Clássico dos clássicos – Rubens Lemos

Nasci e cresci esperando Brasil contra a Alemanha em Copa do Mundo. Era o clássico dos nossos clássicos de coleção…

Nasci e cresci esperando Brasil contra a Alemanha em Copa do Mundo. Era o clássico dos nossos clássicos de coleção de figurinhas e jogos de futebol de botão. A figura assustadora, meio Frankestein, do goleiro Maier, mostrava a crianças em iniciação de amor ao esporte, que havia homens feitos de cimento sem desenho lógico. Eles tinham Maier e para ele, o nosso Rivelino.

Pouco antes de nosso tempo, eles falavam em Beckenbauer. A imponência sonorizada das duas sílabas e o grave do acento agudo final demoliam esperanças em germânicos. Pelé. Pe-Lé, a exclamação da superioridade.

Nunca nos encontramos na Copa quando eles tinham Overath no meio-campo e respondíamos com Gerson. Se eles falavam em Gerd Muller, primeiro e mais famoso do sobrenome onipresente, dizíamos Jairzinho, gritávamos por Tostão. De 1978 a 2002, o suspense a cada quatro anos. Do habituê de boteco ao milionário de navio, todos pregavam: a final será Brasil x Alemanha.

O combate que não houve por mau humor do destino tomado de enxaqueca, o de 1982, poria de um lado, em trama nua e crua, o beletrismo de Zico, Falcão, Sócrates e Júnior diante da força de Rumennigge, Fischer, Briegel e Allofs.

Até se enfrentaram em amistoso pouco antes da Copa do Mundo, Brasil 1×0, gol de Júnior em passe de partido alto de Adílio, meio-campista do Flamengo, melhor em campo em sua primeira e única partida e esquecido pelo brilhantismo teimoso do técnico Telê Santana.

O novo século jogou uma potência contra a outra. Deu Brasil sem riscos maiores além de uma bola na trave do goleiro Marcos. Em 2002, nossas virtudes atendiam por Rivaldo e Ronaldo. A força panzer estava no goleiro Kahn que poderia pegar muitas, mas errou na guerra. Em guerra, falhar é morrer.

Daqui a pouco, no Mineirão, imprevisível resultado. A Alemanha faz uma ótima Copa do Mundo, transpirando. O Brasil não terá sua torneira inspiradora. Neymar fará falta sim. Horrível ver alguns pulhas que o bajulavam minimizado seu talento e sua ausência.

O Brasil entra invertebrado. O rito das Copas ensina que prognósticos e tendências esfarinham na hora do pega. A frieza recomenda prudência. Recomende você, ao alucinado patriota depois da décima cerveja preparatório. Eu não arrisco. Palpite hoje é para intruso e irresponsável.

Assis com Washington

Assis era um canhoto competente. Sem vaga no primeiro time dos gênios brasileiros, tornou-se incontestável no Fluminense, seu canto de amor e aconchego. Assis foi um exemplo raro de veterano feito menino ao recomeçar nos caminhos inversos da bola. Um homem gentil. Um tricolor de origem pobre e tão nobre quanto a aristocracia característica das Laranjeiras.

Na elegância magérrima, se distinguia na sutileza com a bola e por ser amuleto de vitórias improváveis. Assis, um homem vezes dois. Ele e o centroavante Washington formaram o Casal 20, alusão a uma série policial da Rede Globo, primeira metade dos anos 1980.

Não há um torcedor de branco, verde e grená na pele e paixão, que não guarde no peito, gols devastadores de Assis em duelos mortais contra o Flamengo. Em 1983, lançamento longo e perfeito de Delei, o cerebral, encontra Assis em falsa dormência na ponta-direita do Ex-Maracanã.

O Flamengo jogava pelo empate e deixou a jogada seguir em câmera lenta. Assis, trotando e não correndo, grudou a bola com o ímã da chuteira, avançou e bateu rasteiro, por baixo do goleiro Raul. O relógio marcava 44 minutos do segundo tempo, gritava o narrador Waldyr Amaral, da Rádio Globo. Fluminense 1×0, tocaia do Pernalonga, tranquila cópia delgada do coelho arisco de desenho animado. Em 1984, cabeçada hipnótica no goleiro argentino Fillol.

O maior time da história do Fluminense é a máquina bicampeã carioca em 1975 e 1976 com Rivelino, Pintinho, Paulo César Caju, Carlos Alberto Torres, Gil, Doval e Dirceu. O time de Assis, montado em 1983, chegou mais longe sem fazer barulho nem brigar por comemorações. Assis vencia sem competições de vaidade.

Era um esquadrão sem o deslumbre técnico do anterior. Jogava duro e marcava firme. Suas inspirações estavam em Delei e no paraguaio Romerito e na parceria instintiva de Assis e Washington – os dois num só. O time de 1983 foi tricampeão carioca até 1985 e derrubou o Vasco, vencendo o Brasileiro de 1984. Repôs a injustiça contra a Máquina, barrada nas semifinais de 1975 e 76.

Num sábado recente, quatro amigos se reuniram para tomar cerveja e falar de futebol. Três vascaínos e um fanático pelo Fluminense. Surge Assis no vídeo, comovente, discreto e tímido, durante o documentário Fla x Flu, 40 minutos Antes do Nada, baseado na louca genialidade de Nelson Rodrigues. É obra-prima do cinema nacional.

Assis é o eterno “carrasco” do Flamengo pelas vitórias decisivas de 1983 e 1984. Combinava com um cavaleiro do cavalheirismo. Zico é o personagem rubro-negro e nada mais elementar e justo. Assis emociona. Declara seu amor ao clube, mareja ao beijar a medalhinha tricolor e canta, sem graça, humildade excessiva: “Recordar é viver, Assis acabou com você”, arrematando na fidalguia dos seus irmãos de glória: “Com todo respeito”.

Respeito, Assis. Quanto respeito ao saber que você morre e parte, célere e inesperado, cortando caminhos invisíveis, deixando a vida e o sorriso carinhoso dos simples. Dois meses depois do adeus de Washington, é memória o Casal 20. Assis, homem leal e de princípios, nunca deixaria o amigo ir embora sozinho. Saudações, Assis. De todas as torcidas.De qualquer torcedor que tenha sensilidade e coração.

PS. Triste por Di Stéfano também. Até esqueço a perseguição que ele comandou a Didi, nosso etíope de rancho, no Real Madrid.

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