Chora, Riva – Rubens Lemos

O Corinthians corrigiu uma injustiça de 40 anos e eternizou em busto o seu maior craque. Roberto Rivelino, camisa 10…

O Corinthians corrigiu uma injustiça de 40 anos e eternizou em busto o seu maior craque. Roberto Rivelino, camisa 10 expulso do Timão acusado pela perda do título estadual de 1974 contra o Palmeiras, chorou ao ser apresentado à sua representação em bronze, instalada no gabinete da presidência do clube. Belo gesto, tardio melhor do que nunca.

A canhota de Rivelino enfeitiçou minha geração de meninos apresentados ao futebol. Ele era o líder de uma seleção de craques nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978, transformada numa tropa androide durante as pelejas na Argentina.

No (meu) primeiro jogo da seleção, vi, maravilhado, a imagem que toca e fica no coração para sempre como referência de orgulho. O Brasil enfrentava a poderosa Alemanha Ocidental campeã do mundo de 1974 no ex-Maracanã superlotado.

O meio-campo, para quem é contemporâneo, dispensava exclamações: Cerezo, Rivelino, Zico e Paulo Cézar Caju. Lembro bem que os alemães, se defendendo o tempo inteiro e com o excepcional goleiro Sepp Maier pegando tudo, saíam em contra-ataques fulminantes.

Num deles, o atacante Fischer deu dois cortes no consagrado zagueiro Luís Pereira, então melhor zagueiro da Europa, jogando pelo Atlético de Madrid, chutou sem chances para Leão e o 1×0 persistiu até o finalzinho da partida.

Nem sei o que me marcou mais. A jogada sensacional no passe do lateral Zé Maria, no corta-luz de Roberto Dinamite, no toquinho de Paulo Cézar Caju e no chute, quase caindo, de Rivelino, rasteiro, no canto de um Maier contemplativo, louco para aplaudir a jogada peladeira e imarcável.

Também não sei se a minha idolatria por Rivelino se deu pela comemoração explosiva, correndo até as saudosas gerais, desabafando e girando os braços, aos berros. Estava diante de um gênio e muito mais, da reação de um homem comum e emocional. Gente extravasando pelos poros.

Em 1977, Rivelino estava feliz. Era bicampeão carioca e dono real do cetro de melhor do mundo. Jogava pelo Fluminense, no qual comandara uma Máquina Bicampeã Carioca e azarada ao parar em duas semifinais de Campeonato Brasileiro.

A primeira, diante do forte Internacional de Carpegiani, Falcão, Flávio e Lula, e a segunda, numa emboscada do destino, pelo esforçado Corinthians, a quem Rivelino serviu desde criança. E que tinha em seu lugar o limitado cabeça de área (e bagre) Ruço, uma espécie de Felipe Melo de cabelos loiros em formato de capacete.

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Rivelino era o melhor do planeta naquele 1977. Embora a mídia exaltasse o holandês Cruijff, desinteressado e sem o apetite de mago do carrossel holandês de três antes e o inglês Kevin Keegan, que sequer foi para a Copa do Mundo.

Cabeças ocas ainda citavam o fantástico Beckenbauer, em fim de carreira e a caminho do Cosmos, milionário time norte-americano criado para abrigar Pelé no esforço de ensinar superpotência a jogar bola. As mulheres aprenderam, os homens, seguem lutando.

Moleques de rua gostavam de (tentar) imitar o elástico, drible em que Rivelino grudava a bola no pé, passava o pé por cima, aplicava uma enganosa batida lateral e paralisava o marcador.

É lendária a finta no volante Alcir, capitão do Vasco, em 1975, humilhado com a bola entre as pernas e sem ação, enquanto Rivelino arrancava para marcar o gol da vitória tricolor.

Rivelino, famoso pelo tricampeonato mundial no México com a seleção de 1970, foi muito mais que o apelido de Patada Atômica. A força dos seus chutes ninguém discute. Estourava redes, assombrava goleiros, furava barreiras humanas.

Acima do normal a sua técnica, a beleza dos seus passes e a soberania dos dribles copiados por Diego Armando Maradona no campinho do seu bairro miserável em Lanús, província de Buenos Aires. Maradona, em qualquer entrevista mais longa, jamais esquece Rivelino, para ele, “um mágico”.

Rivelino foi um ilusionista de temperamento siciliano. O velho Nicola, seu pai e procurador, continha sua fúria recitando os velhos manuais antecessores, nos quais obedecer ao líder, ao padrinho, é lei incondicional.

Quando o Santos de Pelé e constelação engolia adversários sem precisar de sobremesa, lá estava Rivelino, quixotesco a enfrentá-lo com talento, perdendo de pé. Liderou o fim do tabu de 11 anos apanhando do Rei em 1968, maduro pelo sofrimento.

Rivelino guardava uma ferida aberta no peito. Pagou sozinho em 1974 pela derrota de 11. O Corinthians perdeu de 1×0 diante de 120 mil pessoas no Morumbi, 100 mil pelo menos, torcedores fiéis. Rivelino não teve culpa. O gol de Ronaldo começa a ser desenhado numa falta de Luís Pereira em Rivelino, não marcada pelo árbitro.

Naquele domingo, ele voltou a pé para casa, em prantos. Toda a história iniciada nos aspirantes foi jogada no lixo pelo folclórico presidente Vicente Matheus. Rivelino agora é um busto em vida, homenagem que vale. É tesouro do futebol brasileiro. Rivelino derramou lágrimas indenizatórias. Lavaram quatro décadas de ingratidão.

Frasqueira feliz

É bonito a Frasqueira cheia de graça. O ABC largou a covardia e volta classificado na Copa do Brasil.

João Paulo

O atacante João Paulo garantiu à fonte segura que, em 20 dias, estará curado da contusão que o afetou na Ásia. Em forma, não há dúvidas de que ele tem vaga no ABC. O objetivo de João Paulo é se projetar no futebol brasileiro após cinco anos cuidando das finanças no exterior e garantindo futuro sossegado.

Fluminense

O América passou para a terceira etapa da Copa do Brasil depois de 14 anos. Após a Copa do Mundo, enfrentará o Fluminense num tempo em que ninguém é grande demais no futebol brasileiro.

Tradição

O tricolor é tradição e garantia de bom público. Se vier com Fred – dependendo do desempenho da seleção – será casa cheia e cofre abarrotado.

Jéferson

Jogando ao lado de Cascata, mas em inteiras condições físicas, o meia Jéferson fez um bom Campeonato Carioca pelo Boavista e poderá ser o homem capaz de substituir Arthur Maia. É menos aceso, mais pensador.

Fuleco e Peba

Ao chegar na garagem do prédio, o porteiro Beto, espirituoso e americano, filósofo nos intervalos, meteu o pé na dividida: “Na Copa da Inglaterra, o símbolo era um leão, na da África, um leopardo. Na do Brasil, Fuleco é um peba. Combinando tudo.”

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