Cadeia de omissão
Quando eu acordei no domingo pela manhã e vi as primeiras notícias sobre o incêndio em Santa Maria os números já chegavam a 150 mortes. Senti logo um frio na espinha, um sentimento estranho de impotência, perplexidade e dor. É impossível imaginar o desespero de alguém que perde inesperadamente as pessoas que amam. Já são mais de 230 mortes. Números que impressionam, mas que não podem ser tratados apenas como números. São mais de 230 famílias destruídas, uma cidade devastada pelo luto, um Estado que chora pelos seus habitantes, um país que se impressiona, que lamenta, mas que não consegue se indignar com nada.
Como é triste ser parte de uma massa sem identidade. Que país é esse? Que povo manipulado e sem brio. Me causa uma revolta tremenda sermos um país que se acostumou a viver com a corrupção. Que o roubo e a falcatrua dos administradores sejam tratados como assuntos normais. Uma tragédia como a de Santa Maria tem uma infinidade de fatores que nos tornam ainda mais indignos. Não cuidar do seu povo reflete em todos os níveis. Se os nossos governantes não se preocupam com nossa saúde e segurança, porque empresários fariam isso. Vivemos numa cadeia de omissão.
Omissos pela falta de um fio de aço. Omissos por ver e ouvir tanta gente que já passou pelo poder criticar as estruturas que hoje estão no comando, mesmo sabendo que ele também é culpado por todos os males que hoje nos afetam. Somos um país em que se rouba em todas as frentes. Do saco de feijão que a cozinheira da escola pública deixa de colocar na panela dos alunos, do superfaturamento que o diretor repassou para a secretaria de educação, do secretário de saúde ou educação que fez uma negociata para ganhar uma boa comissão, do prefeito que prefere trocar favores em detrimento ao seu povo, do governador que comanda uma teia de negócios em que a população não é o nunca o principal beneficiado. De vereadores que superlotam seus gabinetes, de deputados que não se apresentam ao trabalho. Mas principalmente, de um povo que é omisso e hoje apenas observa o cenário sem nenhuma capacidade de aglutinação.
Eu sinto vergonha por estar em frente ao computador apenas lendo o que se passa. Por não poder fazer nada que realmente possa interferir na estrutura. Só posso fazer a minha parte. Me pergunto também como tanta gente consegue dormir e aproveitar tranquilo o luxo que conquistam em detrimento ao sofrimento do povo. Lembre-se, político eleito ou que já passou pelo poder, ao aproveitar o sol ao lado da sua piscina, ela está cheia de sangue e você contribuiu muito para matar tanta gente de fome, sede, sem assistência hospitalar. Você é culpado. E eu me sinto culpado simplesmente por ter um dia a obrigação de sair de casa e depositar meu voto em você.
Em alguns dias chega o carnaval e o que aconteceu em Santa Maria, para grande parte do país, se transformará apenas em mais um desastre. Para àquelas famílias a dor será eterna. Não haverá um só dia pela frente que não seja de lamentação, revolta, saudade. E a nossa cadeia de omissão seguirá acompanhando novos escândalos. E enquanto poucos desfrutam do luxo adquirido ilegalmente, outros batalham para sobreviver a seca do sertão. Novos deslizamentos acontecerão nas encostas dos morros. Enchentes tomarão cidades. Incêndios queimarão nossos corpos e alma. A violência urbana tomará as nossas casas e os nossos filhos estarão entregues aos “filhos(as) dos pais” que já mamaram a vida inteira no poder e pensam que governar é um dom hereditário. E a gente só assistindo.
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