Cascudo e Lima Barreto – Vicente Serejo

Câmara Cascudo pintou três retratos de Lima Barreto ao longo de dezenove anos. De 1919, em Bric-a-abrac, sua primeira coluna…

Câmara Cascudo pintou três retratos de Lima Barreto ao longo de dezenove anos. De 1919, em Bric-a-abrac, sua primeira coluna n’A Imprensa, jornal do seu pai, e onde inaugurou sua vida intelectual; ao artigo do Diário de Notícias, em 1938. Ninguém melhor que aquele homem de espírito e de gênio para soprar vida e cor. Sabia erguer o retrato, de corpo inteiro, com os traços psicológicos tão indispensáveis ao desenho da personalidade, erguendo uma escultura que a rigor só falta falar.

Quando escrevi a reportagem ‘Jaime Adour da Câmara, traços para um retrato’, duas páginas publicadas em O Poti, isto há mais de vinte anos, citei o primeiro artigo para mostrar que Cascudo leu Lima Barreto para atender inicialmente a uma insistência de Jayme Adour da Câmara. E mesmo assim, sua impressão não é das melhores. Reconhece o talento, a escandalosa liberdade do autor, mas ainda não tem olhos para compreender o caráter inovador e ousado da ficção urbana de Lima Barreto.

Ele conta: ‘Jayme Adour da Câmara, desde que cheguei do Rio, assedia-me, luta, telefona, escreve, grita, berra, conspira e sutiliza-se para eu ler, e decorar, o senhor Lima Barreto’. E a seguir:

‘Todos os domingos, vindo fazer (com uma convicção forte que só poderia dar um talento forte), uma conferência sobre o sr. Lima. Era um horror. Que o senhor Lima Barreto era sábio como Salomão, tinha a audácia de Nabucodonosor e a cor do Rei Belchior’, compara Cascudo de riso doce e irônico.

Mas, Cascudo considera esplêndido ‘Triste Fim de Polycarpo Quaresma’, e renega com um ‘vade retro!’ ‘Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá’, romance que avalia como ‘história sem fim lógico’. E alfineta: ‘Se o romancista visa alguma coisa, o fez de tal maneira sutil que eu, burguês obtuso, não percebi, ou então de tal maneira, forte e sonora, a expandir pelas páginas do seu volume, que eu, requintado, fiquei atordoado e não entendi’. Compara o personagem ao conselheiro Accacio.

Naquele 1919, da coluna Bric-a-Brac, estava um Câmara Cascudo ainda muito jovem, aos 21 anos, a escrever Alma Patrícia, seu primeiro livro, de olhos fechados às ousadias literárias da estética modernista que só chegaria no ano seguinte, em 1922, com a Semana de Arte Moderna. Mas, Lima Barreto era lido em Natal por Jayme Adour da Câmara, Dioclécio Duarte e Georgino Avelino, como revelam as cartas do autor de ‘Triste Fim de Polycarpo Quaresma’ para esses três, incluídas nos dois volumes da correspondência do autor, edição póstuma da Brasiliense, São Paulo, 1961.

Nasce nutra dimensão, de traços mais humanos, o segundo retrato, este publicado no Diário Nacional, São Paulo, edição de 13 de julho de 1930, com o titulo de ‘Lima Barreto’. Brilha um Cascudo de estilo macio e mais saboroso: ‘Elyzio de Carvalho tirou o grande charuto da boca e fez as apresentações. Era uma tarde cheia de frio, de névoa e de chuvisco, esse chuvisco miúdo, obstinado, intermitente de que o Rio tem patente de invenção’. E logo a seguir: ‘Lima Barreto estirou a mão gorducha e mole. Ficamos conversando (…) conversa esquerda e desajeitada. Não estávamos bem um com o outro. Não gostara do Gonzaga de Sá e riscara cousas desagradáveis’.

Cascudo não tem dúvida: Lima Barreto leu sua crítica e não gostou. Soube que depois da leitura teria perguntado ‘onde era o pouso daquele rapaz que tinha o nome de bicho’ (Cascudo). E informa: ‘Nesse dia, expliquei-lhe as razões do nome que me orgulho’. E acrescenta: ‘Ainda mais outro motivo para afastamento e pouca simpatia’. A seguir, resume um novo e demorado encontro: ‘Dias depois, atravessava o Largo de S. Francisco, Lima Barreto estava dentro de um café, bebendo. Chamou-me. Deviam ser quatro horas da tarde. Fui dormir às duas horas da madrugada’.

Dos encontros e conversas restou em Cascudo um sentimento mais humano em torno de Lima Barreto, aquele homem – descreve – ‘mal vestido, de rosto inchado, hirsuto, olhar triste, de andar variado, distraído, alheado, ingênuo, explorado pelos jornais, com uma capacidade de produção espantosa, falando aos tropeções, incapaz de um período longo, meio inculto, cheio de raivas, de preconceitos, cercado pela inveja, pela indiferença ambiente, foi uma grande atitude de trabalho mental e hoje um dos mais legítimos orgulhos nossos’.

Cascudo já consegue encontrar nos romances de Lima Barreto – ‘o menos literato dos nossos romancistas’ – uma técnica intuitivamente sóbria, simples, magnífica’. O romancista dos arrabaldes, ou, num corte bem cascudiano – ‘O Balzac das famílias pobres, dos funcionários, dos aposentados, dos militares reformados, dum mundo estranho que ele conheceu e privou admiravelmente’. Estava ali o ficcionista das pessoas comuns, expressões mais humanas da cidade: ‘Malandros, capadócios, tatuadores, feiticeiros, capoeiras, chefes de malta, tocadores de violão e de harmônios, verdureiros, portugueses, italianos, toda essa gente Lima Barreto conhecia’. E continua Cascudo: ‘Quando a miséria o asfixiava demasiado, Lima fugia para o Hospício. Lá ficava dois meses. Saia com um livro. ‘O Triste Fim de Polycarpo Quaresma’, por exemplo’.

O último encontro de Cascudo com Lima Barreto foi triste. Ele misturava os assuntos numa conversa sem nexo. Da venda de uma espada da Guerra do Paraguai, por noventa mil réis, a uma aguardente de Angra dos Reis. No dia de finados, de 1922, Cascudo conta que partia para São Paulo no trem, quando Jayme Adour chega à estação com a notícia: Lima Barreto morreu. Foi sepultado no dia dos mortos. Naquela última conversa, Cascudo convidou a vir conhecer Natal. Mas ele respondeu assim, mostrando o casario do Rio: ‘Como é que eu posso deixar isto!’

O terceiro e último retrato Cascudo escreveu para o Diário de Notícias e foi publicado na edição de 30 de outubro de 1938. Lima estava morto desde 1922. Artigo nascido de uma admiração que cresceu com o tempo. Cascudo elogia a beleza do nome – Afonso Henrique de Lima Barreto – ‘nome bonito, sonoro, aristocrático, evocador’ – para um homem que descreve sem nada esconder – ‘mulato feio, triste e pobre. Olhos de moçárabe, dum negror doce e úmido. A boca curva, desdenhosa, arqueava-se nos lábios grossos. Cabelo espesso, curto, mastigado. Roupa disparata’. E repete, num ritmo todo seu, numa reticência: ‘Afonso Henrique de Lima Barreto, lindo nome…’.

Relembra o primeiro encontro na Livraria Garnier, apresentado por Elyzio de Carvalho. E outro em Jacarepaguá, numa festa. Registra seu amor ao Rio de Janeiro, como o romancista dos seus personagens tão humanos e tão anônimos. Cascudo pergunta, em instante de pura reflexão: ‘Mas não será esta a missão do romancista? Descrever a vida, como a vida emerge do mistério criador? Mas a missão mais alta, extra-humana e urgente, não será melhorar a sensibilidade pela omissão diária de horrores? O romancista está, funcionalmente, em toda parte, em todos os ambientes, tornando irrespirável o mundo estranho e novo, povoado de encantos e abrigador de misérias’.

Para Cascudo, Lima Barreto foi um ‘comovido e diário escriturário da vida trágica. Só lhe traziam para o registro lágrimas, sangue, lama. Como havia ele de pensar diversamente? Guardou o que lhe deram e nunca sonhou recusar’.

E encerra assim:

 

‘Na última vez em que o avistei, perguntei se tinha muitos contos a publicar. Lima apinhou os dedos:

-Tenho muitos. Muitos… Muitos contos.

 

E pendendo o beiço:

 

– Uma fortuna…

 

E morreu deixando a fortuna intacta’.

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