Breve capítulo sobre o show de Roberto Carlos no sábado passado

Garibaldi, Robinson Faria e Carlos Eduardo Alves foram súditos do rei

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Havia dois minutos que eu estava parado no trânsito corriqueiro da avenida Romualdo Galvão em dia de Midway lotado, quando vi no celular que passavam seis do horário estabelecido pela assessoria do show de Roberto Carlos para a chegada da imprensa. O cartaz anunciava portões abertos às 21h, do último sábado (30), e meu sentimento de impotência diante daquele mar de automóveis só foi reduzido na hora em que, finalmente, a fila andou e vi um desses estrangeiros, a maioria sul-americanos que acreditaram no filme Bonança do Vizinho Poderoso, brincando com fogo no cruzamento com a Bernardo Vieira. Ele arriscava o couro com três tochas flamejantes, enquanto sustentava um sorriso tenso, como determina a norma circense. Chego ao piso G5 e vejo que encontrar uma vaga me roubará mais tempo. “É o preço a ser pago pelo Nunca na história deste país…”, pensei.

Até que encontro o repórter fotográfico de O Jornal de Hoje, José Aldenir, antes de ficarmos no foyer (anglicismo para antessala de um auditório) do Teatro Riachuelo à espera de orientações sobre o local que ocuparíamos durante a apresentação. A ideia de escrever um relato simples e pessoal foi alterada rapidamente com a presença do ministro Garibaldi Alves Filho.

Encontrar uma pessoa pública em um momento de lazer é sempre uma experiência curiosa. Sem a indumentária e o séquito protetor, muitos mudam o tom. O que não é o caso do ex-governador, conhecido por sua naturalidade e bom humor em qualquer ocasião. “Não tenho muitos segredos e não sou um ídolo”, ele diz sobre a polêmica das biografias, cujo epicentro foi o veto do rei ao livro Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista Paulo César de Araújo.

Detalhes que, por sinal, era a musica mais aguardada por Garibaldi. “Mas acho que ele deveria autorizar”, complementa com o famoso sorriso. Parte da elite da cidade tinha desembolsado trezentos reais e queria aproveitar cada instante da noite. Sem fila alguma na entrada do teatro, as pessoas chegaram cedo. Caso do prefeito Carlos Eduardo Alves e de sua esposa Andréa Ramalho. Trajado com uma camisa junina, o gestor municipal disse ser fã de Roberto Carlos desde os tempos do iêiêiê, época em que dançava em festinhas adolescentes. Nos primeiros segundos da breve entrevista, talvez por defesa natural, não sei, ele me lança um olhar desafiante, ao ouvir o nome O Jornal de Hoje.  Para desarmá-lo, trato de deixar claro que o papo ficará restrito ao show, e pergunto sobre sua reação a uma suposta devassa em sua vida pessoal.

“Sou a favor das biografias sem autorização do biografado, mas sem que atinja a honra de ninguém”. Se para a plateia ou não, a jogada de todo político é seguir a corrente da sociedade, mesmo que no foro íntimo das votações nas câmaras e assembleias sustentem anonimato com unhas e dentes. Tudo bem, abandonei indagações críticas, o povo queria festa, porque Chico Popular, ou o Chico do bar de Roberto Carlos, apareceu com seu cabelo Jovem Guarda e autoridade de quem mantém há mais de duas décadas, em Lagoa Nova, um estabelecimento dedicado ao maior artista da música brasileira, onde reza a tradição que o cliente é isentado de pagar a conta se pedir alguma faixa do ídolo que inexistir no repertório da casa. Sem passar por um detector de metais ou revista, como todo mundo que entrou no teatro, Chico era só alegria.

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“Virei fã de Roberto depois de ouvir Jesus Cristo [a música, eu espero]. Era uma época que eu estava sozinho e aquilo me chamou a atenção. A partir daí eu fui adquirindo coisas dele, até que montei o bar há 23 anos”, diz Francisco de Assis Silva, nome no RG de Chico Popular. Relutei em tocar em assuntos como o Transtorno Obsessivo Compulsivo que dizem sofrer o rei, e na perna mecânica decorrente de um acidente com um trem, quando tinha seis anos. “E Chico vai querer saber disso?”, foi minha conclusão. Só que oba oba estava fora de meus planos, mesmo com tanta gente animada e devota de são Roberto. “Chico, e esse negócio das biografias, o que você acha?”, perguntei. A resposta foi a mais óbvia possível. “Sou a favor de contar tudo da vida profissional, da pessoal não. Tem que respeitar e não denegrir a imagem de ninguém. Se uma pessoa quer manter segredo de algumas coisas, temos que respeitar”.

Fomos posicionados do lado esquerdo do palco, colados a uma gigantesca caixa de som, e ouvimos a cartilha com as regras para o nosso trabalho. “Ele não dá entrevistas e só pode tirar fotos na primeira e na última música”, avisou a assessoria. Manias do rei. Quem acompanha sua carreira sabe que elas são inúmeras. Uma delas é a empostada da voz ao final de cada sentença, na hora em que está declamando algum poema ou narrativa cômica – o que cria o efeito caricato reinterpretado por centenas de comediantes. Às 22h27 o público demonstrou impaciência com o atraso ao bater palmas de incentivo. “Pagamos caro e queremos respeito, só isso”, estava embutido no gesto. Mais treze minutos e a banda aparece no palco para emendar um pot-pourri instrumental com parte dos clássicos de Roberto.

E eis que Emoções ecoa pelo teatro. Uma voz firme, afinada, de quem cuida bem do pulmão, surge no autofalante no pé de minha orelha. “Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo”. Logo forma uma atmosfera especial, algo que só os grandes artistas conseguem. Uma espécie de congraçamento ritualístico entra em ação, feito uma comunhão de anseios e desejos realizados pelo cantor de 72 anos. Ele cumpre o que se espera com a mirada fixa nas expressões abismadas da maioria presente, e o sorriso aberto e emoldurado pelo tradicional terno branco e camisa azul clara. Olho para trás e vejo uma senhora imersa na cadeira, hipnotizada com a imagem do telão e o coral quase místico que seguia a lista de sucessos que parecia não ter fim. Como bom fotógrafo, José Aldenir continuou disparando o obturador também imerso em seus afazeres.

Todas elas estavam lá. Além do Horizonte, O Calhambeque, Lady Laura, Eu Te Amo, etc. A certa altura, Roberto pega um violão e toca acordes de forma amadora, ainda que precisa. É uma versão do tema preferido do ex-senador Garibaldi. Só que outra cabeluda apareceu em nossas vidas. O momento intimista estimulou uma mulher de aproximadamente 55, 60 anos, e madeixas vermelhas feito jambo maduro a gritar que Roberto teria lhe dado um beijo em 1968 – ou algo parecido.  A gargalhada coletiva prenunciava um show humorístico à parte. Acontece que a mulher da cabeça vermelha gostou da acolhida e abusou do crédito concedido à sua idade. Na insistência dos gritos, veio o chiado forte como pedido de silêncio. Uma funcionária do teatro teve de convencê-la. O cenário destoava de confrontos, e destemperança combinava com aquela reunião espiritual.

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Aí chega a hora da White Party. O rei informa que será lançado nas próximas semanas um EP com remixes de cinco músicas de sua autoria, em parceria com Erasmo Carlos, para em seguida cantar Fera Ferida numa batida eletrônica que meu ouvido esquerdo escutou com todas as ondulações auditivas imagináveis. Típica versão caça-níquel descartável, sem atrativo que justifique a aquisição do disco, fora atualizar a coleção. Ele se recupera com sobras, é claro, sobretudo com Esse Cara Sou Eu, seu mais recente sucesso que encantou Glória Perez a ponto de levá-la para a trilha da novela Salve Jorge. A generosidade com que trata seus músicos ficou nítida na hora de apresentar a banda – raros são os que conseguem fazer isso sem ser enfadonho, ainda mais sem o ligeiro solo individual após a citação de nomes e instrumentos (senti falta).

Mais de duas horas tinham se passado e o homem estava disposto a garantir o desfecho perfeito da cerimônia religiosa-musical em que era proibido fumar, pensar na namorada de um amigo meu e, por fim, jamais tentar esquecer aquilo tudo, pois Roberto Carlos canta uma reprise de Detalhes no penúltimo número, para que nenhuma (o) outra (o) cabeluda (o) falasse em nosso ouvido: “E tudo isso vai fazer você lembrar de mim”. As pessoas correram para frente do palco, se abraçaram, levantaram faixas e entregaram objetos, alguns recolhidos pela produção. “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui”, era o hino de encerramento. Ele empunhava dezenas de flores brancas e vermelhas, beijava cada uma antes de entregar nas mãos afoitas que disputariam o que fosse preciso para saírem dali sublimadas. O vice-governador Robinson Faria, já do lado de fora do teatro, sem flores na mão, deu a medida do que a cena significou para toda àquela gente que estava pouco ligando para biografias autorizadas, pernas biônicas ou casos com mulheres de amigos. “Sou fã de Roberto desde a infância. Suas letras e músicas dizem muito para mim”. A volta para casa foi tranquila, com a madrugada de domingo adiantada, e a sensação de prazer cumprido. Mesmo com todo o recente desgaste, novas histórias foram contadas. E novos admiradores foram conquistados.

 

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