Clássico e popular

Publiquei esta semana, em rede social, uma fotografia do ABC antes de um clássico contra o América em julho de…

Publiquei esta semana, em rede social, uma fotografia do ABC antes de um clássico contra o América em julho de 1976. O time fazendo pose para o saudoso e pimpão Deodato Dantas, lendário colecionador de imagens históricas dos tempos de casa cheia. Deodato Dantas é um doce fantasma vestindo cinza a sobrevoar o vazio de um gigante arrancado à força. Deodato, sua máquina com rebatedor e o sorriso travesso.

Pagaram ingresso naquela tarde de domingo, 50.486 pessoas e o América venceu o segundo turno ao derrotar o ABC (que seria campeão estadual) por 2×1. O público é o maior registrado oficialmente nos 40 anos de vida do falecido Castelão, nome da época, depois sucedido pela grafia lendária do jornalista João Machado.

Rasgando mais o abismo das diferenças de ontem para agora, basta dizer que a sexta parte da população da cidade estava espremida pelas arquibancadas, gerais, cadeiras numeradas, especiais e tribuna de honra do estádio em curva arquitetônica, capricho do magnífico Moacir Gomes da Costa.

No dia do retrato amarelado que conservo em meus baús materiais e emocionais, Natal suspirava, não exalava a agonia atual de uma arritmia urbana permanente. Modernizada para dentro, sem escoamentos, leva os seus viventes a uma agonia crônica e congestionada.

É fora de moda falar em 1976, ano em que Danilo Menezes e Reinaldo, pelo ABC, e Alberi e Hélcio Jacaré, pelo América, arrastaram multidões que trafegavam em liberdade desde os preparativos etílicos na orla marítima, da Praia dos Artistas à do Forte, até as passeatas embandeiradas que lembravam cruzadas medievais no contraste do branco e do preto com o rubro vibrante.

Bandeiras enormes tremulando de dentro de cada Corcel, Brasília, Opala, Fusca ou Maverick, possantes em pneus de talas largas. Desfiles de meninos e meninas uniformizados, mascotes hipnotizados pela atmosfera própria dos embates imprevisíveis.

O ar blazé e o sossego preguiçoso de Natal permitiam uma rotina diária impensável na afetação desvairada de nova-rica e na impessoalidade de 2014. O comércio fechava, o tráfego parava e ao meio-dia as resenhas esportivas ecoavam pelas casas de arquitetura simples, narradores, comentaristas, repórteres temperando o nervosismo antes de a bola rolar de pé para pé inspirado sobrando nos dois times.

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O ABC x América do passado tão presente em meus rabiscos, é um nostalgia inadiável agora. É uma delícia o saudosismo, meninada, é uma viagem de volta a você na plenitude dos sonhos molhados de conquistas e fracassos. Amanhã, os dois clubes pisam o campo da Arena das Dunas, a majestosa nave da Copa do Mundo. As camisas sustentam a mística.

É um jogo válido pelo segundo turno do Campeonato Estadual. Um campeonato em que três mil pessoas assistindo a qualquer partida é motivo de carnaval em samba e frevo nas locuções da praça.

No desprezado pretérito, o que passou em cores reais e em reprises escuras e esquecidas na TV Universitária, ABC e América também disputavam Campeonato Estadual e lotavam um palco maior do que o luxuoso e decantado deste domingo.

Nos anos cabeleira, lustrados pelos sapatos cavalo de aço e as bocas de sino cobrindo canelas suportadas por horrorosos tamancos, o Estadual fervilhava pela rivalidade sem ódio e a perspectiva de participação direta na Série A do Campeonato Brasileiro.

ABC ou América, quem fosse o campeão, ou ambos a partir do indigitado 1976, enfrentavam Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, São Paulo, Santos, Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Atlético (MG), Grêmio e o grande Internacional de Falcão.

Em flash back, lembro de ter visto, da janela da retina, sem a barreira do aparelho de TV, ao vivo e maravilhado, Zico, Adílio, Cláudio Adão, Roberto Dinamite, Zanata, Ramón, Rivelino, Paulo Cézar Caju, Mendonça, Josimar da Copa de 1986.

Recordo Palhinha, o primeiro e melhor dos dois, Reinaldo, Paulo Isidoro, Oscar, Amaral, Carlos, Dicá, Pita, Careca, Zenon, Carpegiani. Perdi Falcão e Sócrates. O Magro só pisou por aqui, no dito e insistente 1976, jogando pelo Botafogo de Ribeirão Preto contra o América.

O aprendiz de cronista vive do verbo ver e sonhar, em todas as suas formas e conjugações. É complicado esperar o sobrenatural raiando das chuteiras formais e normais. O primeiro ABC x América, que marcou a inauguração da Arena das Dunas, valeu pelos cinco gols dos 3×2 pintados de vermelho. A emoção é peça decisiva num clássico.

A paixão é majestade futebolística que não sobrevive sem o componente máximo de sua natureza cultural: o arrepio cósmico da explosão popular. Do milionário e do plebeu, do bonito e do feio, do sorridente ao banguela. Do fanático ao ateu. Sentimentos e delírios perdidos nos entulhos do cimento democrático e devastado.

Favorito

A boa fase do América e a esperança criada pelo ABC nos últimos jogos. É a motivação do clássico. O favorito de sempre quando os dois se encontram: o imprevisível.

Segurança

O escrete da polícia está armado com 600 homens. É contingente prudencial para a contenção dos marginais que vão insistir, mesmo apanhando como mulher de malandro, em aterrorizar cidadãos, os torcedores legítimos.

Estilos

O técnico do América, Oliveira Canindé, prega e pratica o jogo ofensivo. Zé Teodoro, do ABC, avisou ao time que com ele só joga quem não tiver medo. Cada um com seu estilo. A bola decide a quem se entregar para ser tratada com respeito.

Vasco x Flamengo

Amanhã, o Vasco, traumatizado pela fama de vice-mor, começa a luta para vencer o Flamengo numa decisão de Campeonato Carioca. Na última vez, em 1988, aprovaram os cinco anos de mandato do presidente Sarney, Amapá e Roraima deixaram de ser territórios e eu tinha 17 anos.

Há 40 anos

O América arrancava empate com o Vitória em Salvador por 1×1 pelo Campeonato Brasileiro. Jogo na Fonte Nova com 9.645 pagantes e gols de André Catimba para o Vitória e Garcia para o América.

Times

O América: Ubirajara; Ivã Silva, Scala, Mário Braga e Cosme; Paúra, Edinho (Mozart) e Garcia; Almir (Davi), Washington e Bagadão. Vitória: Joel Mendes; Roberto, Dutra, Válter e França; Luciano (Roberto Menezes), Didi Duarte e Davi; Osni, André Catimba e Mário Sérgio. O lateral França jogaria pelo ABC em 1978 e Didi Duarte seria campeão jogando por América e Alecrim e como técnico do ABC.

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