IBGE). Com muita boa vontade, podemos supor que o número aumentou em 20%, 30%, desde então. No entanto, poucos moradores conhecem as histórias que já aconteceram no bar do Conselho Comunitário, no folclórico Conacan, um lugar cujo cotidiano se confunde com a vida de seu administrador, um sujeito com 170 kg e a simpatia dos melhores anfitriões. João Cândido da Costa Neto, o Netão, é um macauense de 51 anos que chegou, ainda adolescente, à capital na companhia do pai estivador e da mãe pedagoga para estudar. Ele trabalhou décadas em bancos públicos e privados, até que em setembro de 2002 apostou no boteco batizado de Alpendre Cultural.

Com a ajuda de amigos, vizinhos ilustres e artistas populares, foi construído um ponto de encontro em que a simplicidade virou o principal item do cardápio. Talvez, por isso, pessoas famosas nacionalmente tenham provado de sua cerveja e comida. Gente como os ex-jogadores Bebeto, Roberto Dinamite, Gonçalves; os ex-presidentes do Flamengo, Edmundo dos Santos Silva e Márcio Braga; o sambista Neguinho da Beija-Flor;  o pai de Ronaldo Fenômeno; e o mítico Reginaldo Rossi, que cantou de graça para uma pequena turma de companheiros de copo, figuram no livro de registro dos frequentadores do ‘Bar de Netão’. “Se uma coisa que o bar me deixou como lição de vida foi a humildade dessas pessoas. Nunca paguei uma dose a ninguém. Todos vieram por vontade própria, através da amizade que temos com Cid Montenegro [empresário potiguar e conselheiro do Flamengo carioca que toma umas e outras no espaço]. Agradeço a todos eles de coração”.

Episódios pitorescos aconteceram durante a visita dos famosos. Um deles foi protagonizado pelo ex-dirigente flamenguista Edmundo dos Santos. Ou melhor, por sua bela mulher. Lá para tantas da noite, o álcool suspendeu a timidez e a precaução de um dos convivas, que começou a galantear pra cima da carioca ao seu lado. Mesa de bar e mulher dos outros é um combinação arriscada, mas a aliança no dedo da forasteira foi negligenciada pelo Dom Juan potiguar. “Nós dois nesse tatame, hein?”, soltou o imprudente, de olho na academia que existe no Conacan.

A resposta veio na mesma moeda. “Eu botava você para dormir na hora”. O mau entendedor teve de ser contido pelos mais próximos, que se desdobraram para o marido ficar alheio ao fato. Brigas conjugais, porém, nem sempre são evitadas. O responsável pela churrasqueira e proprietário da academia de ginástica, Luiz Tarcísio, testemunhou inúmeras delas.

Certa vez, um casal mantinha aquela distância reveladora de problemas amorosos quando o homem abandonou a parceira na mesa. “Rapaz, ele foi dar uma volta com um amigo e todo mundo sabia que eles tinham um caso gay. A mulher ficou de bobeira e quis dar para qualquer um por vingança. Mas ninguém deixou que isso acontecesse”, sorri Tarcísio, para esticar sua fala com um novo caso homossexual observado nas dependências do Conacan (o politicamente correto passa longe de uma mesa de bar tradicional). “Tinham dois caras se beijando lá no muro atrás e Netão viu tudo, quando chegou. Aí ele gritou: ‘Ei, caba sem vergonha, que fuleragem é essa aí?’. Foi quando um deles respondeu: ‘Netão, deixe de ser ignorante que isso é cumprimento de comunista’”. O bom humor predominou e Netão, que não bebe e nem fuma, aceitou a piada.

Aberto todos os dias, pela manhã como uma espécie de lanchonete, e à noite sob os cuidados de Netão, o bar mantém um cardápio rotativo, sem pratos pré-definidos. O caráter de boteco montado para amigos faz com que a comida seja escolhida na hora, de acordo com a disponibilidade do estoque. “Aqui todos são livres para se divertir. O único compromisso é com a diversão, sempre com respeito e companheirismo”, diz o comerciante que proíbe som automotivo e faz parcerias com entidades culturais, como a Associação Estadual de Poetas Populares. Na primeira sexta-feira de cada mês uma sessão de cantoria anima a reunião de cordelistas e feras na poesia.  Com experiência de mais de dez anos no coração de Candelária, ele vê o momento atual como um dos mais sombrios, quanto à segurança pública. Diariamente, assaltos, agressões e tiroteios tiram a tranquilidade do outrora seguro bairro de classe média e alta.

“Perdi a conta das pessoas que vi serem abordadas por marginais aqui na rua em frente ao bar. Dei muita água com açúcar para acalmar as vítimas. Teve uma vez que uma criança teve uma arma apontada na nuca e na cabeça. Eu mesmo já tive um revólver no pé do ouvido”, fala Netão, casado e pai de duas filhas, uma advogada e outra, técnica em edificações. No dia em que conversamos, entre o Natal e o réveillon passado, feijão, farinha e costela de porco eram degustados por um químico, outro empresário e o filho do delegado Sérgio Leocádio. Todos acrescentaram detalhes à violência crescente – sob a mirada atenta da gata Tetê, que esnobou um osso sem carne oferecido por Luiz Tarcísio, e de um garçom conhecido como Tô Ligado, esguio funcionário com um ralo bigode e ar taciturno, que cria uma imagem antagônica à imponência eloquente do proprietário.

O bar de Netão ou Alpendre Cultural, como queiram, é também o preferido por uma parcela expressiva de alunos e professores da UFRN. São oito anos seguidos com calouradas de direito, em que a altura do som é controlada até por moradores dos prédios circundantes – o celular de Netão está na agenda dos síndicos e porteiros, que costumam ligar, caso os decibéis ultrapassem o tolerável. “Eu gosto de festa e quando cheguei aqui existia essa lacuna. Mas o cara tem que ser político, saber ouvir reclamações e aceitar o desejo da maioria. Dono de bar não tem time nem pecado. Perco cliente porque não permito som de carro, mas ganho em ter um local onde pessoas de bem podem vir. Essa é a essência do bar e de minha vida”.

 

Livro
Um livrão sobre um dos maiores mitos da história brasileira saiu nos Estados Unidos. “Making Samba, A New History of Race and Music In Brazil”, do diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, Marc Hertzman, questiona nossa democracia racial e tenta explicar a passagem do samba “de ritmo maldito a música nacional e de certa forma oficial”. Até por ter sido escrito por um americano, a polêmica já corre solta. O e-book importado custa R$35,79 na Livraria Cultura. Se você quiser o impresso, está de U$22,03 no Amazon.com.

Sarau das Letras
Recebi do colega David de Medeiros Leite duas novas publicações da editora mossoroense, cujo acabamento das brochuras e projeto gráfico a credencia como uma das principais do Estado. A seleção de contos da revista eletrônica Cruviana e A Outra Obscuridade (edição bilíngue), do poeta argentino Luis Raúl Calvo, serão comentadas nos próximos dias, mas adianto que as pequenas narrativas “O calção vermelho”, de Yvonne R. de Miranda e “Acre cheiro da morte”, de Sidney Summers prenunciam quem vem coisa boa das páginas que abri no primeiro dia do ano.

Pirangi
A Telepesquisa, em parceria com as agências Innover e Coletivo Marketing e Propaganda, realizará uma série de ações promocionais na praia de Pirangi no próximo sábado e domingo (04 e 05) e durante os fins de semana do mês de fevereiro, com atividades esportivas e culturais, distribuição de brindes, revista, água mineral e picolés. Além das blitzs e do estande promocional com uma equipe de promotores, a iniciativa pretende incentivar um estilo de vida saudável, com uma área preparada especialmente para a prática de exercícios orientados por um educador físico e um minicampo de futebol.

Campeãs de buscas
O Google divulgou uma lista com as dez músicas mais buscadas por brasileiros em 2013 – uma espécie de Paradão Nova Classe C. O besteirol do Harlem Shake (quatro amigos fantasiados dançando que virou mania mundial) ficou em primeiro lugar. A sequência tem “Show das poderosas”, de Anitta; “Quadradinho de 8”, do Bonde das Maravilhas; “Gangnam Style”, do coreano Psy; “Girl On Fire”, de Alicia Keys; “Lek Lek Lek”, do MC Federado; “Camaro amarelo”, de Munhoz & Mariano; “Meu mundo novo”, da banda Charlie Brown Jr.; “Te esperando”, do amorfo Luan Santana; e “Amor de chocolate”, de Naldo.

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