Caps II em Parnamirim não recebe dinheiro público há mais de um ano

Descaso: pacientes psiquiátricos chegam a passar fome e são atendidos por voluntários

CAPS----Parnamirim-JA

Marcelo Lima

Repórter

Penúria. Essa é a definição mais próxima para descrever a realidade do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) 2, localizado no bairro de Santos Reis, em Parnamirim. A entidade teve que demitir funcionários, suspender as refeições dos pacientes psiquiátricos e deixou de realizar a maioria das atividades de socialização, fundamentais para o êxito do tratamento.

O motivo para a precariedade é a falta de repasse de dinheiro do poder público há um ano e cinco meses. A instituição é ligada a Associação Brasileira de Estudos em Saúde Mental (Abrassame), uma organização não governamental e sem fins lucrativos. De acordo com um dos coordenadores Dilson Bernardo, a instituição há quase oito anos realiza o atendimento de pessoas com transtornos mentais com habilitação do Sistema Único de Saúde (SUS).

A preocupação entre os pacientes que são assistidos tem crescido a cada momento em que a situação do local torna-se mais crítica. Maria Lúcia dos Santos, de 49 anos, recebe apoio para cuidar da sua saúde há quase dois anos na instituição desde que teve um surto de distonia psicogênica, um tipo de distúrbio mental.

Pelos relatos dos colegas que frequentam o local, ela se sente um pouco desprivilegiada, uma vez que não pode aproveitar a época em que os pacientes realizam atividades de socialização em teatros, cinemas e praia. “Eu só escuto as pessoas falando, quando eu cheguei aqui já não tinha mais”, lamentou. Segundo o coordenador do Caps, essas atividades foram suspensas em função da falta de dinheiro.

Maria Lúcia conta que se pudesse falar diretamente com algum responsável pelos repasses financeiros, “falaria para ele ser mais misericordioso com as pessoas daqui. Todos aqui são iluminados. Fico muito triste com essa situação. Já vi pessoas aqui dizendo ‘eu quero ir pra casa porque eu estou com dor de fome’. Isso me doeu muito”, declarou.

De acordo com Dilson Bernardo, a preocupação dos pacientes com a possibilidade de fechamento do Caps acaba agravando o quadro de saúde. “Nesse período morreram três pacientes nossos. Isso nunca tinha acontecido. É por isso que todo dia a gente diz que não vai fechar porque os pacientes adoecem”, contou o coordenador.

Oferecer uma refeição também deveria ser o procedimento padrão de um Caps, o que não é possível nesta unidade. “Muitos não têm o que comer em casa, adoecem por passar necessidade”, acrescentou.

Além da refeição e acompanhamento com equipe de saúde interdisciplinar, os pacientes deveriam participar de atividades de socialização, que há mais de um ano tornaram-se raras. “Agora só temos atividades esportivas porque não requer muito recursos, com uma bola dá para fazer. E a alfabetização vai voltar em junho”, explicou.

No mês passado, todos os 12 funcionários foram demitidos. As dívidas trabalhistas da instituição já se acumulavam na casa do R$ 70 mil. Alguns continuam como voluntários. As atividades que ainda acontecem são conduzidas por voluntários. Na manhã desta segunda-feira (5) os pacientes apenas conversavam em torno de uma mesa sem mais atividades para passar o tempo.

Antes da interrupção do repasse, o Caps atendia cerca de 230 pessoas, mas agora esse número diminui para cerca de 120. “A gente passou cerca de 110 para a rede do município, aqueles que são egressos e que só precisam ir a um Caps três vezes ao mês”, informou o coordenador.

Para tentar arrecadar fundos, a instituição vai realizar uma festa beneficente no dia 23 de maio, no Espaço Cultural Nestor Lima, no centro de Parnamirim. O valor do ingresso é R$ 10,00. “Um dos nossos colaboradores cedeu o espaço porque a nossa situação está crítica”, explicou Bernardo.

 

Sem repasse

Conforme o coordenador do Caps 2 de Santos Reis, até 2010 o repasse de cerca de R$ 30 mil mensais era feito pelo governo do Estado. No entanto, com princípio da gestão plena da saúde dos municípios, Parnamirim passou a receber o dinheiro que era enviado pelo Ministério da Saúde para poder repassá-lo posteriormente.

“Desde janeiro do ano passado estamos funcionando por um milagre”, disse sobre o tempo sem o dinheiro público. Ainda segundo o coordenador do Caps, a Prefeitura de Parnamirim afirma não mais receber o dinheiro do Estado. Ele também já recorreu a Secretaria de Saúde Pública do Estado (Sesap) e ao Ministério Público Estadual para tentar solucionar a questão.

O secretário de Saúde de Parnamirim, Márcio César Pinheiro, reitera que não recebe nenhum dinheiro das demais esferas de governo. “Nós recebemos esse dinheiro até 2012, mas agora não podemos repassar um recurso que não está vindo. Ele tem que cobrar do Ministério da Saúde e do governo do Estado”, disse o secretário. Ainda segundo o responsável pela pasta de Saúde de Parnamirim, as pessoas que deixaram de ser atendidas pelo Caps 2 de Santos Reis são assistidas pelo Caps de Passagem de Areia, que pertence a Prefeitura.

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