Cainçalha – Vicente Serejo

Levei anos para descobrir a palavra cainçalha. Não sei quantos. A juventude inteira e uma parte do homem feito, como…

Levei anos para descobrir a palavra cainçalha. Não sei quantos. A juventude inteira e uma parte do homem feito, como se diz em Macau. Ao descobrir, fiquei sem saber o significado, até chegar em casa e consultar o dicionário. Surpreso, li que é o coletivo de cães, eu que levei muito tempo certo de que alcateia resolvia o problema. Não resolve. Alcateia é coletivo de lobos. E lobos, como se sabe, não são cães. Além de suas várias rimas, diluições e desdobramentos que só aos poucos a gente descobre.

Naquela hora da descoberta, lembrei o Fantasma, o Espírito-Que-Anda. Ele também enfrenta problemas quando deixa a Floresta Negra, em Bengala, sob a guarda dos pigmeus Bandar. E viaja à África do Sul para ver a namorada, Diana Palmer, uma bela ex-campeã de Natação. Ao embarcar nos navios, alguém sempre avisa em tom de proibição que não são permitidos cães a bordo. O sr. Walker – é esse seu nome fora da Floresta Negra – responde com sua voz cavernosa: ‘Não é um cão. É um lobo’.

Pois bem. Cainçalha é substantivo feminino, coletivo de cães, e significa bando. Seria pouco, quase nada, se ficasse apenas ai. É cainçalha porque vem de cainça. E assim fui descendo a ladeira na busca de novas explicações. Cainça, creia, é a versão, digamos, feminina porque também designa um ajuntamento de cães que pode se chamar canzoada. O verbo seria cainhar, soltar cains de sofrimento ou ganir, como informa o Houaiss, daí cainheza, mas ai tem o sentido também de cainho, mesquinhez.

Diga-se, por dever de ofício, que um ajuntamento de cães também é chamado de matilha. Não se confunda, nem por brincadeira, com súcia, que nunca deixa de ser bando de velhacos e traiçoeiros. Embora matilha, desde seu uso mais antigo, tenha raízes enobrecidas, pois se refere a um belo grupo de cães de caça daqueles que envaideciam os reis caçadores. Sem perder um sentido mais humano, pois matilha pode ser um bando de humildes e alegres vira-latas, como na crônica de Antônio Maria.

É por isso que as palavras encantam Senhor Redator, e às vezes, decepcionam profundamente. Há muitos anos, na sala de Aurino Araujo, em Marpas, onde hoje um arranha-céu espeta o céu antigo e calmo da Ribeira, ouvi o doutor Eudes Moura dizer que não era quebra-vento o nome daquele vidro triangular na porta do fusquinha. E disse consciente no peso do vernáculo: ‘O nome é defletor’. Com seus movimentos para um lado e outro e permitindo direcionar o vento. Portanto, defletindo o vento.

E há palavras antipáticas. Todavia tem gosto de nada. Porém só serve para acanhar a fluidez do texto. Malgrado, francamente, destrói uma vida e um entretanto mata o amor. Entrementes, então, é de um pedantismo insuportável. Às vezes, parecem feias. Mas se postas no lugar certo, iluminam a frase. Prestante, por exemplo. Parece coisa de perito criminal. Mas ganha charme no Soneto do Amor Total, de Vinícius de Morais, quando o poeta confessa: ‘Amo- te afim, de um calmo amor prestante’.

AUSÊNCIA – I

O senador José Agripino é até agora a grande ausência na tela da propaganda eleitoral para pedir votos. Nos programas de Henrique Alves e nos programas de Wilma. Até do seu próprio filho, Felipe Maia.

MOTIVO – II

Para uns, é porque sua imagem tem ainda uma forte vinculação com a governadora Rosalba Ciarlini e isto afugentaria o indeciso. Para outros, é seu estilo de só aparecer na fase mais decisiva da campanha.

LEITURA – I

Ao afirmar que na educação não admitirá política o candidato Henrique Alves sugeriu aos mais atentos que na verdade é uma carta de prego: seu compromisso de manter a atual secretária Bethânia Ramalho.

DESDE – II

A permanência da professora Bethânia já teria sido acertada quando de uma conversa com o ex-reitor Ivonildo Rego patrocinador do nome desde o início do governo de Rosalba e para prestigiar a UFRN.

OPOSIÇÃO

Uma coisa ninguém pode negar à candidata Wilma de Faria: assumiu a oposição com a autenticidade e diante de Garibaldi Filho e Henrique Alves que apoiaram o Governo Rosalba e só romperam já no fim.

DIFÍCIL

Natal é uma cidade difícil. Da pesquisa Ibope desconfia por achar que beneficiará Henrique Alves com uma maioria exagerada. Da pesquisa Consult já se desconfia chamando Datawilma. Assim fica difícil.

MESTRE

A casa está em festa: Andrei Gurgel, marido de Odyle, recebeu o seu diploma de primeiro Mestre em Design da UFRN e o primeiro do Brasil na modalidade profissional. Final feliz para a longa pesquisa.

PESQUISA – I

Os números da pesquisa Ibope atestam a lógica da projeção: Dilma vence Marina por apenas 5 pontos tendo ainda mais de trinta dias de campanha. Pode chegar, sim, ao segundo turno, liderando a disputa.

ALIÁS – II

A grande performance durante o debate de ontem à noite foi de Marina. Aécio é um conservador com conversa de moderno e o candidato do PV passou um tal nível de sinceridade nunca visto em política.

OFÍCIO – I

De Diógenes da Cunha Lima direto de Vancouver: ‘Serejo, contemplar é belo ofício. Sua crônica é antológica. Lembra Shakespeare. Também sonho Sonhos de uma noite de verão’. Abração, Diógenes.

DÚVIDA – II

O que terá encantado tanto ao poeta Diógenes da Cunha Lima na crônica de sábado – ‘De ser e de não ser’? O verão ou o belo ofício de contemplar um colar de pérolas na vastidão nua do colo feminino?

BIBI – I

O professor Humberto Hermenegildo publica este ano o ensaio ‘As histórias de Bibi’, sobre a ama de companhia de Câmara Cascudo que lhe contava estórias na infância, e primeira fonte da tradição oral.

RARO – II

Até hoje um exemplar da edição original de ‘Trinta Estórias Brasileiras’ – Portucalense, Lisboa, 1955 – é considerada das mais valorizadas de sua bibliografia, atualmente cotada entre R$ 290,00 e R$ 350,00.

DETALHE – III

‘Trinta Estórias Brasileiras’ tem a força de uma datação histórica. É o primeiro título de Cascudo onde a adotar a expressão ‘estória’ e não ‘história’ para designar a narrativas nascida da fabulação popular.

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