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Carne trêmula em excesso

Data: 01 fevereiro 2013 - Hora: 14:42 - Por: Conrado Carlos

Em meados dos anos 1980, a Geração Saúde apareceu como resposta à Era dos Excessos que contaminara a juventude nos vinte anos anteriores. Novas descobertas sobre os males do tabaco ganharam o reforço da ideia de que uma alimentação rica em vegetais e pobre em calorias, associada à prática de exercícios nas academias que abriam em cada esquina, trariam benefícios à saúde e prolongariam a vida daqueles que consumiram parte dela na tentativa de transcender com a colaboração da química.

Se, antes, a imagem de um cabeludo com um cigarro na mão que, vez ou outra, ingeria alguma substância alucinógena ou estimulante era o modelo almejado, agora, homens e mulheres de short, tênis e malhas, adeptos de caminhadas e corridas em parques, ruas, avessos ao sucesso cancerígeno vendido na propaganda do Hollywood, eram o grande barato. Na busca por uma existência limpa, prazerosa e duradoura, um ‘retorno às origens’ consagrou que tudo estava na natureza – em vez da comida enlatada, fast food, ‘feita para o homem moderno e urbano’.

O Flower Power, ou riponguismo, como queiram, estabeleceu o primeiro contato da cultura pop com a indiana, caldeirão de influências em que bovinos são sagrados. No entanto, o experimento com a dieta vegetariana seduz ocidentais desde o século retrasado – caso da britânica Anna Kingsford (1846-1888), uma das primeiras mulheres a obter diploma em Medicina no Reino Unido e considerada, do lado de cá do planeta, a mãe da teoria de que qualquer carne, seja branca ou vermelha, é desnecessária para o pleno funcionamento do corpo humano.  Desfeito o sonho de uma Sociedade Alternativa, uma nova bandeira precisava ser empunhada.

Estabelecida a dieta vegetariana que, em seu nascedouro, foi fragmentada em seis grupos que variam entre os que comem apenas legumes e vegetais, considerados os verdadeiros vegetarianos, e quem incrementa as refeições com ovos, leite e derivados (ovolactovegetarianos), surge uma dissidência, ainda nos anos 1940, com ingredientes extras: o veganismo, termo extraído da própria palavra vegetarianismo pelo também inglês Donald Watson. Como nas religiões, discordâncias na interpretação filosófica quanto ao uso dos alimentos estiveram no cerne do rompimento.

Aos 14 anos, Watson viu o abatimento de um porco, no condado de Yorkshire. A brutalidade da cena foi o estopim para a formulação de uma doutrina que luta contra a exploração animal como fonte de alimento, peça de vestuário, objeto de entretenimento ou cobaias para estudos científicos – o princípio da igualdade entre seres vivos norteia a filosofia vegana. Décadas depois, conceitos como ‘especismo’ (atribuir valores ou direitos a seres de acordo com sua espécie) e seres sencientes, em vez de irracionais, compõem a retórica de um movimento que angariou simpatizantes em todo o mundo – do mesmo modo, detratores.

Aqui em Natal, várias pessoas entenderam o recado de Watson. Uma delas é a estudante de artes visuais, Dora Bielschowsky. Com 25 anos, ela abandonou o consumo de alimentos de origem animal em 2009. Durante um ano, o vegetarianismo foi a opção para eliminar a acidez de uma gastrite incipiente. Mas, para além do bom funcionamento do sistema digestivo, surgiu uma profunda incerteza quanto a relatividade moral que envolve a matança de animais. “Percebi a lógica opressora que cerca o consumo de carne. Todos os produtos dessa origem são frutos do medo, do sofrimento dos animais”.

Para os veganos, a saúde e, sobretudo, a ética sobre o trato com animais estão acima da beleza estética que uma dieta pode resultar. Casos como o do baby beef (suprassumo dos rodízios) e do chester natalino, em que os bichos são mantidos em espaços reduzidos, sob intenso e ininterrupto estresse, de forma que a inércia seja quebrada apenas para mastigar, à força, o básico para a sobrevivência, com o único objetivo de gerar uma carne macia e saborosa, são exemplos do abuso cometido pelo homem.

Comparações entre a exploração animal e a escravidão humana, a pedofilia e o estupro são frequentes – práticas que um dia foram consideradas normais.  Daí surgiram críticos, que enxergam contradição em quem se beneficiou da Seleção Natural. Dora sofreu na pele o preconceito por ter assumido uma postura à margem da vigente na sociedade. “Eu estava em Ouro Preto/MG, em um encontro de estudantes, quando uma menina, típica filha de fazendeiros, gritou que eu queria aparecer ao perguntar detalhes sobre alimentos, na fila do refeitório, e que via um monte de bife, quando olhava para o gado no pasto. Tive de manter a calma, mas não deixei de respondê-la”.

A lista de questionamentos dos veganos extrapola a alimentação: Evitam (1) o uso de medicamentos, cosméticos e produtos de higiene e limpeza que tenham sido testados em animais, assim como vacinas ou soros, mas podem violar os princípios quando alternativas estiverem indisponíveis, ou em caso de emergência; (2) Circos com animais, rodeios, vaquejadas, touradas e jardins zoológicos. A dificuldade em fugir da dieta carnívora onipresente é superada com dedicação à culinária. Dora fez cursos veganos e dá algumas dicas para os interessados:

“Eu ando sempre com um mix de castanhas na bolsa. Outra opção é um sanduíche de pasta de grão de bico. Sem contar que restaurante natural está na moda, apesar de não serem os mais baratos. O que é um absurdo, pois vegetal é bem mais barato que carne”, diz a vegana descendente de alemães. O contraponto ao comentário de Dora pode ser feito pela nutricionista Glícia de Oliveira Pessoa. Há quatro anos à frente do atendimento no restaurante Nutre, em Candelária, ela confirma que as pessoas, hoje em dia, se preocupam mais com a saúde que a estética, mas faz ressalvas quanto à dieta vegana:

“Podemos consumir tudo de forma moderada, sem exagerar na carne vermelha, por exemplo. Mas, se eu for passar uma receita, não vou cortar peixes, ovos e leite. Eles têm nutrientes que não encontramos nos vegetais na quantidade que precisamos, como a vitamina B12″, diz a nutricionista. Um dos principais argumentos antiveganos é que a dificuldade em executar sua dieta, em meio à ‘modernidade’, pode resultar em um baixo consumo de vitaminas, ferro, cálcio e ácidos graxos – por outro lado, os adeptos, falam em redução do índice de doenças cardiovasculares e até em melhora no desempenho sexual.

Fato é que a polêmica pode ganhar novos contornos para quem tiver coragem de assistir a um documentário disponível no Youtube. Com cenas de fazendas e matadouros, que mais parecem trechos de um filme de terror, a produção norte-americana Terráqueos (2005), narrada por Joaquim Phoenix (o inimigo de Russell Crowe em Gladiador), mostra vacas, porcos, galinhas, patos, baleias, cachorros, gatos, macacos abatidos com requintes de crueldade para nosso bel prazer gastronômico, para a indústria da moda ou por pura diversão. Em tempos de preocupação com a saúde, vale de alerta e sugestão para novas políticas alimentícias adotadas no futuro.

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