Cartunista Lúcio Oliveira apresenta Edibar, um bêbado machista que odeia a sogra

Edibar é um bêbado festeiro, carismático, mas que sempre termina em alguma confusão

Cartunista Lúcio Oliveira troca Apucarana/PR por Natal. Foto: Divulgação
Cartunista Lúcio Oliveira troca Apucarana/PR por Natal. Foto: Divulgação

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Naquele dia de meados dos anos 2000, ventava muito em Apucarana, no Paraná. Na redação do único jornal da cidade, ironicamente para nós potiguares, chamado de Tribuna do Norte, o cartunista Lúcio Oliveira ainda rabiscava ilustrações e infográficos no momento em que o repórter especializado em agronegócio, Edison Costa, cruzou a porta. ‘Seo Costa’ estava com o cabelo assanhado, todo amarfanhado em sua estampa de homem de meia idade, após conduzir um fusca vermelho carcomido por ruas diversas. “Eureka!”, pensou Lúcio, insatisfeito com a função de mero complemento para textos jornalísticos. Há tempos ele via espaço na publicação para lançar uma personagem em quadrinhos, mas procurava o tipo ideal que o ajudasse na criação. Colheu aquela imagem e começou a praticá-la em desenhos. Faltavam as palavras, o tom, a voz daquele ser embrionário. Como em boa parte da cultura urbana brasileira, isso estava em uma mesa de bar, ao seu lado.

Lúcio tinha um grupo de amigos que frequentava um boteco. Certo fim de tarde, um deles olhou para o relógio e calculou que tinha uma folga até às 19 horas, antes de honrar um compromisso com a mulher. Só que nem sempre a tríade álcool, amigos e responsabilidade funciona, e logo o valente decidiu esticar a noite. Lá pelas tantas, ‘mamado’, com o pé inchado de tanto chutar o pau da barraca, sua esposa chega com a fúria típica das excluídas. “Ô César, então você gosta de boteco?”. A turma pressentiu a hecatombe conjugal. “Então toma!”, era a mala com roupas e pertences que encerrava a relação. Em meio a brincadeiras analgésicas, Lúcio viu a lâmpada acender. Era a outra metade de Edibar que surgia, um bêbedo assumido, motorista de um fusquinha 1968 caindo aos pedaços que gosta de mulher, cerveja gelada e esbravejar contra a parceira Edimunda e a sogra Ana Conda.

Até que Edibar começou a ser publicado no diário de Apucarana, em 2007. Foi um sucesso imediato. “O telefone da redação não parava de tocar, com as pessoas elogiando e perguntando quem era aquele personagem”, disse Lúcio na noite de ontem (08) em seu apartamento em Ponta Negra, com uma bela vista do Morro do Careca, onde mora desde março passado com a esposa Gisele e duas filhas pequenas. Ele trocou o sul do país por Natal sem conhecer ninguém, nem ter parentes por estas bandas, como uma aposta na tranquilidade que a capital potiguar sugere aos brasileiros de regiões distantes. “Vim no escuro, só com pesquisa pela internet, e sentimos uma diferença enorme, pela qualidade de vida que tem aqui. Hoje minha mulher e minhas filhas não querem voltar para o Paraná” – com a ajuda da tecnologia, o cachaceiro machista que sempre se dá mal é publicado em dez jornais de cinco Estados da Federação.

O êxito com Edibar criou situações pitorescas. Virou clichê o pedido de amigos para serem retratados nas tirinhas, como coadjuvantes em bares ou no cotidiano do bebum “mais escroto do Brasil”. Lúcio morava em Florianópolis, quando, em um grupo numeroso que entornava todas, um casal com que tinha pouca intimidade pediu para ser desenhado ali mesmo – coisa que ele faz em poucos minutos. “A mulher tinha um nariz que era uma napa, mas muito, muito grande. Horrível. Ela deve ter pensado que eu era retratista, não sabia que seria uma caricatura. Na hora em que ela viu o desenho com o nariz exagerado, simplesmente amassou o papel e jogou na minha cara, gritando e me xingando. Caricatura dá bronca” – o terceiro caso que influiu na composição da personagem veio durante uma missa, também em Apucarana; o padre estava tão concentrado que não percebeu, ao contrário dos fiéis, que um bêbado entrou na igreja e foi calmamente até o altar acender um cigarro numa vela.

“Edibar não torce por nenhum time, não é de esquerda nem de direita, não fala palavrão, não tem sexo explícito, nem vulgaridade. Faço um humor não apelativo, pois mesmo sem o ter criado para o público infantil, tem muita criança que gosta. Ele atinge todas as idades. Eu apago até comentários elogiosos com palavrão no Facebook, para que elas não vejam isso. Edibar é um bêbado festeiro, carismático, mas que sempre termina em alguma confusão. Por não ter apologia à bebida, acho que foi isso que agradou”. Aos 40 anos, Lúcio desenha desde os 13. O Sítio do Pica-Pau Amarelo foi a inspiração inicial, que o levou a ‘brincar’ com lápis e papel, a ponto de quase três décadas depois compor uma galeria com 48 personagens circundantes ao barrigudo boêmio – além das tiras, Edibar é boneco, cerveja artesanal (a Edimalt é exportada até para Portugal), abridor de garrafa e está prestes a se transformar em desenho animado em um canal por assinatura no Estado de São Paulo.

Consolidado em Apucarana, município cuja temperatura média é de 17 graus, distante 50 km de Londrina e 370 km de Curitiba, e popular entre colegas do jornal, Lúcio tomou um susto com a sisudez com que Edison, o ‘Seu Costa’, o convocou para uma conversa. A fala pausada e encorpada de senhor respeitável saiu feito a de um ressacado. “Lúcio, escuta só. Minha mulher falou que o Edibar sou eu”. O visual meio desleixado, o fusca vermelho e a mania etílica denunciavam a ignomínia. O cartunista teve de usar toda sua capacidade retórica para afastas desconfianças do ‘muso’. “Hoje ele sabe de tudo e se sente honrado” – por falar em linguagem, a ‘gramática’ de Edibar inclui a barriga estufada; idas frequentes ao médico, que insiste na mudança de hábitos; exclamações; onomatopeias; uma esposa mal humorada e baranga irrecuperável; campo minado com a sogra, velha desdentada na tocaia dos acontecimentos; quase tragédias constantes; beijos em travestis; e um raro cuidado com detalhes, comparadas às tiras diárias da imprensa nacional.

De forma impensada, o moralismo está presente. “Não pode simpatizar com álcool”. Assim como o politicamente incorreto. Em seu livro Edibar & Turma (Super News Editora), lançado em agosto de 2012, algumas das tiras mais engraçadas abordam uma espécie de revival sensual desejado pela mulher. Balofa, ranzinza e mal articulada, Edimunda investe numa roupa sexy para seduzir o marido. Com voz aveludada e sovaco cabeludo, ela diz: “Edibar, faça-me mulher!”, a perna escancarando a porta, como uma stripper profissional. A sequência mostra uma cueca suja na face da condenada e a ordem: “Lava!”. Lúcio evita o contato com o trabalho de outros cartunistas, para resistir à tentação de copiar o traço alheio e manter a originalidade. Quarto lugar em um concurso promovido pelo jornal O Estado de São Paulo, ele mantém uma média produtiva de duas tiras diárias. Fazia mascotes para empresas, antes de entrar para a Tribuna do Norte paranaense e explorar uma habilidade intelectual tratada por muitos como coisa de criança. “Leia com moderação”, alerta a folha de rosto de seu livro. Mas tente prolongar a saideira, porque Edibar gosta de boa prosa e presepada a partir do primeiro gole.

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