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Censurado

Data: 12 janeiro 2013 - Hora: 18:00 - Por: Rubens Lemos Filho

Certa vez, repórter policial em dia sem notícia, corri para o gabinete do secretário de Segurança Pública, num prédio antigo, de fachada bucólica, na Ribeira, o bairro mais nostálgico de Natal. O prédio, belo, está banguelo. É a antiga Faculdade de Direito, antes imponente, hoje em aspectos assombrosos.

Decidi conversar com o secretário sobre crimes sem solução há longos anos e o rumo das investigações. Uma pauta sem tempero porque eu sabia que o entrevistado diria o de sempre: não havia pistas e a polícia tinha inúmeros outros casos mais recentes e prioritários. A cidade não registrara um crime que valesse matéria, por banal que fosse, nenhum tiro fora disparado, houvera assalto sequer de uma bodega. Ainda morávamos em uma aldeia.

Antes de entrar no gabinete do secretário, homem experimentado, raposa política, memória implacável, conversa de hipnotizar, encontro uma mulher elegante no vestir, empinada no semblante, óculos escuros. Ao lado dela, um rapaz, ray-ban no rosto, braços hercúleos, camiseta tamanho P para um tórax letra G. Enquanto o fotógrafo saía para fumar no corredor, dei boa tarde e a senhora prontamente me avisou: Se você é repórter, fale com os meus advogados. Estou aqui para fazer uma séria denúncia, mas nossa família não se envolverá.

Jornalista “ama” este tipo de abordagem. A mulher era metida, medi a fita. Bem diferente das mães- personagens-dramáticas do meu dia-a-dia suburbano. Mulheres à porta de delegacias, à beira de caixões, à entrada de presídios rebeldes. O rapaz estava calado, bem novo e eu tratei logo de convocar meu fotógrafo para registrar o momento. Ele entrou disparando o flash e os dois, mãe e filho, partiram dedo em riste e mãos no rosto. “Vou processar vocês, vou processar o jornal”.

O secretário, charuto à mão e a velha malandragem, autoriza a entrada dos dois. Em seguida, vai à porta, olha e dá uma piscada de olho marota, dizendo: Espera que quando eles saírem eu te conto.Fui ficando, já que não tinha mesmo história naquela tarde e quem sabe não teria uma. De repente, furioso, passa um jovem tenente da PM, convocado pelo secretário.

O tempo é o eterno conspirador contra o repórter. Na época do episódio, o processo de produção de um jornal era lento, computador nem em sonho, tudo na máquina de escrever, no diagrama de desenhar página, na colagem. Ainda assim o noticiário saía quente. O fato é que a demora naquela conversa agora a quatro me angustiava.

Uns 40 minutos mais tarde, saem, batendo a porta e furiosos, mãe e filho. Acho que de propósito, o menino estava sem os óculos e ostentava um tremendo hematoma no olho esquerdo. Um roxo só. A mãe era a própria grã-fina das narinas de cadáver, criada por Nelson Rodrigues em A Vida Como Ela É. Seu olhar parecia falar: Aguardem que eu sou poderosa.

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O secretário me manda entrar. O tenente está sentado no sofá do gabinete. O secretário recosta-se na sua cadeira de balanço e inunda a sala de fumaça e do cheiro do charuto. E a mim dirige-se no seu jeito mineiro do Seridó, bela região potiguar: Pois bem meu caro Lemos(tem a mania de chamar as pessoas por sobrenomes e apelidos), a prendada senhôra(caprichando no circunflexo), veio queixar-se do jovem tenente, que teria espancado o seu bondoso filho. Meia verdade…

Eu ria do ritual do secretário de Segurança Pública. Cheio de teatro, me contou que, o filho da madame havia levado uma surra da polícia. Que havia sido chamada a um circo onde tocavam artistas baianos para domar a fera lutadora de jiu-jitsu. Duas guarnições de quatro homens, cada, foram necessárias para conter o mini-gorila.

Ele espancava um velho garçom que demorara a levar-lhe uma cerveja. Bateu tanto que o cidadão quebrou maxilar, clavícula, duas costelas e encontrava-se, naquele momento, hospitalizado. O tenente do batalhão de Choque, (calado) teria sido o responsável pelo murro que dera nova coloração à cara do brutamontes.

O secretário então me comunicou que seria aberto um inquérito para apurar responsabilidades” e que o sansão-mirim, já com 18 anos, seria indiciado por agressão. O secretário me pediu off: “Ela queria que eu prendesse imediatamente os policiais, transferisse o tenente para Patu( a 400 km de Natal) para não processar o Estado. Perguntei pelo senhor garçom, trabalhador atacado, e ela disse que não era problema dela. Saiu pela perna de um pinto, entrou pela perna de um pato, o jovem Lemos se quiser, que conte mais quatro. “ Saí com pelo menos 30 linhas alinhavadas e um título na cabeça: “Valentão agride garçom e apanha da polícia.”

O editor gostou da sugestão. Pediu 10 linhas para chamada de capa e as fotos da madame e da sua besta-cria para avaliar se daria primeira página. E eu furiosamente dedilhei na Olivetti Lettera 32. Deu lauda e meia(45 linhas). “Tá bom, tá ótimo”, disse o editor, apressado.

Misteriosamente o telefone da redação toca. É um dos diretores para ele, o editor. Vai atender na sua sala de vidro, visível para toda redação. Gesticula, mostra irritação, desliga e solta um palavrão. Vem à minha mesa. Eu calado, antevendo o que ouço em tom de lamento: “A matéria caiu. O pai do espancador é comerciante grande, anunciante do jornal.” Nem dormi nesta noite. Meu consolo foi saber que o troglodita também não.

 

Franklin
É um desperdício Natal sem os comentários esportivos de Franklin Machado, dos grandes de sempre. Dos poucos que liam o jogo, tratavam bem o idioma, conheciam futebol. Franklin Machado precisa  voltar à cabine de rádio para ensinar aos meninos empavonados de hoje.

Privilégio
É um privilégio, para Passe Livre, receber um e-mail de Franklin Machado, saudoso do seu amigo Caiçara, o lendário técnico nordestino que se foi esta semana. Franklin é objetivo sem perder a ternura.

O bilhete eletrônico
“Sobre Caiçara – um grande amigo, muitas vezes presente nas nossas noitadas esportivo-etílicas, que começavam com uma resenha pós-jogo e, às vezes, continuavam na Peixada Potengi, irretocável.”

Tenho razão
Em breves palavras, o leitor percebe que tenho razão quanto sinto falta de Franklin Machado empunhando um microfone, sem medo e tirando da alma, com valentia, suas opiniões.

Pancinha
Num grave erro, digitei ABC no lugar de América ao escalar Pancinha na seleção de Alex Medeiros. Corrijo a falha.

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