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Carreata dos Presidentes percorre ruas de Natal

Data: 26 janeiro 2013 - Hora: 13:31 - Por: Conrado Carlos

Evento comemora 70 anos do encontro entre Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt. Foto: Wellington Rocha

“Aqui foi o início de tudo. Até esse encontro, os Estados Unidos faziam campos de pouso no continente, mas não tinham uma base pronta”. Na manhã deste sábado (26), o coronel e historiador aeronáutico, Aparecido Camazano Alamino, era um dos responsáveis pelo evento que celebrou os 70 anos da Conferência do Potengi, mais conhecido como o encontro entre o então presidente brasileiro Getúlio Vargas e seu correlato americano, Franklin Delano Roosevelt. Organizada pela Fundação Rampa, a ‘Carreata dos Presidentes’ percorreu ruas do Centro, das Rocas e da Ribeira, como reprodução do desfile dos dois governantes, durante a Segunda Guerra Mundial.

Jipes e caminhões transportaram empresários, colaboradores e militares que interpretaram os principais personagens daquele momento histórico. No carro principal, o empresário Arthur Francisco Matos fazia a vez do gaúcho que liderou o Estado Novo (1937-1945); o comerciante Marcelo Azevedo incorporou o chefe norte-americano; e o jornalista Augusto Maranhão travestiu-se do almirante Inghran. Em clima de festa pela confirmação de que o Governo do Estado reformará o prédio histórico e construirá o Centro Cultural e o Museu do Aviador, os envolvidos no evento destacaram a importância da data e o fato do natalense está mais interessado pelos meandros do encontro que alterou a geopolítica naquele distante 1943.

Cel. Camazano é um paulista que mora em Natal desde 2003. Integrante do Conselho da Fundação Rampa, ele é dono de um acervo de documentos e fotografias que abarcam a aviação brasileira “de Santos Dummont para cá”. Portanto, mais que um oficial da Força Aérea Brasileira, é um profundo conhecedor do marco histórico que eclodiu na então cidade com 40 mil habitantes. “A ideia inicial era o Brasil apenas se defender, caso fosse atacado pelos alemães. Após esse encontro do Getúlio com o Roosevelt, a participação do país foi definida”. Um empréstimo de U$ 20 milhões foi concedido pelo governo americano para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda/RJ.

Um público razoável aguardava a chegada do comboio na Rampa, enquanto o dentista e colecionador de aviões em plastimodelismo, Marco Antônio Fernandes de Oliveira, o Marcão, brindava os presentes com parte de sua coleção exposta. Modelos como o Douglas A-20 Havoc e o Martin Marlin, usados em combate na 2ª Grande Guerra, fisgavam a atenção de quem tirou a manhã do sábado para ter contato com a história que o Brasil esqueceu. “Eu nasci um ano depois do encontro [entre Roosevelt e Getúlio], mas cresci ouvindo minha família falando disso. É um fato muito importante e que não ganha a devida atenção do poder público”.

Ao lado de Marcão, o coronel Camazano falou sobre o desleixo do brasileiro com o passado, como se fosse algo a ser esquecido. “Não somos simpáticos à história”. Autor de seis livros sobre a aeronáutica nacional, ele é um entusiasta do fato ocorrido na capital potiguar – no dia 28 de janeiro de 1943, o presidente ianque chegou de Casablanca, no Marrocos, onde participou de uma reunião com os outros senhores da guerra, Josef Stalin e Winston Churchill. A hipótese de um conflito total no norte da África era o cenário que pintava como o mais provável; daí a importância da localização de Natal.

“Como o Atlântico Sul estava cheio de submarinos alemães, monitorado quase em sua totalidade, as viagens eram feitas à noite, quando era mais fácil burlar o sistema de controle. Naquela época, só tinha a bússola, nada de GPS”, diz o Coronel. Em meio à entrevista, o comboio retorna do passeio pelos bairros mais antigos da capital. Como ‘Roosevelt’, o comerciante Marcelo Azevedo estava animado com os minutos no papel do líder. “É muito gratificante participar da encenação de um momento tão importante na história da cidade e do país. Isso aqui está abandonado, tratado como lixo pelo poder público. Mas nós estamos empenhados em ajudar a revitalizar a área”.

Já em terra firme, após desfilar em carro aberto no banco de trás (Roosevelt era o ‘comandante’), ‘Getúlio Vargas’, ou o empresário Arthur Francisco Mota, aplacava o calor ao retirar o chapéu de palha característico do caudilho dos Pampas. Paulista, residente em Natal há dez anos, ele tem aviadores na família, o que justifica o prazer da empreitada. “Isso aqui é para ser incentivado. Poucas pessoas tem noção do que foi aquele encontro, do que aquilo representou para o destino da humanidade”.

Os 70 anos da Conferência do Potengi recebeu atenção da mídia. Veículos diversos cobriam o evento. “O Estado de São Paulo esteve aqui semana passada e, me parece, que uma matéria especial de duas páginas sairá neste final de semana”, fala um animado Frederico Nicolau, diretor de pesquisa da Fundação da Rampa. Com a confirmação do apoio do Governo à construção do Museu do Aviador e do Centro Cultural e da reforma no prédio da própria instituição, obras orçadas em R$ 7,4 milhões, com previsão de término em “um ano, um ano e meio”, ‘Fred’ comemora o quinto ano consecutivo da Carreata dos Presidentes.

“Foi importante para vermos como a população de Natal, que ainda ignora um fato dessa relevância, participou. É a quinta vez e posso assegurar que foi a de maior participação popular. Antes era mais restrito ao pessoal aqui da Rampa e aos militares. Pena que nas universidades seja pouco comentado. Ás vezes, até falam, mas sem ênfase no que aconteceu aqui”, conclui Frederico.

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