Breve comentário sobre música da terra de Picasso, Garcia Lorca e Iniesta

“La Leyenda Del Tiempo”, de Camarón de la Isla, é considerado o “Sgt. Pepper’s” do flamenco moderno

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Responda de forma politicamente incorreta: o que um vizinho pensa do outro que gosta de escutar flamenco bem alto? No mínimo que ele banca o toureiro diante do espelho com uma calça apertada ou algo parecido, não é? Quem sabe uma castanhola com sapateado na sala? Ele é conhecido no prédio como o cara que banca o cigano quando está sozinho. Puro Magal. Gosto de ouvir flamenco por, no máximo, 30 minutos. É o tempo exato para ele sonorizar a melancolia brega que existe em todos nós – muitos procuram esse tipo de trilha em Roberto Carlos, Moacyr Franco, Nelson Gonçalves e na maior parte do samba clássico. Outros aceitam numa boa essa turminha da neo MPB que solta downloads adoidado.

Samba, por sinal, que mantenho o mesmo limite para consumo. Não aguento mais que meia hora de cavaquinho e malandragem ufanista, embora me emocione com frequência a cada descoberta. No flamenco, o excesso de violões e vozes estridentes delimita o tempo. Acho aquele erotismo cigano forçado demais para se sustentar. Mas, de vez em quando, vale tomar pequenas doses dessa música que Federico Garcia Lorca dizia que “[...] vem do primeiro soluço e do primeiro beijo”. Uma das mais fortes e revigorantes é o disco “La Leyenda del tiempo”, de Camarón de la Isla – ou simplesmente Camarón, como era chamado no final da carreira. Ele é tão bom que justifica ultrapassar o tempo que negociei para o flamenco aqui em casa.

Na Espanha o consideram um marco como “Sgt. Peppers…”, por sua mistura com jazz e rock progressivo que inaugurou uma era. À época, para variar, o disco revolucionário vendeu pouco. Falamos da fundação do flamenco moderno, ok? Em dezembro passado foi lançada uma edição de luxo para comemorar o 35º aniversário de “Leyenda del Tiempo” – o pacote inclui CD, DVD com o documentário “Tiempo de Leyenda” (disponível no Youtube), vinil e livreto com mais de 60 páginas. São dez músicas antológicas, cinco delas adaptações de textos teatrais de Garcia Lorca feitas pelo produtor Ricardo Pachón.

Pachón, por sinal, é quem está à frente do projeto, pois Camarón morreu em 1992, vítima de um câncer no pulmão, com apenas 41 anos de idade. O músico era o penúltimo filho de uma família de ciganos andaluzes da localidade de San Fernando, próxima a Cádiz, que fica numa ilha (daí o la Isla do nome de guerra). Entre 1969 e 1977 gravou nove discos com Paco de Lucia, monstro da guitarra cigana (no final deste texto tem a interpretação magistral dos dois para Bulerías). Mas foi com Leyenda… que ele virou mito em um país então tratado como de segunda categoria na Europa Ocidental – ainda que seu Soy Gitano, de 1989, seja o disco mais vendido da história do flamenco.

Jorge Monge Cruz, o Camarón, gravou “Leyenda…” com músicos do rock progressivo espanhol. Estava tão empolgado que passou um mês socado na casa de Pachón revendo arranjos e composições que o produtor lhe mostrou – a ideia inicial era usar poemas de Manuel Molina, mas uma confusão entre as esposas de Pachón e do poeta finalizou a negociação. No documentário tem fotografias e imagens daquele período de efervescência cultural e política na Espanha, com diversos eventos de música, poesia e arte contemporânea de estética hippie na tierra madre do surrealismo – Franco morrera dois anos antes, em 1977, quando os espanhóis tiveram eleições democráticas depois de 40 anos de ditadura.

A voz rasgada, sofrida de quem pede para a amada pensar mais um pouco antes de cruzar a porta aparece em temas, como “La Tarara”, “Volando Voy” (virou hino ‘camarônico’) e “Nana del caballo grande”, espécie de “Within You Without You” gitana, com suas cítaras similares às que George Harrison trouxe no clássico dos Beatles de 1967. Camarón era contratado da Philips por uma mixaria mensal, sem direito a royalties. Pachón então o ofereceu a CBS, que prometeu tratá-lo como estrela. Mas uma melhorada salarial, a liberação do principal estúdio sem limite de tempo e a possibilidade de tocar com jazzistas madrilenos o amarraram onde estava.

Se o flamenco é fora de moda entre a juventude espanhola, que veem o som triste e rebuscado como algo regional, popular e do gueto cigano, fora de uma realidade urbana e americanizada, Camarón tratou de promover a integração entre o folclore e o que fazia a cabeça dos jovens naquele momento.

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