Carta aberta

Carta aberta, e irônica, do sempre educado Dix-Sept Rosado Sobrinho, rebatendo nota publicada nesta coluna elogiando Dorian Jorge Freire e…

Carta aberta, e irônica, do sempre educado Dix-Sept Rosado Sobrinho, rebatendo nota publicada nesta coluna elogiando

Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito Dantas, e considerando literatice o que veio depois. Devo ter exagerado na generalização,

citando apenas a grandeza deles bem acima. Mas, certamente, Dix-sept também exagerou, por generosidade, na sua extensa

relação. E, sobretudo, desconhece as críticas que este colunista também tem feito à produção intelectual de Natal, borbulhante de lançamentos, cheia de poetastros e transbordante de literatice, com exceções, como em Mossoró. E tudo pela ausência de

crítica literária. E é por isso que não consegue ocupar espaço no mercado nacional, como no passado. Aliás, Dix-sept também confunde, com seu olhar generoso, a boa qualidade da produção científica de Mossoró – Vingt-un e América Rosado, Benedito Mendes, Conceição Maciel e José Lacerda Felipe, para citar exemplos, com a prosa e a poesia. Mas sabe, pois há registros publicados na própria Coleção Mossoroense, do respeito e admiração deste colunista pelo grande – este sim! – Vingt-un Rosado.

Por fim, registre-se: literatura há de ser uma obra de arte, conceito que vai muito além de textos apenas bem escritos. Eis a carta:

 

Tibau, 18 de abril de 2014, sexta-feira da Paixão. Aos 132 anos do nascimento de José Bento

Monteiro Lobato. Luto pela morte de Gabriel Garcia Marques.

Carta aberta ao grande Vicente Serejo (ou Porque os sinos não dobram mais em Mossoró)

Caro cronista:

Acusamos o golpe dias após acontecido. Soube pelos jornais impressos de Mossoró que você (permita que apesar da grande admiração que lhe devoto, assim chamá-lo) havia dito que em Mossoró esta se fazendo literatice. E que depois de Dorian Jorge Freire e Jaime Hipólito Dantas, nada do que se faz aqui presta. Sei que você não faria uma afirmação assim sem conhecimento exato.

Gostaria que fôssemos mais devagar com o andor de Santa Luzia. O jornal impresso que você escreve sua prestigiada coluna, infelizmente, não chega a Mossoró. Deve ser porque Natal agora é uma capital tão de primeiro mundo com Arena das Dunas, literatura padrão Fifa, altos índices de educação e cultura, tão acima dos outros povos potiguares, estes incultos que nem comedores gourmet de camarão são. Embora apreciem-no, indefeso crustáceo, comido às toneladas, nesta nova guerra dos bárbaros.

É realmente uma infelicidade não termos os seus deliciosos textos diariamente entre nos e só

tenha chegado esta sua colocação.

Um dos livros citados por você, ‘Cem Poetas’ saiu pela Coleção Mossoroense, nesta época o nosso editor ainda era Vingt-un Rosado que não aparece por aqui desde que faleceu no ano da graça de 2005, você deve ter sabido ai na capital das Dunas.

Recomendo textos de Airton Cólon, Mario Gerson, Clauder Arcanjo, Genildo Costa, Aldaci de Franca, Paulo Linhares, Benedito Vasconcelos Mendes, Milton Marques de Medeiros, Crispiniano Neto, Rubens Coelho, Gustavo Luz, Cid Augusto, Leontino Filho, Davi Medeiros, Caio Muniz, Rogerio Dias, Conceição Maciel, Joana Darc Coelho, Antonio Francisco e muitas e muitos outros. Com certeza você nunca leu nada de Laércio Eugênio, não o ouviu tocar piano ou clarinete ou violão ou sanfona ou outro qualquer instrumento que lhe caia nas mãos. Não viu suas pinturas, suas invenções. Mossoró tem disso sim e muito mais. Há uma Feira do Livro anual aqui em Mossoró, onde somos chamados para alugar um estande e, como quase nunca temos dinheiro na época, deixamos de participar como instituição que tem mais de 4.500 títulos publicados. Uma iniciativa que devemos aplaudir. A literatice de Vingt-un Rosado, ainda como estilista não reconhecido e estudado, foi de maneira precária por mim continuada. Não a parte literária, não a parte científica, mas a da saga da Coleção Mossoroense. Da minha parte, com o único “talento” da teimosia. Não tive medo de manter a Coleção Mossoroense e Fundação Vingt-un Rosado abertas e funcionando, mesmo com todas as sinalizações de que o contrario era o mais fácil. Dia 11 de abril passado a Fundação Vingt-un Rosado completou 19 anos e em setembro a Coleção Mossoroense, raros 65 anos.

Foram muitos salvamentos das modernas fogueiras pelas que passamos e conseguimos, milagrosamente manter os mais de 150 mil exemplares da Coleção que deveria ser admirada e preservada com sinceridade e ações constantes. Enfim, uma política cultural constante, independente do governante reinante. Não me apego ao cargo de diretor. Mesmo quando há salário, poder, glória. Mas sou misturado de potiguar com mineira. Como bem camarão com pão de queijo, posso não fazer barulho, posso não querer entrar, mas não desisto fácil de uma peleja.

Do incentivo inicial, pegando como tema “Os Cem Poetas…” muitos continuaram poetas e dos bons. Alguns enveredaram por outros caminhos, certamente que agradecidos pelo incentivo do respeitável patrono da instituição que dirijo há mais de 19 anos, a Fundação Vingt-un Rosado. Se tornaram profissionais liberais, funcionários públicos, professores etc. Afinal, a literatura ou cultura em geral, não deve servir apenas para as rodas de confrarias regadas a cerveja e outras drogas, ou para exposição da empáfia de quem a possui. Reconheça-se, o lado mais importante, qual seja, aperfeiçoar a própria vida e a em comunidade. Cito alguns exemplos de jovens que por concurso público, sem bajulação a nenhum poderoso ou poderosa, tornaram-se profissionais de gabarito, alguns Procuradores federais com uma luz do ideal de servir melhor sua pátria, redigindo muito bem seus textos técnicos. Não “continuaram” poetas. E estão constando como poetas neste citado livro. Por incentivo e bonomia do nosso editor da época. Critérios que não modifiquei com o tempo. A falta de recursos financeiros e que nos limita nas publicações. Mas nada vai nos fazer deixar de compartilhar da ideia inicial da Coleção Mossoroense de publicar sem censura ou preconceito o que nos chega para isto. O leitor, autor, a continuidade da analise critica e que vai ditar o futuro daquela publicação.

Os sinos das igrejas de Mossoró não dobram mais como o faziam quando falecia alguém ou quando se iniciavam as missas. São muitos os mortos hoje em dia, jovens em geral, ligados a disputas por pontos de drogas ou em divida com traficantes. Os puxadores dos sinos precisariam ficar noite e dia pendurados às cordas, as mãos em feridas sangrentas. Que futuro teremos com o pouco interesse pelo que se faz de bom em Mossoró no campo da educação e da cultura. Esforço e talento quase sempre individual e não reconhecido.

A posição de polo educacional de Mossoró, indiscutível, não pode ouvir calada uma crítica que desconhece seus valores que podem estar mal divulgados, mal apoiados, mal conhecidos, mas não desmerecem o nível cultural de nosso país. Dentro e fora das universidades.

Não há novidade na sua critica, afinal, milhares de escritores iniciaram ou continuaram na Coleção Mossoroense. O grande Oswaldo Lamartine criticava as capas dos livros, sem cor e criatividade, mas sempre apoiava a Coleção Mossoroense e fazia restrições a algumas publicações ou autores, mas aplaudia os merecedores e publicava bastante sobre e pela Coleção Mossoroense. O dinheirinho das capas pobres era revertido em mais e mais publicações, como você o sabe.

Recordo, emocionado, o agradecimento de dona Dália Freire a Vingt-un Rosado pois Mossoró republicara Cascudo, num momento em que esquecíamos de honrar a memória sagrada do potiguar universal. Mossoró, porem, não esquecia a genial obra de Cascudo.

O passado cultural de Mossoró merece reverencia e respeito. O presente de Mossoró merece respeito e reconhecimento, já que não tem apoio. Mas há flagrante injustiça com os novos mossoroenses. Corro novo risco de omissão ao lembrar nomes como os de João Batista Cascudo Rodrigues, Rafael Negreiros, Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares de Brito, Elder Heronildes, Jaime Hipólito Dantas, Wilson Bezerra de Moura, Rubens Coelho, Geraldo Maia, Tarcísio Gurgel, Paulo Gastão, Kidelmir Dantas e tantos e tantas mais. Sempre recebemos muito mais desestímulo e pancadas que apoio, incentivo e reconhecimento.

Recomendo, resgatar nomes de proa da nossa cultura, pois não concordo que Mossoró, no passado no presente e, certamente, no futuro, não deu ou dará sua cota de cultura ao nosso opaco Rio Grande do Norte que tem muito poucas unanimidades culturais ou uma única, a seguir seu raciocínio.

Natal, nossa linda capital, poderia uma vez mais se tornar mais humilde e tentar difundir entre nos os seus novos talentos, me parece também desconhecidos aqui em Mossoró. Aproveito para lembrar que novo concurso público estadual será lançado pela Fundação Vingt-un Rosado com apoio da Cosern e Petrobrás, esperamos a participação de todos os potiguares. Ja lhe tinha convidado para participar da comissão editorial e estou renovando este convite.

Estou digitando numa engenhoca nova e não sei onde danado se escondem alguns

acentos e sinais gráficos.

Abraço fraterno. Carinhosas recomendações aos seus familiares.

a) Dix-sept Rosado Sobrinho.

(Médico da UFRN, professor do curso médico da UERN (concurso), diretor executivo da Fundação Vingt-un Rosado (não remunerado).

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