No céu da boca

É nesta vila, Senhor Redator, sem inveja e sem desdém do requinte hoje tão comum na vida dos ricos, que…

É nesta vila, Senhor Redator, sem inveja e sem desdém do requinte hoje tão comum na vida dos ricos, que se põe e dispõe da velha mesa praieira e nordestina da primeira metade do século vinte como se resistisse aos modismos do mundo inteiro. Sem renegar apresuntados, embutidos, queijos brancos, iogurtes e outras bebidas lácteas, aqui nesta vila ainda fazem o gosto de nativos e veranistas todas aquelas coisas de ontem – o café e o leite, as raízes cozidas, pão assado, cuscuz de milho, banana da terra e tapioca.

Talvez – danado é quem duvida! – seja um mito de saudosismo de uma infância sempre assim, diante de uma mesa nordestina sem que se tivesse consciência que um dia seria a tradição nos seus últimos suspiros. Hoje, o cheiro do café torrado não foge pelas frestas das telhas perfumando as manhãs e anunciando o dia. Nem fervem nas panelas a macaxeira, a batata doce e o inhame, a não ser quando sai nas revistas ou na televisão alguma receita de comida saudável que não seja feita quase de plástico.

Já não lembro mais onde li, acho que foi num ensaio do professor Sidarta Ribeiro tratando da vida moderna, que agora, ao contrário do Rei Midas – aquele que na mitologia grega transformava em ouro o que tocava – o que tocamos com as nossas mãos modernas, vira lixo. Somos, desgraçadamente, a civilização das coisas prontas e embaladas. Do prêt-à-porter das roupas ao pronto para consumir dos pratos que se leva ao forno e em alguns segundos ficam aquecidos naquela vitrine giratória dos modernos micro-ondas.

Ou, quem sabe, a velha mesa do desjejum é tradição caída de moda que ficou aqui, nas casinhas desta vila humilde, vivendo do gosto dos mais velhos e já distante do paladar das crianças hoje criadas sentindo o gosto de sabores modernos. Os cereais têm nomes estranhos – sucrilhos – ‘ricos em ferro e cálcio’, e mergulhados em ‘leite vitaminado’. Vejo quando os meus netos comem com gosto aqueles waffles ou waffers, sei lá, espécie de biscoito que sai aquecido de uma pequena máquina e cobertos com leite condensado.

Sou do tempo do cheiro de terra do inhame, alvo e tenro; da batata roxa das frescas vazantes dos rios, macaxeiras cremosas, do massapê do paul, banana da terra cozida, açúcar e canela. Ainda carrego nos ouvidos o pregão das mulheres anunciando a carimã fresca das papas que as nossas mães sabiam fazer. A goma das tapiocas e do pecado maneiro, alvas como leite, quentes e ternas, acariciando a própria alma. Das bananas fritas e açucaradas, ovos ‘estrelados’ na manteiga da terra, hoje condenada de tão perigosa ao colesterol.

Ora, Senhor Redator, não renego o saudosismo de uma memória gustativa que não pode esquecer os gostos que ficaram pregados no céu da boca. E, se posso ousar em dizer, tenho pena das crianças e dos jovens de hoje, desterrados que vivem de um mundo simples e saudável, livre das neuroses desses tempos de agora. Pobremente levados pelos modismos gastronômicos que anunciam novidades como se fossem descobertas recentes. E como se o homem, coletor na sua origem, não fosse um filho legítimo da terra.

 

PAREDE
O PT viu: não faz medo a presença da cúpula do partido para forçar o PMDB a aceitar Fátima Bezerra como candidata ao Senado. Mas, mesmo assim, tentou. E não custou nada Rui Falcão gritar seu ‘Queremos Fátima!’

PROCURA-SE
Onde estariam os filmes raros, do tempo do cinema mudo, da Coleção Aldo Medeiros que anexados ao acervo cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Norte? Quem souber deles favor informar a esta colunista.

PERIGO
Feitos em celuloide, estariam todos aqueles filmes históricos bem acondicionados em latas apropriadas e em ambiente climatizado? Os livros estão conservados na Biblioteca Central. E os filmes podem ser consultados?

ESTREIA
Guilherme Henrique Cavalcanti é o ficcionista que será lançado em fevereiro pela CJA Edições, de Cleudivan Jânio de Araujo, o historiador da filatelia no Rio Grande do Norte. Ele vem com a novela ‘A Imagem do Cão’.

OCASO
A crise em torno do mandato da governadora Rosalba Ciarlini, quando nada, pode retirar a sua última chance de recuperação se apostava em 2014 com a inauguração da Arena das Dunas. Pode ter um ocaso melancólico.

 

Os dez pensamentos do homem feio

Xico Sá

I – Que a beleza é passageira e a feiura é para sempre, como
repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg – o tio francês que pegava a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outras deusas. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.
II – Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são
demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.
III – Que o feio, o malassombro propriamente dito, saiba também
e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.
IV – Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar
indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.
V – Que homem que é homem não trabalha com senso estético.
Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório”do glorioso sexo oposto.
VI – Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim
da infância.
VII – Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos
manda duas divas logo depois de feita a caridade.
VIII – Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais
assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.
IX) Que me desculpem as muito lindas, mas sem imperfeição não
há tesão. Um quê de feiura é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova.
X – Saiba, por derradeiro, irmão mal-diagramado, que a vida é boxe:
um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas.

Compartilhar:
    Publicidade