Caçadores da arca perdida
Em “A Vindication of natural society” (1756), o filósofo liberal irlandês Edward Burke, um dos maiores oradores da história do Reino Unido, defende a ideia de um direito natural do homem, cuja vida física e espiritual tem autonomia dentro da estrutura de uma sociedade, até o ponto em que não interfira no funcionamento desta. Lá pelas tantas, ele diz: “[...] nove partes em dez de toda a Raça Humana trabalham penosamente durante toda a vida”.
No século 18, um inglês típico vivia como um escravo romano – sem assistência médica, analfabeto e consumia menos de 1500 calorias por dia. Um resignado que aceitava a divindade ou a natureza como determinantes na definição de classes. Mesmo assim, estava em melhores condições que correlatos franceses e alemães. Passados dois séculos e meio da constatação de Burke, ainda que a fome e a miséria grassem parte da humanidade, vivemos um período de bonança, quanto ao bem-estar social, conforto e natalidade.
Mas isso teve um preço e agentes responsáveis. Com talento literário, riqueza biográfica, contextualização dos cenários e nações onde surgiram as primeiras experiências econômicas como conhecemos, a alemã Sylvia Nasar (autora de “Uma Mente Brilhante”, livro adaptado para o cinema que rendeu quatro Oscars em 2002, dentre eles o de melhor filme e a indicação de melhor ator para Russel Crowe) perfaz duzentos anos em seu “A Imaginação Econômica – Gênios que criaram a economia moderna e mudaram a história”.
Elogiado por publicações como a The Economist e o The New York Times, o livro traduz para uma linguagem simples um assunto distante do leitor comum. Esqueça fórmulas e teorias expostas em textos longos, com novas expressões e conceitos intrincados. Ambientado entre 1750 e 1950 (Revolução Industrial, Capitalismo e ascensão norte-americana como o maior laboratório social que o mundo já viu), são perfis e dos reformuladores do pensamento sociopolítico.
Desde Thomas Malthus, que acreditava na demografia para explicar a pobreza (mais gente, menos comida); Karl Marx, o guru do socialismo que nunca entrou em uma fábrica inglesa e, segundo a autora, era um preguiçoso intelectual; Alfred Marshall, o pai da economia moderna; John Maynard Keynes, que defendia certa intervenção estatal em tempos de crise; até Beatrice e Sidney Webb, fundadores da London School of Economics and Political Science; “A Imaginação…” mostra como essas pessoas lutaram para combinar eficiência econômica, justiça social e liberdade individual.
Em uma época em que o pecado era inerente aos pobres, enquanto ricos eram naturalmente virtuosos, os ‘gênios’ não se conformavam com tanta riqueza na mão de poucos. Londres simbolizava o Milagre do século 19, quando, em menos de cem anos, viu o PIB inglês crescer mais que nos mil anteriores – “A burguesia [...] criou maravilhas que superam em muito as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos e as catedrais góticas [...] conduziu expedições que puseram na sombra todos os Êxodos e cruzadas anteriores das nações”, constatou Marx.
Ao final de cada capítulo, bate a vontade de estendermos o conhecimento sobre os personagens e suas bandeiras – como não se empolgar com Alfred Marshall, monstro da matemática que viu na educação feminina, na qualificação para elevar salários e na mobilidade americana, após uma viagem em que ficou deslumbrado com a pujança econômica da antiga colônia, a solução para as sociedades atenuarem o fosso que apartava a elite dos esconjurados? Enquanto pensadores alemães buscavam respostas na religião, ingleses se antecipavam e viam na economia a chave para mudanças.
Outros estudiosos e homens de ação, como Joseph Schumpeter, Friedrich Hayek, Joan Robinson e Irving Fisher ganham relevo no livro. Todos com a mesma batalha: expandir horizontes, promover novas qualificações através de estudos e negócios para, enfim, gerar independência individual (base do empreendedorismo) com o aumento de salários e a dinamização da economia. Como evidencia o título original, “The Grand Pursuit” (A grande caçada), estes homens perseguiram e colocaram sobre a mesa um banquete de questionamentos e soluções que até hoje dirigem nossas vidas.
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