Calabar e a Copa – Rubens Lemos

Mães, mulheres e filhos aguardam em nervosa comunhão. A expectativa é de imagens tristes, insuficientes para apagar a ansiedade pelo…

Mães, mulheres e filhos aguardam em nervosa comunhão. A expectativa é de imagens tristes, insuficientes para apagar a ansiedade pelo reencontro. É julho de 2014 e eles, seus homens, estarão livres. Corta.

Depois da longa espera marcada pelo sofrimento das filas de prisão inconcebível, arbitrária, política ou provocada por esbirro ditatorial , persistentes choram e abraçam, beijam e cantam.

Tentam animar dezenas de farrapos sujos, magros e desencantados que deixam seculares calabouços da Fortaleza dos Reis Magos, repetindo, em pesadelo surreal, o sofrimento dos nativos encarcerados pelos invasores holandeses. Corta outra vez.

Um roteirista maluco poderia transformar as normas impostas pela Fifa para colonizar Natal na Copa do Mundo em breve analogia cinematográfica com a tomada holandesa.

Em lugar dos resistentes de 1633, estariam pobres comerciantes, ambulantes que ousassem expor em seus botecos e carros de lanche alguma menção à Copa do Mundo sem a chancela dos inquilinos.

Aqueles que seriam sumariamente punidos caso exibissem panfletos sobre promoções dos seus supermercados ou insistissem em transmitir jogos em telões patrocinados por poderosos concorrentes: O Churrasquinho de Gato de Comadre Chaguinha ou a Meladinha do Canindé.

As proibições impostas a Natal e mais 11 cidades pela madrasta do futebol são argumentadas pelos seus prepostos como força da lei que deve ser respeitada. Há leis justas e injustas. Morais e imorais.

Cito centenas em páginas de coluna. A Lei do Desarmamento é lei. Para o cidadão que não deve à Justiça. É inútil para o bandido que assalta, estupra, mata e segue impune pela falência do aparelhamento da segurança e dos salários da polícia.

Durante a Ditadura, famigerados Atos Institucionais humilharam a democracia, fecharam o Congresso Nacional, cassaram mandatos conferidos pelo povo, dissiparam direitos civis, amordaçaram o Judiciário e camuflaram as torturas e mortes de brasileiros que combateram o autoritarismo apenas por pensar diferente e lutar contra. Os AI e tantos eram as leis de quem implantou e preservou 21 anos de arbítrio.

A soberania de um povo é a sua identidade, sua autoestima, sua valentia brandida. Há poucos dias, o ex-governador e ex-vice-presidente do Senado, Geraldo Melo, desabafou em rede social no desabafo de brilhantismo esgrimista.

Teria, ele como tantos outros, que pedir permissão para entrar em sua própria casa, situada bem perto da Arena das Dunas, preenchendo um abominável cadastro determinado pela interventora do Brasil, a Fifa, famosa não exatamente pela bola rolada nos campos, mas pelos escândalos bilionários denunciados em livros e amplas reportagens no mundo inteiro.

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Entre as punições acintosas, previstas segundo a Lei Geral da Copa, em vigor por causa de quatro partidas viabilizadas graças à destruição e comprometimento do patrimônio público, estão: multas simples, cancelamento de licença (de comércio que colocar marca não patrocinadora do evento), apreensão de materiais, veículos e equipamentos publicitários, remoção dos meios de anúncio e respectivas estruturas.

Quer dizer, experimente resistir para ver o que acontece com você: a Fifa pode invadir, recolher, destruir, remover, apreender, cancelar, todos verbos destrutivos, antipáticos, arrogantes, na conjugação e na ação. Assim, nas barbas que não são dos holandeses comandados pelo tenente-coronel Byma, chefe invasor da Fortaleza dos Reis Magos.

Vamos nos recolher às nossas celas, que são nossas casas e apartamentos e tratar de cumprir todas as normas que acentuam muito bem o que é ser dominador e serviçal, autoritário e passivo, vencedor e rendido.

Os serviços públicos certamente estarão um luxo para atender aos milhares de estrangeiros aqui gastando seus dólares. Funcionarão como réplicas do famoso Albert Einstein, em Natal, os hospitais deploráveis para os habitantes de sempre. Não haverá um assalto sequer. Um morto tombado de bala.

Garanto que a seleção norte-americana estará protegida. Por suas tropas e seus agentes secretos já mandando na parte esportiva da Universidade Federal. Estou louco para ver os Seals, a tropa que liquidou Bin Laden e os seus helicópteros Black Hawk.

Os gringos torcedores, afinal, vêm para fazer a festa da mão de obra especializada em tudo, especialmente em atividades teoricamente não permitidas, mas aceitáveis se os clientes são estrangeiros, feito os mortos da literatura de Newton Navarro, se vivo, corado de vergonha. Exploração sexual infantil, óbvio, é miragem dos pessimistas.

Tenha cuidado e obedeça. A Fifa trabalha com um batalhão de advogados prontos para processar a nós, mequetrefes atrevidos e chateados em vão porque a cidade será Camelot, o reino, logo depois de Itália versus Uruguai. É chamado de marketing de emboscada o argumento para a armadilha asfixiante.

A Fifa dispõe de advogados, voluntários que não devem ter doado sangue sequer uma vez na vida e, mais ainda, dos clones de Domingos Calabar, o mameluco covarde e rendido aos holandeses.

Calabar, traidor patenteado, ganhou nem tão discretos semelhantes, indignados contra quem ousa reclamar da mandatária do país do respeito e da identidade alugados.

Público e privado

Enquanto sedes particulares da Copa do Mundo aparecem com o menor custo, os estádios geridos por empreiteiras ou por governos têm os maiores gastos. Nas mãos de um consórcio formado pela Odebrecht e pela OAS, a Fonte Nova é o caso mais absurdo com despesas que mordem 69% das receitas em jogos do Bahia e Vitória. Está no Uol.

Diferenças

Em seguida, informa a pesquisa, estádios como Maracanã (47%), Castelão (57%) e Mané Garrincha (53%). Os dois primeiros também são administrados por concessionárias com liderança de empreiteiras – a Odebrecht, no caso da praça carioca. Já a arena brasiliense é responsabilidade do governo do Distrito Federal.

Arthur Maia na berlinda

Unânime no Campeonato Estadual, o camisa 10 do América, Arthur Maia, convive com iras consideráveis. Críticas ao sumiço do futebol vistoso. Há exageros, gente que fala ou escreve com a razão do fígado. É fato, porém, que a bola de Arthur Maia desapareceu e (ainda) não voltou.

Defesa

Inseguro nas mudanças, o técnico Oliveira Canindé parece não enxergar as falhas da defesa do América. O goleiro Fernando Henrique, a cada jogo, faz o torcedor suspirar pela volta de Andrey.

Sequência

Dois jogos e o ABC tem rara chance de disparar com mais seis pontos. Desde que esteja com o time inteiro. Ganhar do Icasa e do Oeste no Iberezão é obrigatório dever de casa que apresenta fatura na reta final.

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