Com John dos Passos
Não tenho certeza. Acho que a primeira notícia chegou ai pelo meio dos anos setenta. Ouvi de d. Jacira Barbalho, amiga da minha sogra e leitora de José Lins do Rego. Algumas tardes, ela gostava de conversar na varanda da Afonso Pena, 755. Falava de John dos Passos com se tivesse conhecido o escritor americano que esteve em Natal em 1962 e no ano seguinte publicou nos Estados Unidos o ‘Brazil on the Move’. Um ano depois, saiu aqui pela Record, com o título de ‘O Brasil Desperta’.
Naqueles anos setenta consegui um exemplar na livraria Brandão, de Recife, que tenho até hoje, e só depois, por curiosidade do detalhe, desejei a edição americana, da Sidgwick and Jackson.
O exemplar, grifado nas linhas mais fortes das observações de Passos, ficou aqui esses anos todos, sem destaque e sem glória. Há poucos dias, nosso Rodrigo Levino riscou a tela, lá de São Paulo, com a notícia de que saiu uma nova edição pela editora Benvirá. É comemorativa dos 50 anos do livro.
Na verdade, a Folha de S. Paulo antecipou-se na edição do dia 12 passado e deu uma capa com matéria de Fabio Victor: ‘Nos passos de John’. Com a nova tradução de Magda Lopes, o livro mudou de título: de ‘O Brasil Desperta’ para ‘O Brasil em Movimento’. Passos fez três viagens ao Brasil, 1948 e 1958, numa distância de dez anos, e a terceira em 1962, quando veio trazendo a mulher e a filha, já consagrado com sua trilogia de romances – Paralelo 42, 1919 e O Grande Capital.
O nariz de cera, Senhor redator, faz sentido. John chega a Natal a 14 setembro de 1962, de carro, vindo direto de Recife. Aqui é recebido pelo governador Aluizio Alves e assessorado por José Augusto Othon, hoje advogado, então jovem assessor de gabinete do governo, no Palácio Potengi. Se desejasse, seria a melhor fonte para falar sobre John dos Passos, principalmente do seu encontro casual com o poeta Newton Navarro no velho restaurante da Rampa, hoje tombada e abandonada.
Passos toma café em Recife e viaja num jeep até Natal. Passa por Olinda, registra sua beleza antiga, as ‘delicadas arcadas dos seus velhos conventos’, e descreve a vegetação da estrada até João Pessoa, aonde chega depois de duas horas. Viu a lagoa, comparou a um círculo do qual partem raios que são ruas; um mar azul escuro, as suas jangadas e os ventos. Passa por Sapé, e anota um grito de ‘Viva Castro’, pintado nos muros, sinal das Ligas Camponesas, sonho ousado de Francisco Julião.
John dos Passos, é bom perceber, não condena o sonho socialista de Julião. Registra que os donos de terra – ‘os que não gostam de Julião’ – pediram proteção ao Exército contra camponeses. Mas, observa: ‘É possível, mas parece muito fabricado’. E logo indaga: ‘E, apesar de tudo, o que é que nos faríamos no lugar dos camponeses?’. Ele mesmo responde: ‘Os donos de terra no Nordeste não são nada fáceis também. Muitos preferem morrer a dar uma oportunidade aos seus rendeiros’.
O escritor entra no Rio Grande do Norte e compara a paisagem do agreste às verdes colinas da Normandia, embora arenosas e áridas. Eram três da tarde quando o jeep estacionou. No hotel, só queijo seco e sem pão, e logo chega ‘um cavalheiro’ para levá-los à Casa de Hóspedes do governo. John Passos já chega com informações sobre o governador Aluizio Alves, um jovem político de 39 anos, nascido em Angicos, pequena cidade da zona do algodão de fibra longa, ele mesmo informa.
Depois de resumir a trajetória política de Aluizio, sua atuação na UDN de Carlos Lacerda e na Tribuna da Imprensa, faz uma observação de quem tinha olhos muito atentos: ‘… tive a impressão que de que – embora talvez por motivos políticos, o governo Alves trate os americanos com alguma frieza – os soldados americanos não deixaram recordações muito desagradáveis em Natal’. Instalado num ‘quarto principesco’, espeta nossa velha contradição: ‘No Brasil há sempre banquete ou fome’.
John dos Passos foi um repórter que viu e percebeu tudo. No encontro com o governador, na mesma tarde da chegada, viu a bandeira verde hasteada no alto do Palácio da Esperança, um jovem governador ágil e inquieto, de palavras claras e decididas. E recebe logo um convite e uma sugestão: assistir ao comício que seria realizado logo depois, e conhecer Dom Eugênio Sales, bispo auxiliar.
Passos descreve D. Eugênio: ‘semblante moreno, nervoso e aquilino, com um leve toque de Savanarola’. E continua o retrato: ‘O corpo magro, tem a vigorosa aparência atlética sob a batina preta. Está sentado numa cadeira pequena e dura no seu escritório simples, falando com as pernas cruzadas de uma maneira não muito eclesiástica’. O bispo faz questão de informar a Passos que seu programa de combate ao comunismo é apenas um entre dezenas e que seu objetivo é despertar nos cidadãos o sentido da dignidade humana na defesa de um movimento trabalhista, mas cristão. Ora, e bem contrário, pelo que desejou esclarecer, das Ligas Camponesas e socialistas de Francisco Julião.
Um dos instantes mais vivos da narrativa de John dos Passos vai acontecer na varanda do restaurante da Rampa, diante de um mar enluarado. Ele registra que o homem do bar é um poeta local que já estava ali há muito tempo. ‘Desce para o terraço a fim de cumprimentar-nos. Pára em torno da mesa. Falando, gesticulando, argumentando, parece não ser uma, mas três ou quatro pessoas juntas. A impressão que me dá é de uma multidão. Revela um espantoso conhecimento da literatura norte-americana. Gosta de Sherwood Anderson: Poor White, Winesburg, Ohio …’. E acrescenta logo no parágrafo seguinte: ‘Pobre Sherwood, que já morreu há tantos anos. Ele teria adorado aquela cena’. Volta ao luar, ao garçom perplexo e a José Augusto – ‘um rapaz polido, explicando como se estivesse pedindo desculpas que o cavalheiro é verdadeiramente um grande poeta. Como Sherwood Anderson teria apreciado tudo e o poeta ébrio a elogiá-lo’.
A viagem de John dos Passos não termina ai, sob o luar de um Potengi mergulhado numa enseada entre montanhas que ele viu como misteriosas. Viaja ao interior, olha o sertão bem de perto depois de conhecer as praias, e mergulha no Oeste, de São Miguel pra dentro. Ouviu discursos em comícios, danças populares pela noite adentro, crianças e velhos. Até cair, exausto, na cama de um hotel de Mossoró. Sentindo um vento brando entrar pelas persianas do quarto para conciliar o sono.
A nova edição da viagem de John dos Passos devolve aos olhos dos leitores contemporâneos um mundo esquecido há meio século com uma Natal ainda calma e boa.
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