Celebritate sua sat notus
O termo “beatlemania” foi usado pela primeira vez em 1963 por um crítico do jornal The Times, de Londres. Impressionado com a histeria causada pelos quatro cabeludos, a percepção de que algo mais do que uma simples admiração musical emanava das jovens o levou a cunhar o termo. Para boa parte das pessoas, o fenômeno era inédito. No entanto, no século 19, a mesma idolatria e inconsequência juvenil foi observada em relação ao pianista e compositor austríaco Franz Liszt. Era a lisztmania.
Virtuose no instrumento que divide com o violino a proeminência na música clássica, bonito, culto e sofisticado, Liszt foi o primeiro ídolo a mexer com hormônios femininos e emprestar um caráter divino ao artista – as mulheres usavam broches com sua imagem; disputavam xícaras, guimbas de charutos, lenços e luvas que ele tinha usado. Em seu passaporte, autoridades austríacas carimbaram “celebritate sua sat notus” (em latim, “notório por sua fama”), o que garantia livre acesso a qualquer país.
É a partir deste momento da história que Tim Blanning inicia seu “O Triunfo da Música”, livro soberbo que dispensa conhecimento musical para sua fruição e traça um panorama da mudança que a profissão de músico sofreu após o inicio da Revolução Industrial – das civilizações antigas até o século 17, eram situados no nível mais baixo da sociedade, juntos com mendigos, escravos e prostitutas. Em cinco capítulos, Blanning, professor aposentado de história moderna da Universidade de Cambridge, percorre cinco séculos da arte mais invasiva, superficial e apaixonante.
Se o processo teve início com a emancipação conseguida por Mozart e Beethoven (primeiros a terem sua imagem difundida pela Europa e adquirirem status de celebridade), e a consequente explosão de Liszt, a música ganhou propósito nacionalista com o despotismo cultural empreendido por franceses – fortemente repelido por alemães, italianos e ingleses. A guerra ‘intelectual’ entre as quatro nações mais importantes da Europa é dos pontos fortes no trabalho de Blanning. Assim como a dessacralização do artista em consonância com a popularização de espetáculos musicais – sobretudo na Inglaterra, terra de pouca tradição musical, mas número um em acúmulo de riqueza.
Enquanto guerras eram travadas, o sentimento nacional era desenvolvido em torno das artes, principalmente da música. Franceses e italianos se achavam donos da melodia, sensíveis e refinados; alemães, da harmonia e da profundidade. Trechos de críticas da época são reproduzidos em “O Triunfo da Música”, alimentando a curiosidade sobre ódios transnacionais que justificaram conflitos bélicos posteriores – a Alemanha dominada militarmente por Napoleão, por exemplo, instigou uma forte francofobia baseada em uma rejeição cultural absurda.
As duas últimas partes tratam da tecnologia e da música como libertação social. De Paganini, que era acusado de ter pacto com o diabo de tão espetacular que era sua desenvoltura no violino, até a eletrificação da cultura jovem, nos anos 1950, com a expansão do rádio e da televisão, novos instrumentos alteraram o formato e o conteúdo das composições e, com isso, influenciaram gestos de rebeldia política e comportamental.
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