Clássico ‘O Mestre e Margarida’, de Mikhail Bulgákov, merece uma releitura neste fim de ano sombrio

Feito um alucinado, Mateus corre pelas ruas de Yerushalaim no encalço da multidão que segue três criminosos prestes a serem…

Feito um alucinado, Mateus corre pelas ruas de Yerushalaim no encalço da multidão que segue três criminosos prestes a serem crucificados. Desesperado, analisa a possibilidade de esfaquear Yeshua ha-Notzri, seu mestre. A obsessão assassina do discípulo é impulsionada pelo desejo de estancar o sofrimento do filho de Nazaré. De repente, ele invade um mercado com a ideia de roubar uma faca. Sua fé rejeita a situação.  “Deus, por que te zangaste com ele? Envia-lhe a morte”. Seu plano é matar Yeshua e depois cometer suicídio. Mas é tarde demais. O espetáculo sangrento já está armado.

No cadafalso, o carasco  Mata-Ratos coordena o cerimonial. Yeshua está desfalecido e pregado no pedaço de pau, com o rosto coberto de moscas e varejeiras. Após a quarta hora de torturas, Mateus suspeita da inevitabilidade de que o destino do mestre esteja nas mãos dos homens e revigora o protesto: “Deus, eu te amaldiçoo! [...] deus dos bandidos, protetor e alma deles”.

Ao proferir a última palavra, o ar sombrio domina a paisagem. Nuvens, trovões e ventania agitam a multidão. Mata-Ratos, então, decide adiantar o processo. Ordena que um soldado encharque um pano com água e ofereça a Yeshua. O pobre condenado sorri. Sôfrego, suga o líquido no trapo. A máscara negra de insetos se afasta e revela hematomas na face. A cabeça de Yeshua fraqueja. O soldado alisa o abdômen do crucificado com a lança, antes de cravá-la sem piedade.

A releitura da cena bíblica descrita nos três parágrafos anteriores faz parte do livro “O Mestre a Margarida”, de Mikhail Bulgákov. Em ritmo frenético, o autor ucraniano compôs uma fábula sobre repressão durante o stalinismo, que abarca temas como religião, liberdade, hipocrisia e vaidade humana. O livro é considerado um dos clássicos da literatura contemporânea. Utilizando o ateísmo imposto por lei aos soviéticos; a perseguição à classe artística ‘desalinhada’; e o culto à aparência na elite moscovita; Bulgákov criou uma história densa, capaz de sacudir crentes e beatos – a obra inspirou o clássico dos Rolling Stones, “Sympathy for the Devil” e o livro “Os Versos Satânicos”, de Salman Rushdie.

Em pleno debate entre um poeta e um editor, o diabo surge em Moscou na pele de Woland, historiador e especialista em magia negra. Com um olho verde e outro preto, mantém a calma em qualquer situação, ainda que seus interlocutores se amedrontem com o tom inquietante de sua voz. Na comitiva, destaque para Behemoth, um gato preto que anda e fala feito gente, e toma vodka; Hella, jovem que vive nua, linda de morrer e de olhos fosforescentes; e Azazello, ataracado, violento e feio como o cão. Os principais personagens confrontados com o demônio e cia são artistas.

A alternância narrativa entre as ações do grupo nefasto pelas ruas de Moscou, envolvida em alegorias e comicidade, e o romance escrito por um mestre ambientado na morte de Cristo, digno do realismo soviético, fez com que Bulgákov exprimisse criticas despercebidas pela censura. “O Mestre e Margarida” foi publicado vinte anos após a morte do autor.

Como uma espécie de subtítulo oficioso, ele dizia que “A covardia é a pior fraqueza do ser humano”. Em tempos de acusações de pedofilia a padres católicos e enfraquecimento da fé e dos valores morais, a reflexão sobre bondade que o livro promove reverbera por dias, após sua leitura.
Há muitas formas de ler “O mestre e Margarida”. É uma comédia que mistura o talento do Bulgákov como dramaturgo, em uma história supostamente maluca, com cenários detalhistas (o prédio da rua Sadôvaia, a sede dos literatos de Moscou, subsolo onde o mestre habita), música incidental, como nas passagens de óperas e versões de “Aleluia” que surgem em momentos caóticos da trama, e diálogos inquietantes, que grudam em nossa mente durante dias.
Vários personagens entraram para o folclore russo, como o diabo

Woland, na figura de um historiador e especialista em magia negra, nobre senhor com um olho verde e outro negro, que nunca levanta a voz mas deixa uma impressão pavorosa em todos que convivem com ele.

Woland é escoltado por Behemoth, gato preto que anda sobre duas patas e adora vodca; Korôviev, o maquiavélico negociador do grupo; Azazello, homem atarracado de ombros fortes e feiúra incrível; e Hella, “uma jovem totalmente nua, ruiva e com ardentes olhos fosforescentes”.

Como preâmbulo deste 2014 de Copa do Mundo e eleições presidenciais, ler “O Mestre e Margarida” é como tomar uma dose de antídoto para a quantidade de veneno que será despejada em nossa direção.

O Mestre e Margarida
Autor: Mikhail Bulgákov
Editora: Alfaguara
R$59,90

 

UFC com a Rainha do Forró
É o promete a Pepper’s Hall na noite deste sábado. A casa recebe Eliane, a banda Pegada Estilizada e as picapes do DJ Gunner, antes, durante e depois da porrada comer solta entre Anderson Silva e Chris Weidman. Ao vivo nos telões, o UFC 168 tem tudo para seri histórico. Os ingressos para a noitada sui genernis serão vendidos na hora, ao preço de R$25,00 para homens e R$30,00 para mulheres (é isso mesmo, mulher, em dia de luta, paga mais caro, segundo o release oficial). Informações: (84) 3236-2886.

UFC 168
Quanto à luta do ano, pouca gente duvida que o brasileiro sairá com o cinturão de volta na cintura. Por dois motivos: O Spider é infinitamente melhor que o americano, e não brincará tanto dessa vez, e um terceiro confronto seria benéfico para todo mundo, em termos financeiros. Se tem uma palavra que a turma de Obama gosta é revenge (vingança). Então uma ‘negra’, para ver quem é melhor dois dois, seria recorde de pay-per-view e patrocínios para a franquia gerenciada por Dana White, o homem que não dá ponto sem nó quando se trata de ganhar dinheiro.

A real Brazilian Singer
A vitória do cearense Sam Alves no The Voice Brazil continua gerando críticas de gente importante e da horda tuiteira. Agora é Arthur Xexéo e Zélia Duncam que soltam o verbo para destacar a insatisfação generalizada com o resultado. Qualquer ser humano com olhos e ouvidos em estado razoável viu que ele era o mais fraco dos quatro finalistas, mas a Globo entregou o prêmio para o amigo de Tiago Leifert. Parecia que, finalmente, teríamos um programa bacana de cantores talentosos, em começo de carreira, na televisão brasileira, acontece isso. Ainda prefiro Raul Gil e seu escracho popularesco.

Compartilhar: