Cem anos sem José da Penha

Natal de 1913 – quando José da Penha voltou a Fortaleza para assumir o seu mandato de deputado – era…

Natal de 1913 – quando José da Penha voltou a Fortaleza para assumir o seu mandato de deputado – era uma cidade lírica, de hábitos tranquilos, vivendo a segunda administração de Alberto Maranhão. Havia amor às artes clássicas, um gosto um tanto snob pelas coisas do espírito, ócios de uma aristocracia embalada pelas coisas de Paris, de costumes políticos monótonos pela sucessão de candidatos que se entrelaçavam num parentesco bem instalado na ordem invariável das preferências’.

A descrição é de Alvamar Furtado no discurso de posse ao assumir, como primeiro ocupante, a cadeira 34 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras que tem como patrono José da Penha. Naquele ano, lembra, o Xarope Bromil e a Salsa Holanda prometiam milagres. As mulheres corriam às lojas a procura dos elegantes chapéus italianos e tecidos ingleses, e retornava a Natal o médico Varela Santiago, trazendo de Paris e Lausanne, moderna injeção para tratamento da doença terrível da sífilis.

De Natal, José da Penha seguiu para Recife, e lá embarcou no vapor ‘Olinda’. Mas, antes, quando vinha para Natal, já decidido a enfrentar as eleições de setembro na luta contra a oligarquia Albuquerque Maranhão, foi entrevistado pelo jornal ‘A Época’. Suas declarações estão na edição do dia 24 de janeiro de 1913, já apresentado como ‘o intemerato republicano’, revelando sua alma de valente a anunciar a luta contra os poderosos que dominavam sua terra.

É nesta entrevista que José da Penha denuncia o desamparo em que vive o norte-rio-grandense do sertão e da capital. E cita um exemplo que considera acintoso: a perfuração de poços artesianos que deveria ser para garantir água para o povo, um deles – denuncia – foi perfurado ‘numa chácara do Dr. Pedro Velho’, velho privilégio das oligarquias. Para ele, mesmo sem vencer, a luta não foi em vão: ‘A vitória será do povo’, declara, afirmando que ‘já não somos, para derrotá-los, apenas um partido’.

De volta a Fortaleza, ao lado das duas filhas, Maria Anita e Zaíra, e mesmo derrotado, José da Penha não teve sequer o descanso merecido. Escreve Aluizio Alves na conferência: ‘Politicamente derrotado, com a alma sangrando de decepções de altas figuras da República, a J. da Penha não estaria reservada sequer a paz dos vencidos’. Ao descer em Fortaleza, encontrou os amigos e correligionários ‘vivendo momentos difíceis para dominar a chamada Sedição de Juazeiro’. É o chamamento para uma nova luta.

José da Penha encontra um Ceará conflagrado. O governador eleito pelo voto, coronel Franco Rabelo, hostilizado por Pinheiro Machado, senador forte junto ao presidente Hermes da Fonseca. No plano estadual, um clima de rompimento com seus maiores correligionários e, no municipal, um conflito com o padre Cícero Romão Batista que Rabelo, inábil na visão de Aluizio, demitiu do cargo de presidente da Intendência do município, unindo contra o governo a oposição, coronéis e jagunços.

As duas primeiras expedições contra os revoltosos de Juazeiro foram derrotadas. Os jagunços lutavam com armas do Exército fornecidas pelo Governo Federal, sob influência de Pinheiro Machado, este articulado por Floro Bartolomeu. Aluizio cita Octacílio Anselmo no seu livro ‘Padre Cícero, Mito e Realidade’ para dizer que só depois de duas derrotas o governador Franco Rabelo lembrou-se de José da Penha, o coronel destemido que deveria ter comandado a luta contra o Padre Cícero desde o início.

O coronel José da Penha não teve dúvida. Aceitou o convite, reuniu quase duzentos homens, pouco para o combate que ria travar, armados com rifles, e partiu no trem da Viação Cearense dia 2 de fevereiro de 1914 a caminho de Miguel Calmon, onde enfrentaria uma jagunçada de mais de mil fanáticos do padre Cícero. Na plataforma – informa Aluizio Alves na sua conferência – fez um discurso bem no seu estilo épico para avisar: ‘Vou porque não posso faltar. E só voltarei vitorioso ou morto’.

José da Penha era autor de um Manual Militar, sabia das táticas de combate. Ocupou o campo de luta, construiu trincheiras, planejou o fogo cruzado assumindo os dois lados da linha de ferro, numa extensão de três quilômetros e a um quilômetro de distância da vila. Mas, foi surpreendido. Uma parte dos jagunços abandonou suas fileiras ainda longe das suas trincheiras e seguiu pela retaguarda para atacar o posto de comando do tenente Júlio Bruno. Os jagunços recuaram, mas, surpreendido, José da Penha foi revisar, em plena madrugada, a posição dos seus homens e reforçar a tática de resistência.

Em pleno tiroteio, passou um telegrama ao governador: ‘Estamos sendo atacados e oferecendo séria resistência’. E assinou impávido: ‘Viva a República’, José da Penha’. Dia 22, ouviram-se os últimos tiros. Os jagunços se retiravam levando cerca de oitenta feridos num cenário de muitos mortos e moribundos. Mas, do lado das tropas vitoriosas, explodiu como um tiro de mosquetão a pergunta que não estava nos planos dos comandados naquele instante de glória: onde está o capitão José da Penha?

Aluizio descreve: ‘Supondo-se perdido no matagal, seu substituto, o capitão Afonso de Carvalho, mandou executar o toque de Comandante em Chefe em todas as direções, com prolongados silvos de locomotivas. Patrulhas saíram na madrugada na busca desesperada. Ao amanhecer, o corpo de J. da Penha foi encontrado à margem direita da estrada de ferro, à altura do quilômetro 337, em decúbito ventral. Tiro certeiro atingira-lhe o temporal direito, deixando orifício de saída na região da nuca. Perto, o cavalo também morto. Mais adiante, o corpo do ordenança’.

Continua Aluizio, impecável: ‘Levaram-lhe o relógio, a aliança e a cruz que conduzia ao pescoço. Três símbolos perdidos: o das horas trepidantes ou solitárias que vivera; o da saudade da companheira sacrificada; o da fé que triunfava sobre as desolações das derrotas’.

Uma tristeza tumultuada caiu sobre a tropa e o pranto inundou a alma do povo. O corpo seguiu no trem para Fortaleza. Era uma segunda-feira de carnaval, conta Aluizio citando Octacílio Anselmo. Pela primeira vez a praça que um dia antes festejara a derrota dos jagunços sob o comando do capitão José da Penha, caiu na tristeza. A cidade desistiu do carnaval, pela primeira vez na sua história. Só ficou a melancolia dos versos do cego Aderaldo puxados nas cordas tristonhas de sua viola: ‘Deus de dê a salvação, / Boca que nunca mentiu / braço de herói destemido / mão forte que resistiu’.

Como ele mesmo disse no discurso que fez na estação do trem, só voltaria a Fortaleza, vitorioso ou morto. José da Penha voltou vitorioso e morto, vítima de uma emboscada visitando suas trincheiras.

Os jagunços voltaram, invadiram e saquearam a cidade. O governador caiu. Tudo mudou.

Hoje, um século depois de sua morte, e como lembrou Aluizio Alves fechando sua conferência em maio de 1975, nos cem anos do seu nascimento, de José da Penha pode se repetir o que ele mesmo escreveu em 1912, aos 37 anos: ‘Imolado, sim. Vencido, nunca!

Entre os dois – José da Penha e Aluizio Alves – restaria um laço fixando numa frase que ele, Aluizio, então ainda cassado, deixou gravada na sua conferência como um aviso:

– Fez da palavra uma semeadura de esperanças.

Compartilhar:
    Publicidade