Camilo e Fernando Henrique – Rubens Lemos

Ser ruim com os pés e kamikaze são atributos básicos do goleiro. É o tipo do sujeito sem charme para…

Ser ruim com os pés e kamikaze são atributos básicos do goleiro. É o tipo do sujeito sem charme para a glória, o apogeu, a tietagem. O Brasil teve goleiros maravilhosos e nenhum ídolo. Taffarel, Gilmar e Barbosa foram os melhores. Barbosa, coitado, 14 anos depois de enterrado recebeu o alvará de soltura moral pelo gol de Ghiggia em 1950.

Barbosa, de tantas defesas monstrengas no Expresso da Vitória no Vasco carregou uma culpa que nunca foi dele e a história teve de anotar os 7×1 da Alemanha sobre o Arranca Toco vestido de seleção brasileira, para que os radicais enxergassem o que de fato significa um vexame. Taffarel, goleiro do Tetra e dos pênaltis, levou um gol de falta na Copa América de 1995 e o capo Ricardo Teixeira lhe fez críticas como se um invertebrado de caráter e conduta pudesse julgar alguém.

Digno, Taffarel passou dois anos sem aceitar convocações. O Brasil padeceu com Dida, tomando frangos olímpicos, Zetti, jogador de clube como de clube eram Rogério Ceni, o grotesco Gilmar, o Agenciador-Geral de Seleções, o palmeirense Velloso e o paraense Clêmer, do Flamengo e depois Internacional. Taffarel voltou por cima. Para pegar pênaltis e eliminar a Holanda na semifinal de 1998, Holanda que hoje olha o Brasil como o Flamengo de Zico pisava o Olaria.

O fim de semana positivo de ABC e América na Série B comove nas figuras de Camilo e Fernando Henrique, viajantes da gangorra emocional e de prestígio dos que escolhem a baliza de cidadela e – muito mais – de alvo. Camilo fora jogado por algum técnico proprietário das autoridades gerais numa espécie de arquivo morto alvinegro. Sem nada que justificasse o desprezo.

A (tola) expulsão do ótimo Gilvan na derrota para a Luverdense jogou Camilo na fogueira do Frasqueirão diante do então líder Joinville. Seguro e sossegado como os sábios de monastério, Camilo foi o responsável pela vitória ao fazer uma das mais lindas defesas vistas em Natal desde os tempos de Jorginho, Cocó, Wallace e Cezimar no Juvenal Lamartine de Ribamar e Erwin defendendo cada trave nos clássicos de lendas e calor.

Reflexo, instinto, preparo físico e agilidade. Inteligência especial sobrou em Camilo quando o atacante Jael ameaçou bater por cima da barreira que saltou e, ligeiro, tocou por baixo. Camilo, tigre de filme de safári mergulhou e evitou o gol de empate que estragaria o prazer da massa. Salve Camilo.

No Rio de Janeiro, sites, comentários e avaliações pouco isentas minimizaram a atuação estupenda de Fernando Henrique, do América, responsável direto pelo empate em 1×1 contra o ex-Vasco da Gama em São Januário. À base de correria e entusiasmo, volúpias de times pequenos, o Vasco bombardeou Fernando Henrique e ele foi Pearl Harbor que sobreviveu. Pearl Harbor, base americana atacada pelos japoneses para inflamar a Segunda Guerra Mundial.

Nos segundos finais, Fernando Henrique resolveu abrir o peito do amor próprio, ferido pelos erros terríveis em dois gols do Bragantino no jogo anterior, vencido por 4×2 pelo América. O goleiro americano, revelado pelo Fluminense (RJ), impôs a insaciável loucura da função, jogando-se aos pés de atacantes em chutes à queima-roupa, oferecendo o rosto à saraivada de tiros desesperados amortecidos na raça e no desabafo.

Salve Fernando Henrique. Ele e Camilo heróicos mortais. Dois homens conscientes e semelhantes na dureza da expressão facial refletindo cicatrizes da alma: a vaia e a injustiça podem voltar na próxima. É a sina solitária do goleiro, nascido para sobreviver no redemoinho da angústia.

Renato

A sensação do triunfo dá ao vitorioso a graça da superioridade sem luxo. E é assim que ficou o torcedor do ABC depois da virada sobre o Joinville por 2×1 no Frasqueirão.

Felicidade

O alvinegro passou feliz no fim de semana inteiro o que representou piquenique, cangapés em praias e açudes, resenhas intermináveis pelos bares de Natal. O ABC retomou o prumo da bonança na Série B sem mungangas.

Simplicidade

O melhor do ABC atual é a simplicidade que nele é estatutária. O que interessa acontece em campo. Em campo, que é onde devem estar os protagonistas, tem Renato, monstro de lateral-direito. Defende, ataca, cruza, bloqueia, parece ter 28 pulmões. Renato deu de presente aos frasqueirinos um gol de Copa do Mundo, não de seleção vexatória de Felipão.

Golaço

O gol da virada, de pancada, golaço, lá no alto, foi parecido com o do lateral Josimar, em 1986 contra a Irlanda do Norte. Um gol de talento, de sentimento. Um gol de ABC fazendo sua gente cantar de trás pra frente o Alô Frasqueira cancioneiro.

Discriminação

A imprensa do Rio de Janeiro abusou de atribuir ao “bizarro gol contra”, o empate do América contra o Vasco. Menos a verdade. O América estava desfalcado, sem seus homens de criação no meio-campo. Com Morais jogando, o América poderia ter vencido o jogo.

Bola parada

Os trepidantes cariocas – que quando aqui chegam são bajulados -, erram de propósito. O Vasco fez um gol de falta, belo gol do seu único jogador capaz de trabalhar a bola com engenho: o meia Douglas. O Vasco é um time medíocre como sua colocação na Série B: oitavo lugar e apenas um ponto à frente do América.

Decadência

Vi o jogo com outros dois amigos vascaínos e sem radicalismos. Concordamos que, a continuar na marcha de atraso, gestões caóticas e times medíocres, o Vasco não sobe para a Série A (seria o primeiro integrante do Grupo dos 13) e caminha para um fim bisonho como o do Bangu, que morreu com o bicheiro Castor de Andrade.

Dunga

Ainda não caiu a ficha. De ver Dunga técnico da seleção brasileira. Seria perversidade capaz de render episódio na Série Criminal Minds. Tem gente ainda dizendo que Dunga fez “grande trabalho na seleção”. Sacanagem. Sujeito levou Felipe Melo, Grafite, Josué, Júlio Baptista, Elano e Michel Bastos a uma Copa do Mundo.

Professor Geraldo

Meu leitor e ombudsman, Geraldo Batista, moleque eterno de Acari, bate o fio na tarde indo embora. Cabeça quente. Assunto: Dunga. Chegamos a tratar de mudança de esporte preferido. Me dedicaria somente ao tiro. Professor Geraldo é bom no beisebol.

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