Chuteiras cegas

Resolvi conferir para evitar uma tontura. Terminei nauseado ao confirmar pesquisando em velhos guias de campeonatos brasileiros. Ele é mesmo…

Resolvi conferir para evitar uma tontura. Terminei nauseado ao confirmar pesquisando em velhos guias de campeonatos brasileiros. Ele é mesmo ele.

O Alan Kardec, razão da guerra do Palmeiras, de onde está saindo, para o São Paulo, abrindo-lhe portas com status de craque é aquele Alan Kardec visto por mim cerca de sete anos passados num domingo à tarde. Maio de 2007.

Gastaram uma grana alta para reformar o Machadão. Serviu pra nada. Nem estádio existe mais. O América estreava pela Série A contra o Vasco (RJ). Dois times nivelados e um jogo de doer, ao qual compareci por obrigação profissional de passageiro de função pública.

Tribuna de honra cheia de políticos sorrindo e eu emburrado. O Vasco era uma piada com onze pernas de pau e o América não havia formado um bom time em seu segundo acesso nos últimos 18 anos. Tanto verdade que desceu.

O brilhante Souza em monólogo com a bola. Lembro do atacante desajeitado, sem habilidade, incapaz de um drible, de uma arrancada com a camisa 11 usada por Romário, ainda resistindo aos 41 anos.

Romário não veio a Natal, poupado para o jogo seguinte, quando fez o milésimo gol contra o Sport, contando partidas profissionais, amadoras, peladas de rua, chutes em pneus no quintal e coletivos em todos os clubes por onde passou. O Baixinho não precisava daquela estatística armada por Eurico Miranda, o Pitágoras vezes zero.

O jogo seguia morno, sem graça, os políticos iam saindo de fininho, aproveitando a concentração raivosa do público no duelo terrível. Vaias ecoavam pelas arquibancadas tomadas por 20 mil pessoas.

No início do segundo tempo, Alan Kardec foi o escolhido para a crucificação dos torcedores vascaínos de Natal e de outras cidades nordestinas. Tocava na bola, começava o berreiro: “burro, caneludo, retardado” e um manual de palavrões sórdidos e mesclados de geração a geração.

As mulheres, algumas lindíssimas, recitavam os piores impropérios, diante de maridos claramente manicacas, abobalhados, dominados, escravos descendo ao bar para buscar cerveja e deixando as dadivosas aos nossos gulosos olhares.

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Cheguei a sentir pena de Alan Kardec, humilhado em terra estranha, tropeçando, caindo sozinho, subindo e cabeceando rajadas de vento. O (vade retro) retranqueiro técnico Celso Roth, um dos que mais capricharam para a decadência do Vasco, finalmente resolveu poupar o pobre farrapo humano e o substituiu por um baixinho argentino bem habilidoso: Darío Conca.

O Vasco venceu por 1×0, gol de um quase gêmeo de Alan Kardec, chamado André Dias, lutou para cair em 2007 até conseguir em 2008 com Roberto Dinamite.

Alan Kardec, muito ruim de bola, boiou na caravana de náufragos que, dentre tantos, afogou Valdir Papel, Valdiram, Martín Garcia, Abedi, Fábio Braz e vamos parando que a enxaqueca vai começando a mostrar seus primeiros sinais.

O Palmeiras está em pé de guerra porque Alan Kardec decidiu botar banca e vestir a camisa tricolor, onde é tratado como um verdadeiro Messias. O noticiário é tenso e intenso.

Vou procurar um psicanalista para saber se o anormal sou eu mesmo. Alan Kardec seria 869o reserva de qualquer time de futebol (de botão) fosse do Vasco, do Palmeiras ou do São Paulo.

Quando orgulhava seus apaixonados, o Vasco brilhava com atacantes sensacionais: Ademir Queixada, Vavá Peito de Aço, Almir, Silva Batuta, Dé, Tostão, Roberto Dinamite, Ramon, Jorge Mendonça, Mauricinho, Luizão, Evair, Donizetti, Edmundo e o melhor de todos no universo inteiro contado o tempo eterno: Romário.

O Palmeiras teve Mazzola, Vavá, Servílio, Tupãzinho, César Maluco, Leivinha, Edu Bala, Jorge Mendonça, Eneas, Jorginho, Edmar, Edu Manga, Evair , Edilson, Edmundo, Muller, Rivaldo, Paulo Nunes, Viola.

O São Paulo esbanjou Frienderich, Leônidas da Silva e suas bicicletas, Gino Orlando, Prado, Luizinho, Maurinho, Pedro Rocha, Mirandinha, Canhoteiro, Muller, Careca, Raí, França, Luis Fabiano e, tenho que admitir corroendo gengivas, Serginho Chulapa.

Vou gastar uma grana, mas preciso de orientação médica. Não é possível que meu caminhão de argumentos tenha entrado na faixa contrária da carreta do óbvio.

Compare com cada um atacante verdadeiro lembrado e Alan Kardec não terá valido um centímetro de página, um segundo de comentário de rádio, um frame de imagem de tv, um post de blog. Talvez na próxima encarnação, ele volte jogador de futebol. Hoje, é rei (imposto) em terra de chuteiras cegas.

Sem ressaca

O América deve ter moderado nas comemorações pelo título estadual, ganho com justiça, menos pela partida chata contra o Globo, mais pela absoluta superioridade sobre os outros. O América tem de estar prontinho porque o ABC será parada complicada esta tarde, quando O Jornal de Hoje estiver ganhando as ruas de Natal.

Xuxa

O ABC areja seu meio-campo com o armador Xuxa. É algum talento (espera-se) no exército de marcadores. O técnico Zé Teodoro foi feliz na frase sobre não perder nem jogar com medo. Ainda que insista em Daniel Amora, que nada tem jogado no alvinegro. No América, ele fez algumas partidas interessantes.

No Brasileirão

Houve, tempos pretéritos, uma regra prática na disputa de ABC com o América. Quem ganhava o Estadual, geralmente disputado antes, perdia no Campeonato Brasileiro. Em 1976, o ABC levantou a taça, impediu o tricampeonato rubro e levou 3×1 no dia 7 de setembro, gols de Pedrada, Garcia e Ronaldinho, Xisté descontando.

Troco

O América ficou com o campeonato de 1977, o da famosa briga generalizada na decisão, pugilato com destaque para o zagueirão Pedro Pradera, faixa-preta de karatê. No Brasileiro, o ABC amenizou a dor da perda do bi, ganhando de 3×0, gols de Danilo Menezes, Santa Cruz e Noé Macunaíma.

Empates

Em 1978, dois empates por 1×1, o primeiro com Marinho Apolônio para o América e Baltasar para o ABC e no outro, Ronaldinho para os vermelhos e Jorge Costa para os alvinegros. Em 1979, o América venceu o Estadual e perdeu no Brasileiro por 1×0, gol de Dentinho, centroavante trombador.

Mãe Dinah

Em previsão agasalhada pela penugem do preconceito, a Revista Placar aponta ABC e América como rebaixados para a Série C junto ao cearense Icasa. Vamos guardar a revista, que não surpreende. Em 1990, fez edição jurando que Neto, do Corinthians, era melhor que Diego Maradona.

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