Caymmi: As honras da hora e outras ondas

Seu W. é de Wellington e seu D. de Dantas. Nomeiam um Wellington Dantas Cavalcanti. Assim, W. D. Cavalcanti é…

Seu W. é de Wellington e seu D. de Dantas. Nomeiam um Wellington Dantas Cavalcanti. Assim, W. D. Cavalcanti é natalense,

poeta de ‘Adiantamento da Legítima’, o belo livro de poemas de 2010, publicado aqui, pela editora Una, e lançado no Brasil.

Raramente sai do seu mistério. A não ser quando desencanta, como ontem. Sem avisar, estavam aqui o texto sobre Dorival Caymmi e os dois poemas que escreveu para homenagear Dorival Caymmi, de quem ‘o canto é bênção e o silêncio é lição’. E como não gosta, pelo muito que há de injusto e hipócrita, nas festas oficiais, aceitou republicar os dois poemas feitos há décadas para fugir da batida do ponto

burocrático na data redonda dos cem anos de Caymmi. Festa que vem vindo por ai (VS).

 

Caymmi, negro como convém a quem de fato é fruto de amor gerado na Bahia, mas de sangue e nome também italianos, nasceu há cem anos, na Saúde de uma Salvador não irremediavelmente doente como a de hoje, quando os trilhos urbanos ainda não haviam demolido a Sé primacial. Portanto, euroafrobaiano é o santo, desapegado de tudo o que viria a ser, em desacordo com o seu legado, o empopecimento da canção. Fundante e dissidente, seu canto é bênção e seu silêncio é lição.

Agora, é hora de bater o burocrático ponto das celebrações oficiais no redondo da data, com todas as pompas urgentemente improvisadas para que as homenagens pareçam menos inconsistentes do que são. Há sempre nessas comemorações inegável justiça e oportunismo hipócrita.

No entanto, outras ondas existem…

Desde a infância, dão colorido à minha memória os improváveis azuis de Caymmi e o Mar, com ondas rebentando em rochas ante um estoicamente impassível e jovem senhor, a olhar para algum além de que não se sabe, mas que inequivocamente está fora do enquadramento.

Sem as pressas do agora, na calma que Dorival inspira, escrevi, há décadas, dois poemas, publicados em 2010 no livro Adiantamento da Legítima, de minha autoria. Neles, assim o evoco com a admiração da criança que cedo o ouviu por gosto e apontamento dos pais:

Anacoreta avesso à fome de fama, ele cantou muito sabiamente: “Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”. Logo, São Francisco Salvador. Sim, euroafrobaiano é o santo. Soterofranciscano. E o que lhe foi circunstante nos é bem menos longe e exótico do que possa parecer.

Tudo o que ele nos cantou nos é tão próximo e ainda está tão perto, apesar de cada vez mais triste e dessemelhante.

Salvador, 30 de abril de 2014.

 

DIÁLOGO QUE FLUI

Dorival diz: só louco amou como eu amei,

só louco sabe o bem que eu quis;

ao que Rimbaud dispara: já é uma grande vantagem

que eu possa rir dos velhos amores ilusórios.

Heráclito discorre: não podemos nos banhar

duas vezes no mesmo rio

porque suas águas se renovam a cada instante.

Eu deságuo: insisto em mergulhar nesse inconstante

e também rio.

 

URGÊNCIA

É doce morrer no amar,

antes que o amar amorteça.

Nos olhos verdes do amar,

antes que o amar não mais veja.

Nos braços fortes do amar,

antes que o amar desfaleça.

Nas pernas rijas do amar,

antes que o amar enfraqueça.

No colo quente do amar,

antes que o amar desaqueça.

É doce morrer no amar,

antes que o amar esmoreça.

Nos lábios tintos do amar,

antes que o amar emudeça.

No riso pleno do amar,

antes que o amar entristeça.

Na cabeleira do amar,

antes que o amar já não cresça.

Nos seios firmes do amar,

antes que o amar amoleça.

É doce morrer no amar

antes que o amar só padeça.

Nas ondas verdes do amar,

antes que o amar madureça.

Nas águas claras do amar,

antes que o amar anoiteça.

No tempo presente do amar,

antes que o amar esqueça.

No infinitivo do amar,

antes que o amar findo esteja.

É doce nadar no amar,

antes que o amar nada seja.

 

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