Cientistas estudam criar carros voadores que evitam trânsito diário

Helicópteros pessoais devem ter controles simples para que possam ser pilotados por motoristas comuns, aponta projeto dirigido por centros de pesquisa europeus

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Sabe o que seria legal?

Se tivéssemos nossos próprios mini-helicópteros que fossem quase tão fáceis de pilotar quanto os automóveis são de dirigir, e que pudéssemos decolar dos quintais, pairar sobre o tráfego e observar as massas na terra, se arrastando lentamente.

Isso seria legal.

Ao que parece, a União Europeia está fazendo planos justamente para isso. Seis institutos de pesquisa europeus estão estudando a viabilidade de pequenos helicópteros de transporte, ajudados por uma verba de US$ 4,7 milhões do governo europeu no projeto “MyCopter”.

O projeto inicial está quase completo, e a segunda fase está sendo levada em consideração. Cientistas e engenheiros do Instituto Max Planck para Cibernética Biológica em Tübingen, Alemanha, e na faculdade de engenharia da Universidade de Liverpool, estão entre os líderes da pesquisa.

Simulador busca facilitar voo

Em um laboratório de pé direito alto no Centro para Dinâmicas da Engenharia da universidade no centro de Liverpool, eu recentemente coloquei o cinto de segurança para um teste de voo num simulador com formato esférico. A universidade tem grande experiência em simulação de voo, incluindo um projeto que pretende desenvolver ônibus voadores que não precisam de pista de decolagem.

No caso do MyCopter, os pesquisadores estão tentando descobrir como tornar fácil para indivíduos comuns pilotarem um helicóptero pessoal. Eles começaram a colaborar com antigos pilotos de teste militar e passaram a testar sistemas de voo com pessoas sem experiência.

Gente como eu, na verdade. Enquanto me sentava, uma tela de vídeo grande foi aberta até preencher toda a minha visão periférica. O céu estava azul. Havia um manete entre minhas pernas que controlava a velocidade e viradas, e uma alavanca à esquerda para controlar a altitude; são controles semelhantes aos de um helicóptero normal, embora uma série de outros tipos esteja sendo estudada.

Não sei voar e nem sequer sou um motorista muito entusiasmado, mas decolei com facilidade do que parece um campo cercado por seis casas no interior inglês. Depois, segui uma rodovia aérea virtual que se estendia diante de mim voando por uma série de quadrados roxos espalhados pela paisagem simulada.

Para quem não é piloto, o maior desafio era não confundir o manete com a alavanca de altitude. Foi bem fácil.

Após minutos voando ao longo da rodovia aérea, pude ver o Rio Mersey à minha esquerda, o centro de Liverpool à direita e suas famosas docas adiante.

“Onde fica a casa do John Lennon?”, perguntei ao Dr. Mark D. White, gerente do laboratório de simulação de voo, que estava sentado ao meu lado. Ele apontou para a direita, ao longe. “Perto daquele campo verde ali”, ele explicou. “Fica naquela rua”.

Falando sobre o barulho do motor do helicóptero, White acrescentou que poderíamos fazer um tour completo dos Beatles. Pareceu uma boa ideia até que me afastei da rodovia enquanto esticava o pescoço numa tentativa de ver a rua Penny Lane.

Estudos refletem sobre estrutura necessária 

O MyCopter foi proposto em resposta a um relatório de 2007 da União Europeia chamado “Fora do padrão: Ideias sobre o futuro do transporte aéreo”, que pediu sugestões de pesquisadores para mudanças radicais no sistema de transporte europeu, incluindo propostas para um “veículo aéreo pessoal”.

“Você perde muitas horas sentado em congestionamentos e existe tanto espaço acima de nós”, afirmou White. “Seria possível utilizar essa dimensão para se livrar do uso da rua que temos agora? Seria possível viajar de casa para seu local de trabalho no centro da cidade sem ficar preso em congestionamentos?”.

O MyCopter não se resume a projetar este veículo, mas em descobrir como ele pode funcionar. Parte do desafio seria criar uma forma para as massas de carros aéreos voarem abaixo dos aviões, não baterem uns nos outros nem exigir milhares de novos controladores de tráfego aéreo ou infraestrutura física.

O projeto foi criado pelo Dr. Heinrich H. Bülthoff, diretor de percepção, cognição e ação do Instituto Max Planck.

“Existe um sonho muito antigo de carros voadores, e tivemos muitas propostas e tentativas ao longo dos anos, mas ainda existem problemas a solucionar antes de se construir esse carro voador e ir ao trabalho”, declara Bülthoff.

Trabalho une centros de pesquisa

Agora, as seis instituições estão dividindo as tarefas de pesquisa. Além da Universidade de Liverpool, pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, em Zurique, estão trabalhando em formas de automatizar a operação dos helicópteros, o que inclui realizar testes com drones.

O Instituto Max Planck estuda como utilizar a tecnologia de informação para ajudar o piloto dos novos automóveis. Entre as soluções, estão volantes vibratórios e avisos quando se  afasta do caminho traçado. Os cientistas também procuram uma maneira de exibir as vias aéreas que grupos de pessoas a caminho do trabalho poderiam seguir.

Na Escola Politécnica Federal de Lausanne, pesquisadores estudam como evitar colisões. Entre outras coisas, estão examinando como os pássaros são capazes de voar em grandes grupos.

No Instituto para Avaliação de Tecnologia e Análise de Sistemas em Karlsruhe, na Alemanha, os cientistas pesquisam o que os europeus poderiam pensar sobre carros voadores, para ver o que poderia ser aceito.

Sondagens em Zurique, por exemplo, constataram que as “pessoas gostaram da ideia de ir trabalhar e evitar os congestionamentos pela manhã e à noite, mas não queriam esses carros voadores o dia inteiro”, afirmou Bülthoff. “Queriam ser capazes de sentar em suas varandas e desfrutar a vista, sem um enxame de carros atrapalhando a paisagem”.

Por fim, no Centro Aeroespacial Alemão, em Braunschweig, os pesquisadores irão se reunir e experimentar as tecnologias desenvolvidas nas outras instituições em um helicóptero de teste de verdade.

Indo direto ao ponto: quando os carros vão voar?

A próxima fase do MyCopter, que termina oficialmente neste ano, seria colaborar com empresas privadas em projetos potenciais, mas o financiamento ainda não foi aprovado.

Algumas firmas pequenas estão desenvolvendo carros voadores, como a Pal-V, da Holanda, que pretende lançar no mercado um veículo pequeno que vira helicóptero em 2016, com preço ao redor de US$ 300 mil.

Mike Stekelenburg, diretor de operações da Pal-V, afirma que o maior problema a longo prazo da venda em massa desses veículos não será a pilotagem, mas questões ambientais.

“Pilotos automáticos já existem há bastante tempo. O maior desafio é se afastar dos combustíveis fósseis. É preciso ter algo renovável, que não aumente as emissões de dióxido de carbono”.

Bülthoff acredita que helicópteros pequenos e leves poderiam ser competitivos porque evitariam o tráfego e permitiriam viajar de forma mais direta, embora grupos de ambientalistas ainda precisem ser convencidos.

O meu teste de voo foi ótimo. Mas, perto do fim, confundi minha mão no manete com a mão na alavanca de altitude e pareceu que eu ficaria em velocidade abaixo da necessária para voar. Alarmes começaram a soar e White teve de intervir e assumir o controle por alguns instantes. De repente, voltei a me sentir com 16 anos.

Da próxima vez vou usar a versão com piloto automático.

 

 

Fonte: iG

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