Causou nojo nos conservadores, que exigem notificação sobre cena gay

Mas como evitar expor um tema tão gritante, tão fundamental para a vida como a sexualidade?

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Eu não vi o filme “Praia do Futuro” (em cartaz nos cinemas de Natal), do diretor Karim Ainouz, com Wagner Moura no papel principal. É aquele da história do salva-vidas gay que, após o afogamento de um alemão no homônimo ponto litorâneo cearense, resolve contar a tragédia para um amigo da vítima (Konrad, vejam que ironia). A atração entre os dois logo é consumada com a opção de morarem juntos em Berlim. O que gera sofrimento em Donato (Moura), agora longe de casa e da família – e nos braços de um estranho. As cenas de sexo entre os dois homens incomodaram muita gente, com atacantes e defensores para todo lado. É a batalha entre Preconceito e Degeneração dos Valores Morais.

Como este é um comentário sobre comentários, tomarei a liberdade de divagar em várias direções, talvez em busca de alguma que faça sentido, pois o momento gera um debate com posições antagônicas e até premonitórias. De um lado, conservadores, religiosos, defensores de preceitos arraigados há séculos – a maioria. Eles refutam aceitar ‘a novidade’ exposta em filmes e novelas dos últimos anos. Ver duas pessoas do mesmo sexo de mãos dadas ou, pior, trocando beijos e carícias seria um sinal de que a sociedade implodiu. Espécie de declínio moral, cujas consequências ganham alusão à Queda de Roma e ao Apocalipse cristão. Pagar para ver seria uma aposta muita alta.

No outro corner, uma minoria significativa, cada vez mais organizada, influente e reivindicadora, que não entende a necessidade de avisar que um filme contém cenas homossexuais, exigida por parte dos expectadores que esbravejaram por aí. “Somos todos filhos de Deus, ou não? Então porque essa raiva toda com quem não escolheu nascer assim”. A cena erótica está lá como tantas outras em filmes ‘normais’. A desinformação das pessoas, sobretudo aquelas que vão ao cinema sem objetivo pré-determinado, como um “Vamos dar uma volta”, gerou desconfortos – como o da senhora que estava com a neta de 13 anos na hora do ruge-ruge.

O ponto nevrálgico dessa discussão calorosa tem algumas barreiras difíceis de serem derrubadas, pelo menos a curto e médio prazo. Primeiro que no universo heterossexual masculino (falo da regra, ok?) jamais deixarão de existir piadas, deboches e exclusões com os gays. Muitos pensam assim: “Eu posso brincar com corno, mal dotados, lisos, loiras, bêbados e não posso com gay?”. O cara segue religiões milenares que, em seus livros fundadores, permite interpretações que excluem o terceiro sexo. Acho que o argumento sobre a ancestralidade da prática, que vem desde Roma e da Grécia, é uma furada. Pois basta lembrar como funcionava a democracia ateniense – igualdade para os iguais.

Com a taxa de natalidade muçulmana bem acima da média ocidental e com a ultradireita europeia em expansão, a tendência é de maior repressão aos homossexuais, mesmo com a virulência midiática em vigor – na Malásia, até sexo oral é proibido. Falam em Lobby Gay, o que, em certos casos, é bem verdade. Mas como evitar expor um tema tão gritante, tão fundamental para a vida como a sexualidade? Sem bancar o freudiano, é fácil vermos o quanto o sexo comanda nossas decisões – do homem ser pegador; da mulher manter-se na ‘decência’, sem dar para todo mundo; de procriarmos; etc. Junto com o amor e as religiões, dois corpos nus na alcova (de novo, falo da regra) norteiam tudo.

Agora imagine isso em ebulição na mente de um garoto (a) ‘afetado’, sem a menor possibilidade de vazar, pois a condenação é casada com a pena de imediato. O olhar reprobatório, o desdém na interação, as humilhações sob pretexto de fazer graça, tudo conspira para o gay se isolar – ou dar um tiro na cabeça. Sobram as artes, ambiente aberto e infinito, para debater a questão. Nelas, e só nelas, o medo do diferente inexiste. Quem viu “Azul é a cor mais quente” sabe do que estou falando. Desafio qualquer mulher padrão achar repulsiva a paixão da adolescente Adèle pela mais velha Emma. Dizem que “Um estranho no lago” causa o mesmo nos homens.

Mais que os militantes gays, os Militantes Antigays deveriam, no mínimo, pegar a chave do armário antes de tacar pedra contra uma galera que, como diz meu amigo Barbosa, professor de publicidade, “só quer dormir de conchinha”. Deixem os caras, bando de bestas! Abra essa porta de intolerância e conviva com quem for gentil, honesto, educado, inteligente, agregador. Seja homem, mulher ou uma tela de computador. Se as pessoas chocadas com a imagem de Wagner Moura (logo o viril Capitão Nascimento!) atracado a outro macho fossem mais bem informadas, lessem jornais e sites interessantes, saberiam do que se tratava “Praia do Futuro”. Sentir asco por uma ou duas cenas, e classificá-las como imoral, pode vetar a fruição de algo grandioso – como se a cena do vaso sanitário de “Trainspotting” fosse determinante para vermos ou não o filme.

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