Caiçara
Recebeu de Talvanes, na maior tranquilidade, deixou Piaba na rua e Floro na saudade. Versinho perverso. Talvanes era o meia do América, Piaba o xerifão da zaga e Floro o goleiro do ABC no jogo mais trágico da história alvinegra. O empate garantia o título de 1969 e a torcida acenava com lenços brancos aos resistentes americanos no Estádio Juvenal Lamartine.
No minuto final, o atacante Alemão, de técnica tosca, chutou e silenciou o estádio. O América venceu, forçou uma partida extra e terminou campeão ganhando de 2×0. No famoso jogo do gol de Alemão, a estrela programada era o meia paulista Esquerdinha, canhoto driblador, devasso sedutor de mulheres, um dos 10 mais elegantes da cidade.
Quando o jogo estava 0×0, teve duas chances de marcar, uma driblando a defesa do América e o goleiro e perdendo a bola e a outra, livre, sozinho na risca do gol. Foi escorraçado e acusado de suborno. Morando em Cotia(SP), prestes a fazer 70 anos, nega até hoje a falcatrua.
O ABC virou letra de música de dor de cotovelo. Tratou de mudar 98% do time. Ficaram apenas o craque Alberi e o ponta-esquerda Burunga. O dirigente Bira Rocha, impulsivo, passou o rodo. Com o lendário José Prudêncio Sobrinho(morreu em 2002), apostou na vedete nordestina para sacudir o time, quatro anos sem título.
Em 1970, chegava a Natal, consagrado no Ceará e em Pernambuco, o técnico Caiçara, de olhar siciliano, sobrancelhas grossas, ídolo quando zagueiro do Náutico(PE) onde fez 250 jogos e integrou a seleção pernambucana, jogando depois no Vitória de Guimarães em Portugal.
Caiçara agitou Natal em 1970 e arrumou o ABC que bateu forte no América, vingando-se com juros e correção do pesadelo do ano anterior. Caiçara, segundo Bira Rocha, exigente e organizado, pertencia à extinta estirpe dos treinadores que usavam o time contratado pela diretoria.
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Ainda não havia para nós Rita Lee nem os nefastos empresários. Caiçara recebeu os jogadores e com eles adotou um pacto de companheirismo e cobrança. Notívago, era visto no antigo Kazarão, reduto de políticos e celebridades provincianas.
Dividia mesas com seus jogadores na psicologia informal dos sábios natos. Ganhava a confiança dos marmanjos que retribuíam com títulos. Caiçara montou o ABC com um craque pronto e um gênio em gestação.
Alberi, aos 25 anos, fazia a cidade parar e cobrar, como prioridade absoluta, um palco digno para os seus recitais. Dois anos depois estava pronto o Estádio Castelão, demolido para a Copa do Mundo. Caiçara, em seu aspecto sisudo e observador, percebeu e entregou a camisa 6 a um jovem loiro, risonho e abusado.
Começava, de verdade, a fantástica travessura de Marinho Chagas brincando de viver e jogar futebol, ultrapassando a intermediária e causando frisson na Frasqueira acostumado a laterais meramente defensivos. Marinho, um ano após, estava no Náutico e, em 1972, estreava pelo Botafogo contra Pelé.
Caiçara foi a referência emblemática do título do ABC em 1970. No ano seguinte, famoso e requisitado em Natal, foi para o América. Uma bomba. Fracassou. No primeiro clássico, os jogadores do ABC lhe entregaram a faixa do título de 1970, o primeiro do tetra.
Cigano messiânico, Caiçara seguiu adiante. Campeão no Ceará, no Fortaleza, no Botafogo(PB), invicto pelo América em 1982 e em 1987, trazido por Jussier Santos. Voltou ao ABC em intervalos em 1974 e 1988. Foi mal.
Caiçara(antepenúltimo em pé na foto) morreu em Recife(PE), aos 80 anos. É dos moicanos da geração de treinadores de artimanhas, truques ensaiados, mandingas e olho clínico para os craques. Nunca usou paletó para ser campeão. Usava a inteligência.
Beirada
Repórteres daqui e de sites de fora, chamam Vanderlei, novo atacante contratado pelo ABC, de jogador de “beirada” de campo. É bom checar se não contrataram um bandeirinha. O neologismo da mediocridade ainda mata um.
Rodrigo Tiuí
Boa contratação do América. Mas não é o homem de área esperado por Roberto Fernandes.
Oportunismo
O Sindicato dos Atletas Profissionais, que não é presidido por um jogador em atividade, quer parar o campeonato por conta da morte do jogador Neto Maranhão, do Potiguar de Mossoró, de ataque cardíaco durante um treinamento onde não havia médico.
Primeira vez
Além de não trazer Neto Maranhão de volta, a atitude inconsequente prejudicaria seus colegas de profissão, que dependem do futebol para alimentar suas famílias. Mais: Nunca, nunca vi(pelo menos eu), o Sindicato brigar com ímpetos bolcheviques por melhores condições de trabalho.
Médico
A falta de médico para os primeiros socorros, atestada em imagens do Canal de TV TCM, vai sair cara ao Potiguar de Mossoró. Vem demanda judicial com absoluta certeza. O Potiguar é apenas um, entre zilhões de clubes de profissionalismo apenas na palavra.
Alex e o JL
O jornalista Alex Medeiros saía das Quintas a partir de 1967 para o Estádio Juvenal Lamartine acompanhado pelo irmão mais velho, Graco. Abria-se o mundo do futebol que ele domina com a habilidade de um Adílio em bailados de samba no Maracanã lotado.
Seleção
Alex Medeiros escalou sua seleção com base no que os olhos de menino viram para se encantar, na timidez maravilhada sentado nas velhas arquibancadas de madeira do JL: Dedé(América); Cândido(Alecrim), Edson(ABC), Ivan Matos(ABC) e Marinho Chagas(ABC); Pedrinho(Alecrim), Véscio(América), Vasconcelos(Alecrim) e Alberi(ABC); Icário(Alecrim) e Evaldo Pancinha(ABC)
Artur
Na primeira pessoa é contra o manual da profissão, embora a profissão esteja povoada de Manés. Imagino sua paz inquieta, Arturzinho, a partir de hoje , convocado à luta que nunca pediu para desistir no comando do futsal do América.
Homenagem
Emanuel, a entidade espírita, me poupe de homenagens depois de morto. Emanuel. O gesto do América em relação a Arturzinho fez da Rodrigues Alves jamais uma Manhattan. Nunca.
Atitude
A atitude do presidente Alex Padang com o homem de pelo de pluma de profissão de fé pela bola pesada deve tê-lo feito voltar à Rodrigues Alves de 1957. Tão simples. Tão Djalma Maranhão. Tão Artur. No grito histriônico. Tão gêmea com a Natal ideal.


