Cem anos sem José da Penha

Olhando a pequena bibliografia de José da Penha, quase sempre de claro interesse castrense por ser um militar intelectualizado, não…

Olhando a pequena bibliografia de José da Penha, quase sempre de claro interesse castrense por ser um militar intelectualizado, não é fácil atribuir ao valente capitão, também, a condição de intelectual. Talvez não tenhamos até hoje pensadores de verdade na província, a não ser por altruísmo provinciano de alguns. Mas, certamente, foi um homem de inteligência singular, com percepção muito além do seu tempo. Um republicano verdadeiro, de grande visão crítica a lutar contra o mandonismo das oligarquias.

Câmara Cascudo registra na Acta Diurna de 22 de fevereiro de 1942, pela ordem de publicação, datas confirmadas pelo professor João Felipe da Trindade: ‘Pela Defesa Nacional’, 1900; ‘Aerostação Militar (tradução), 1901; ‘Pela Pátria e pelo Exército, 1902; ‘O Espiritismo e os sábios’, 1902, ‘A Salinésia’ (sátiras), 1904; e ‘Manual Militar’, 1909; este dedicado ao Marechal Hermes da Fonseca, proclamador da República. Cinco de sua autoria e uma tradução, em poucos anos de atuação intelectual.

Com certeza José da Penha foi um grande leitor. É no Rio de Janeiro que estuda e debate as idéias de um mundo que entrava no último século do segundo milênio. Teve todo acesso, certamente, às maiores fontes da filosofia, como revela no seu ensaio ‘O Espiritismo e os Sábios’, mesmo publicado na pachorrenta Natal de 1902, impresso nos prelos da empresa ‘Gazeta do Commercio’ com aviso gravado no centro da capa, mostrando o estilo sem agrados ou meias verdades: ‘Este livro não é o que pensais’.

Não se sabe de nenhum outro exercício ensaístico com mais de um século e naquela Natal pacata de 1902, com uma fortuna de fontes filosóficas que possa ser comparada ao ensaio de José da Penha nas suas surpreendentes 166 páginas. E, se não bastasse, a ousadia em torno de um tema que ainda apenas começava a ser discutido profundamente na França, Alemanha e Inglaterra. O livro merece um prefácio longo e erudito do filósofo Farias Brito, até hoje considerado pai da metafísica espiritualista no Brasil.

A riqueza e a modernidade das idéias de José da Penha se revelam nas próprias circunstâncias de tempo e lugar de sua pesquisa. Apoiado, principalmente, em autores franceses, alemãs e ingleses e com prevalência para traduções francesas mais acessíveis, o ensaio sobre as raízes metafísicas do espiritismo causa espanto a Farias Brito: ‘É deste modo que um livro de certa extensão ocupando-se exclusivamente dos problemas da religião, ainda quando se trate do espiritismo, é para causar estranheza’, escreve.

Ao longo do seu prefácio de dezessete páginas, Farias Brito declara várias vezes concordar com as idéias de José da Penha. Não é à toa que o filósofo constata as renascenças que o mundo já vivera, da literária à artística e filosófica, concluindo: ‘Chegou o momento em que deve começar a renascença religiosa’. E prega, claro: ‘Para mim o espiritismo é uma reação in extremis, mas mui natural, contra as pretensões exageradas do materialismo’. E discorda que tudo na natureza seja necessariamente corpóreo.

É ainda Farias Brito no prefácio a José da Penha, depois de criticar os materialistas modernos do seu tempo: ‘Mas o que não se pode contentar é a própria alma. Pesar e medir, eis a lei dos sábios modernos. Mas quanta coisa há na alma que não se pode pesar, nem medir, e que, entretanto, é capaz de produzir os mais consideráveis efeitos?’ A seguir: ‘É preciso que o homem nunca tenha sofrido e amado, que nunca tenha tido aspirações, nem desejos, para admitir e compreender que tudo se possa explicar na vida do espírito por peso e medida, como se se tratasse de simples combinações corpóreas’.

José da Penha não nega o desafio de escrever para ser entendido ‘por todos os espíritos’. A rigor, como informa em nota ao livro, escreveu este ensaio em 1899, no século anterior, o que prova a precocidade de suas leituras e idéias. E num ensaio anexo à parte final do livro, defende a língua pátria como o único patrimônio inalienável: ‘Quando um povo é esbulhado de todas as suas instituições, a língua é o único troféu que o inimigo não conquista’. E pede a atenção para outros valores como religião, costumes, leis, território e caracteres anatômicos’ de cada povo que é livre.

Embora tenha a extensão inferior a duzentas páginas, incluindo no final o pequeno ensaio sobre ‘A Questão Ortográfica’, quando discute algumas inovações propostas pela reforma ortográfica da nossa língua portuguesa, José da Penha tem uma visão requintada e esquemática do espiritismo. Divide em capítulos cada parte do livro, todos titulados, das origens da fé e do fanatismo ao suplício dos grandes reformadores, filiações históricas do espiritismo, os precursores e os novos autores, o papel do faquir, seus antecedentes e suas práticas, continuidade histórica do espiritismo, a crença num agente universal, os cientistas e o povo, as idéias de Alan Kardec, os inimigos e a Sociedade Dialética de Londres. Ao fechar o sumário, com títulos sempre circunstanciados, uma visão panorâmica dos estudiosos alemães, russos, italianos, austríacos, espanhóis e suecos. Encerra prometendo numa segunda parte ‘aclarar e compensar o leitor do tempo vãmente dissipado’. Ele foi um homem genial e precoce em tudo que fez e escreveu. Ou, como perguntou Alvamar Furtado, encerrando seu discurso de posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, no espanto de uma indagação: ‘Quem foi José da Penha Alves de Souza?

PETISMO – I

A deputada Fátima Bezerra perdeu a primeira batalha, a interna, dentro do próprio partido, quando não segurou a aliança proporcional na chapa de deputado estadual. O fato revela uma divisão de facções.

EFEITO – II

E enfraquece sua candidatura junto aos deputados do PSD, mas garante uma recondução do deputado Fernando Mineiro à Assembléia Legislativa e preparação para disputar a Prefeitura de Natal em 2016.

ALIÁS – III

Reeleito, e com o cacife de ter feito uma campanha correta na disputa com Carlos Eduardo em 2012, é hoje o nome melhor posicionado para enfrentá-lo. Principalmente se Dilma Rousseff for a presidente.

 VERDADE – I

Disse a verdade o deputado Henrique Alves: o povo deu as costas ao governo Rosalba. Mas faltou ele dizer que ao lado dela estava o PMDB. Desde a campanha, com Garibaldi, e depois com ele, Henrique.

ALIÁS – II

Ao lado da governadora também estava o PR do deputado João Maia, hoje seu candidato a vice. Longe e contra só a ex-governadora Wilma, agora ao lado do PMDB e do PR. Tão injustificável quanto eles.

EDIÇÃO

O Sebo Vermelho lança a segunda edição de ‘Formação do Seminarista’, de Dom José Adelino, bispo e sertanejo do Seridó, edição original Vozes, 1947. Nas orelhas, o belo texto de Sanderson Negreiros.

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