Centro de Turismo de Natal prepara comemoração do Dia do Folclore

Centro de Turismo de Natal aguarda conterrâneos com boa oferta da arte e do artesanato potiguar; prédio do século XIX terá apresentações culturais nesta sexta-feira em que é comemorado o Dia do Folclore; homenagem à Câmara Cascudo será em novembro

Foto: José Aldenir
Foto: José Aldenir

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Imagine a seguinte cena. Um grupo de adolescentes espera para embarcar rumo à Disney. Gritaria, sorrisos, expectativas diversas. A paquera já corre solta. Até que chega um jornalista, que aproveita a aglomeração para seguir com uma pesquisa que o ocupou nos últimos dias.

– Quem aí já foi com o pai ou a mãe à Fortaleza dos Reis Magos? Ou no Museu Câmara Cascudo? E no Centro de Turismo? Sabiam que lá funcionou um presídio?

Dois ou três falaram sobre os lugares citados, conhecidos através de excursões do colégio. O mascate da palavra registrou o silêncio da maioria dos jovens e tirou conclusões. Uma delas é que, grosso modo, a classe média e alta potiguar é aculturada e ignora a arte e a cultura vivida por conterrâneos – por isso a relevância de Luís da Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro que desvelou tudo o que via envolta e ajudou quem é curioso por detalhes da própria formação como gente.

Hoje, Dia do Folclore, sobram homenagens e lembranças do homem que levou o Rio Grande do Norte ao pódio do conhecimento, citado em cada esquina deste continente como exemplo de intelectual erudito e popular – que diz muito, de forma acessível. Mas como aqui a coisa pesa de um lado e alivia no outro, existe um prédio público, arquivo de parte da história potiguar, que clama para cair no gosto da população. É o Centro de Turismo, a antiga casa de detenção, que também já foi orfanato, cuja arquitetura neoclássica do século XIX fornece uma das mais belas vistas da capital.

Nesta sexta-feira (22), exposições e apresentações culturais celebraram a data criada em 1965. A partir das 16h30, bandas musicais com crianças carentes e o Boi de Reis ocuparam o pátio outrora cruzado pelas Filhas de Santana – diretoras do orfanato Padre João Maria, em funcionamento entre 1920 e 1943. Além disso, as 38 lojas de artesanato e gastronomia esperam pelo visitante que, na esmagadora maioria, vem de Estados distantes – fenômeno repetido às quintas-feiras, durante o tradicional Forró com Turista, festa que embalou muito romance de antanho.

“Falta de incentivo à cultura é cultural. O natalense precisa vir ao Centro [de Turismo]. Aqui é onde está a arte do Estado, com bordados, artesanato e esse prédio que exala cultura. Tem até a moda. Cultura é coisa de sangue. Talvez falte divulgação para as pessoas virem mais aqui. Tem gente que nem conhece. Eu quero resgatar a história do Centro com eventos culturais para que ele seja mais um atrativo para o natalense”, diz Lenilda Emerenciano, presidente da Associação dos Empreendedores do Centro de Turismo (ASECTUR).

À frente da instituição pela terceira vez, ela, juntamente com ‘Dona Glória do Sisal’, vive o cotidiano do Centro de Turismo desde sua fundação, em 1976 – a burocracia foi iniciada no governo Cortez Pereira (1971-1975). Ela ainda é proprietária da loja Nº5 e sabe o quanto de riqueza existe naquele casarão do século retrasado que, de tempos em tempos, mudou sua função. A inauguração do Museu Casa dos Milagres, em 2013, com réplicas dos santuários do Estado montadas no local onde existia a antiga capela, deu gás novo na estrutura e na agenda de atrações, mesmo que de forma tímida.

“A história do Centro conta a evolução de Natal. E agora tem alguns exemplos do que melhor existe no artesanato potiguar. Quero acrescentar algo a isso tudo, como alguns eventos. Em novembro, teremos uma homenagem à Cascudo”, anuncia Lenilda. Ela sabe que a concorrência com o lazer atual da juventude é desleal – como fazer com que um menino cheio de celulares e computadores modernos, viciado em televisão (peço licença aos ‘esquerdistas’, mas quase toda americanizada) e na estética dos outros tenha interesse em cânticos, danças e versos confeccionados Sertão adentro?

Na hora em que índios, negros e portugueses criaram o ser potiguar, surgiram novas manias, gestos, forma de se divertir, comunicar e se alimentar. Sem contato (conhecimento e transmissão) com esse ‘pacote existencial’, o povo vira amorfo, de olho na última coleção do vestuário alheio, ou seguidor de ideias distantes de sua origem – desconfio que parte expressiva dos consumidores de Prozac e de pacientes da psicologia saiam dessa extinção em andamento. “Recebemos alunos de escolas públicas, mas o natalense adulto não pode esquecer isso daqui”, conclui Lenilda.

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