No boulevard de Petrópolis

Andei um tempo interessado nos caminhos da cidade. Não os físicos, no sentido de tentar percorrê-los, de ir e vir…

Andei um tempo interessado nos caminhos da cidade. Não os físicos, no sentido de tentar percorrê-los, de ir e vir nas suas trilhas. Os literários – caminhos por onde os olhos andam.

Talvez influenciado pelo Guia Sentimental de Olinda, invenção de Gilberto Freyre ou, quem sabe, pelo lirismo do poeta Manuel Bandeira no seu Guia de Ouro Preto, com ilustrações de Luís Jardim, que tenho na edição francesa, numa belíssima encadernação em couro pleno, com douração e arabescos nas capas.

Daí pra frente não parei mais de segui-los.

E se fosse para lembrar um olhar mais antigo sobre a cidade, talvez esse olhar fosse cair nas páginas de Roseira Brava, de Palmyra Wanderley, livro de 1929. Nas suas saudações poéticas tão idílicas cantando a colina de Petrópolis, Praia do Meio, Areia Preta, Rocas – o lugar que nasceu sem mãe; Tirol – direitinho uma paisagem bíblica. Natal amanhecendo nas pedras do Refoles com o boi filosofando vagaroso entre gaiolas de passarinhos. O Alecrim, verde, todo verde, como um sonho. Barro Vermelho, Passo da Pátria e Lagoa Manuel Felipe, tudo transformado em partes de um território lírico nos versos da poetisa reinventando sua cidade.

Vinte anos depois, em 1949, foi a vez de João Amorim Guimarães, cronista e poeta, com seu Cidade do Natal também cantando em versos a sua vila, bairros, lugares, gente. No prefácio, depois de descrever a figura do poeta, Câmara Cascudo constata:

Nada falta ao retrato feito de memória.

Em 1958, há mais de meio século, a cidade ainda não era um point turístico, mas ganhou um Guia da Cidade do Natal organizado por J. A. Negromonte e Etelvino Vera Cruz com colaboração de Fernando R. da Silva. Seus organizadores descrevem logo abaixo do título, no alto da folha de rosto: Obra informativa de interesse dos turistas, viajantes, comerciantes, industriais, profissionais e do povo em geral. São 231 páginas com textos e anúncios de patrocinadores e com informações sobre a cidade, sua história, bairros, pontos turísticos, folclore, monumentos, datas comemorativas, música, indicador de ruas, mapas e endereços comerciais.

Depois, em 1972, veio o texto poético de Newton Navarro, com ilustrações também suas, e lançado pelo livreiro Walter Pereira: Natal Colorida. Impresso em policromia, na gráfica Brunner, São Paulo, com apresentação do então governador Cortez Pereira, fotos de Francisco Améndola e a versão para o inglês de Dalton Melo de Andrade. Foi seu primeiro retrato colorido.

Dos anos setenta pra cá, com a construção da Via Costeira e seus hotéis, Natal virou um destino turístico. Ganhou vários guias, folhetos e mapas, e um pequeno roteiro elaborado no início anos setenta pela jornalista Rejane Cardoso para a Ancar, hoje Emater, distribuir aos convidados de um encontro de Extensão Rural. E Manuel Onofre Junior organizou um Breviário e o Guia poético.

De repente, Petrópolis que era bairro residencial sombreado de quintais de casas de família, virou um point. E veio então a idéia de Gustavo Sobral de retratar Petrópolis num Guia Prático, Histórico e Saboroso. Estão aqui os velhos e novos personagens e seus lugares. Não uma história formal, mas o roteiro que inclui bebida, comida, noite, cultura e histórias de um território que ao mesmo tempo é físico e lírico, comercial e sentimental.

Aqui as estórias substituem as histórias. No sentido de um boulevard, não parisiense, mas tropical. Cheio de sol. E que o autor consegue decalcar como se libertasse suas ruas, becos e vilas da frieza dos mapas urbanos e das estatísticas para traçá-lo num desenho mágico e humano.

A literariedade do seu texto não revoga ou substitui a informação. Ele sabe servi-la com bom gosto e apuro. Como se fizesse parte do cardápio enquanto leva o leitor a passear nas suas ruas. Sequer abre mão dos seus prédios, pomposos, austeros, modernos ou simples, de suas vilas e becos, de toda sua pequena humanidade que se espalha nos altos e baixos do seu relevo sensual.

Por isso, todas as coisas estão aqui, cuidadosamente informadas: delicatessens e docerias, cafés, padarias, lanchonetes, choperias, creperias, restaurantes, pontos de baladas, galerias, bancas de revistas, hospitais, mercados e quitandas.

Gustavo Sobral cumpre como desenhista atento no seu olhar cuidadoso o ofício de retratar Petrópolis sem fazê-lo melhor só para encantar os olhos do leitor. Nem pior. Não quer convencer a nativos, freqüentadores ou turistas. Mas quer que seja útil a revelar a vida como ela é em Petrópolis. Suas manhãs primaveris, suas tardes azuis, suas lojas. Sua gente e suas noites agitadas ou mansas, até seu cansaço quando a madrugada vem.

Não a Petrópolis homônima, a que recebeu o nome do imperador Pedro II nos tempos do Brasil Imperial. Nem a outra, nascida do olhar aristocrático de Pedro Velho, o proclamador da República entre nós. A que nasceu de uma floresta encantada, a Mata de Petrópolis, onde o jovem Câmara Cascudo passeava a cavalo de polainas e monóculo. Aqui está a Petrópolis de hoje, entre casinhas e arranha-céus, lojas sofisticadas e padarias. Vizinha dos últimos quintais onde resistem, como se não aceitassem morrer de tédio, as mangueiras e os cajueiros venerandos que nos velhos sítios de ontem fizeram a sombra que abrigou um tempo imenso de vida.

Quando Roberto DaMatta estudou A Casa e a Rua como um complexo antropológico, em 1985, avisou:

Cada sociedade tem uma gramática de espaços e temporalidades para poder existir enquanto um todo articulado e isso depende fundamentalmente de atividades que se ordenem também em oposições diferenciadas, permitindo lembranças ou memórias diferentes em qualidade, sensibilidade e forma de organização.

Este guia não é uma sociologia da saudade, para usar a expressão de DaMatta. Nem, por decorrência, uma sociologia da memória e da recordação. É o retrato de um instante. O instantâneo que fotografa, revela e fixa a Petrópolis de hoje. Desta nossa contemporaneidade, posto que amanhã pode não ser a mesma. Para o antropólogo, tudo são passagens quando o tempo é a matéria de que é feito o olhar sobre uma rua, um bairro, um lugar. De pequenos e grandes mundos.

É o caso da Petrópolis de Gustavo Sobral com seu olhar flaneur a desenhar, como se fosse um dândi, a vida de um boulevard que nasceu de sua própria invenção.

Lua grande de março de 2013.

 

Vicente Serejo

 

Gustavo Sobral lança dia 6 de abril, na Praça Aristófanes Fernandes, esquina da Afonso Pena com a Cordeiro de Farias, seu Guia Prático, Histórico e Saboroso de Petrópolis, contando um pouco da história do bairro. De suas figuras humanas, bares e lugares que hoje contrastam com a velha Mata de Petrópolis onde Câmara Cascudo passeava a cavalo em companhia do poeta Henrique Castriciano.

Este é o prefácio que escrevi, refazendo os caminhos antigos, no rastro dos velhos guias da cidade, guardados até hoje com

muito gosto.

Compartilhar: