Cavaleiro solitário – Alex Medeiros

Era o momento certo para Fred provar que não está errado, mas foi o dia de Neymar salvar a pátria…

Era o momento certo para Fred provar que não está errado, mas foi o dia de Neymar salvar a pátria de chuteiras e comprovar nossas suspeitas de que a seleção brasileira vai se mantendo viva pelo craque arrimo de família. Ontem, o garoto foi o sustento.

Camarões foi para o Mané Garrincha como o gado ao matadouro, pronto para ser sacrificado numa morte anunciada desde quando a arbitragem na Arena das Dunas usou da benevolência para evitar um massacre mexicano. Foram os leões domáveis na arena.

Fritar o camarão em Brasília era um roteiro pré-escrito, golear era obrigação na despedida da Canarinho na primeira fase em seu jogo mais fácil. Quando o jogo começou, ficou logo claro que Neymar estava determinado a impor a superioridade.

Partiu para o ataque, voltou para tocar bola com os volantes, bateu escanteios e fez cruzamentos pela direita, onde Daniel Alves abriu uma avenida sem licitação prévia. Aos 22 anos, era ele o mais determinado, antítese de um velho Fred em câmera lenta.

O primeiro gol, uma roubada de bola de Luiz Gustavo, o único homem regular no congestionado meio de campo sem criativos. Neymar antecipou-se ao zagueiro, dobrou o pé direito para dar à bola a tabela perfeita num ângulo de desvio físico e matemático.

Os dribles de futsal e os passes milimetrados do rapaz não disfarçavam aos olhos da assistência a desorganização do meio e do ataque brasileiros. Lá atrás, até David Luiz e Thiago Silva incorriam em erros banais para a ousadia dos atacantes camaroneses.

O inesperado, mas ameaçador empate, viria pela estrada aberta por Daniel Alves, que ficou sentado no combate a Nyom, que cruzou para a conclusão de Matip debaixo das traves, tendo a bola viajado livremente diante dos zagueiros e do goleiro Julio Cesar.

Minutos antes do empate, Camarões já havia acertado as traves brasileiras num arremate do mesmo Matip. A ausência do homem criador só ampliava a demência de Fred e deixava Neymar na sua solidão de atirador de elite. Hulk foi apenas figura ilustrativa.

O jogo seguiu como os anteriores, com Luiz Gustavo em acúmulo de função se fazendo terceiro zagueiro e improvisando na inventividade que seria de um discreto Oscar. Pelo lado esquerdo, Marcelo era a vida inteligente que restava no quarteto de defensores.

Um erro de saída de bola de Camarões, o lateral do Real Madrid toca para o meia do Barcelona. E aí, Neymar faz uma jogada “made in Neymar”, vence dois adversários num paredão de zagueiros e mete de direita no contrapé do goleiro. Virada na hora H.

E só ele estava virado num cavaleiro solitário a combater um adversário moribundo que se aproveitava dos erros do Brasil para assustar a multidão como zumbis esfomeados. O segundo tempo virou espetáculo, um “stand up” de Neymar, o menino dono da bola.

Foi o jogo dele que determinou a goleada, foi sua desenvoltura de craque que resolveu a parada. Salvou o conjunto ainda desafinado com um solo de primeiro violino. Ontem, sem Neymar em campo, o jogo poderia gerar surpresas desagradáveis para Felipão.

Já escrevi aqui, e os leitores lembram, da temeridade que é uma seleção jogar em casa com uma única referência de apenas 22 anos. Ontem foi a contraprova e uma nação inteira fez figa para o garoto não machucar-se nem tomar um segundo cartão amarelo.

O gol de bigode do Fred não anuncia sua superação da catatonia em que se enfiou. O dia da cura seria ontem, diante do rival mais frágil. Paulinho só prosseguiu na má fase que já vinha do Tottenham, definitivamente precisa entregar a posição para Fernandinho.

O volante do Manchester City tranqüilizou o meio de campo dependente de Luiz Gustavo e soltou ainda mais um Marcelo recuperado do gol contra da abertura. Mas, o Brasil que vai à segunda fase ainda é um time de um craque só. Só tem Neymar. (AM)

Tostão

Do mestre em sua coluna da Folha de S. Paulo: “No segundo tempo, além do show de Neymar, um espetáculo, entrou Fernandinho. Ele desarmou, trocou passes e ainda fez um belo gol. Tomou conta da posição”. Será que Felipão teimará com Paulinho?

Juca Kfouri

Em seu blog no portal UOL: “Um péssimo primeiro tempo em Brasília com vitória por 2 a 1 graças à magia de Neymar e um bom segundo tempo, com vitória por 2 a 0, graças à entrada de Fernandinho no lugar de Paulinho”. A seleção ainda é uma temeridade.

Neymar 100

O primeiro gol do Brasil ontem foi o 100º da presente Copa e por coincidência no 100º jogo da seleção em toda a história das copas. Foi o 35º gol de Neymar com a camisa brasileira, superando três craques históricos: Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Jairzinho.

O jogo

Natal poderá ganhar como legado a melhor partida da primeira fase da Copa do Mundo. Poucos jogos até agora, exceto os do Brasil, chamaram tanto a atenção do mundo quanto o clássico de campeões de hoje. Itália x Uruguai num mata-mata antecipado.

Arquibancadas

Desde ontem, dezenas de automóveis apareceram nas ruas de Natal portando bandeiras uruguaias. Os compatriotas do craque Danilo Menezes invadindo a cidade para empurrar a Celeste no confronto com a Itália, que também conta com muitos torcedores.

Aniversariante

O craque argentino Lionel Messi completa nessa terça-feira 27 anos. Os jornais da Argentina e Espanha destacam a data com mapas e gráficos sobre as suas conquistas. E enumeram num tom cabalístico 27 recordes estabelecidos por ele desde 2003.

São João

Um dos países mais católicos do planeta, a Itália vive hoje, como o Nordeste brasileiro, a tradição dos festejos juninos. E as paróquias por todo o país já alteraram o horário de missas e procissões para que o povo fique ligado no jogo da Azurra em Natal.

Quem diria?

A convenção que oficializou a candidatura à reeleição de Dilma Rousseff esteve longe do padrão petista de festa partidária. Muita segurança nas entradas, sem fotos de Lula e um fato inesperado: muitos militantes saíram para lanchar durante a fala de Dilma.

Reforço

O deputado federal Betinho Rosado está predeterminado a apoiar a coligação PSD-PT, levando suas lideranças do PP e mais 21 prefeitos para a campanha do candidato a governador Robinson Faria. No plano nacional, o PP já apóia Dilma Rousseff.

Deu na Folha

“Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O “Aezão” agora é orgânico”. (Eliane Cantanhêde)

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