Brasileiro vira herói dos palestinos em reality de MMA no mundo árabe

Nascido no Rio Grande do Sul, Gabriel Tayeh foi convidado a participar a Palestina no programa Desert Force

Tayeh optou por representar a terra dos avós palestinos. Foto:Divulgação
Tayeh optou por representar a terra dos avós palestinos. Foto:Divulgação

Nascido em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, o lutador brasileiro Gabriel Tayeh, 23 anos, participa do mais famoso reality show de MMA (Artes Marciais Mistas) do Oriente Médio, o Desert Force, como representante dos Territórios Palestinos.

Sem patrocínio no Brasil, e convidado pelo criador do programa que reúne lutadores apenas de países árabes, Tayeh optou por representar a terra dos avós palestinos.

“Eu moro e treino no Brasil, meu país que amo. Mas meu carinho pela Palestina é muito grande porque o povo de lá passa por uma situação difícil”, disse ele à BBC Brasil.

Como as lutas são realizadas em países árabes, o gaúcho precisa sempre viajar do Brasil ao Oriente Médio, o único atleta no reality show nesta condição, já que os outros moram no mundo árabe.

Mas para Tayeh, o sacrifício e cansaço das viagens é recompensado com o carinho que recebe da torcida palestina e árabe em geral. Narradores do canal que transmite o programa o descrevem como o “mais carismático e exemplar” entre os atletas.

“Os árabes têm um carinho muito especial pelo Brasil, não somente no futebol, mas também pela sua tradição em lutas e a simpatia do povo brasileiro. Além disso, o mundo árabe se solidariza quando um atleta palestino representa um povo que ainda luta para estabelecer seu Estado”, disse o gaúcho, que também fala o árabe.

“Relação forte”

A cada luta, amigos e familiares em lugares tão distantes como o Brasil e os Territórios Palestinos se reúnem para torcer, o que desperta orgulho no brasileiro. Segundo ele, parentes e fãs em Ramallah e Belém, na Cisjordânia, sempre acompanham suas lutas pela televisão.

“É legal isso, ter torcidas de nacionalidades diferentes. Me sinto muito brasileiro, mas não posso negar que me dá uma emoção extra quando faço a alegria de um povo tão sofrido como o palestino”, disse o jovem que pratica MMA há cinco anos e também é professor de Jiu-Jitsu.

É muito comum atletas de vários esportes se naturalizarem para defender outros países por dinheiro. Mas para Tayeh, o fato de não lutar pelo Brasil não tem a ver com dinheiro.

“Primeiramente eu não precisei me naturalizar palestino. Eu sou palestino. Luto por paixão e orgulho pela Palestina assim como lutaria com o mesmo espírito pelo Brasil. Quando entro no ringue, faço questão de mostrar minhas duas origens.”

De acordo com ele, os palestinos na Cisjordânia o veem como um conterrâneo, mas também gostam do fato do atleta ser brasileiro.

“Há uma relação muito forte entre palestinos e brasileiros. Há muitos brasileiros de origem palestina vivendo na região de Ramallah.”

Treinos e projeto social

Na última sexta-feira, dia 7, Tayeh entrou no ringue no estádio Al Khalifa, em Manama, capital do Bahrein, e venceu mais uma luta contra um adversário local, somando quatro vitórias e duas derrotas.

Embora o Brasil seja uma das forças do esporte no mundo, o jovem acredita que isto não o ajuda na hora de enfrentar seus adversários.

“Hoje em dia, o MMA é do mundo. Mas talvez eu me sinta um pouco mais preparado do que outros por treinar com lutadores muito fortes”, disse.

Na família, a luta é uma tradição – seu tio e grande incentivador também é professor de jiu-jitsu. “Todos me dão muita força, seja no Brasil ou na Palestina. Sempre chego às lutas com espírito de vencedor e muita confiança”, afirmou.

Para enfrentar os outros lutadores no reality show, Tayeh teve intensos treinos específicos durante dois meses, que incluíram boxe, jiu-jitsu, lutas-treino e parte técnica.

“Eu fazia luta treino e técnica e preparação física três vezes por semana. Além disso, fazia boxe duas vezes durante a semana e jiu-jitsu todos os dias”, contou.

Mas não são apenas os torneios que recebem atenção e preparação de Tayeh. Ele também é engajado em um projeto social, junto com outros lutadores de sua cidade, em um projeto social em São Leopoldo com 22 crianças carentes.

“Elas recebem gratuitamente aulas de jiu-jitsu, ganham um kimono de presente e recebem atendimento médico e odontológico”, explicou.

Para ele, o esporte é a melhor arma contra a o envolvimento de crianças em violência e drogas, que ainda sonha em um projeto destes nos Territórios Palestinos.

“Acho que elas (as crianças palestinas) precisam de mais oportunidades, pois vivem em um meio de violência, opressão e poucos incentivos para desenvolver o potencial que elas têm, enfatizou Tayeh.

Espírito guerreiro e ídolos

O Desert Force é o programa de lutas mais popular no Oriente Médio, trasmitido para 22 países do mundo árabe e o mundo via satélite. Segundo a emissora, a audiência do programa é de 30 milhões de telespectadores, em sua maioria jovens, que cada vez mais entram para a prática do esporte.

Uma mistura de reality show com torneio, o Desert Force reúne 300 atletas árabes que participam de várias etapas dividos em categorias por peso.

O criador e diretor-executivo do programa, o jordaniano Zaid Mirza, 34, se inspirou no Brasil para incentivar o esporte em terras árabes. Filho de um ex-embaixador da Jordânia no Brasil, ele morou muito tempo em Brasília e aprendeu o português.

“O Brasil tem grande tradição nas lutas e me inspirei no UFC para criar algo no Oriente Médio. Eu senti que havia um potencial no espírito guerreiro dos árabes, mas também uma carência de ídolos nos esportes que poderiam servir de inspiração para os mais novos”, enfatizou.

Além das lutas, os atletas gravam o reality show chamado de Academia Desert Force, com os bastidores das preparações, treinos e outros desafios.

“Não é apenas um grande torneio que reúne os melhores lutadores árabes e juízes, mas também um grande show de entretenimento que atrai cada vez mais telespectadores”, disse Mirza.

Os melhores lutadores no ranking passam para as etapas de lutas eliminatórias até o cinturão. Além do título, o vencedor recebe US$ 40 mil, um ano de treinamento no Brasil ou nos Estados Unidos e um salário mensal de US$ 2 mil.

Fonte:IG

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