Combustão sonora de Fela Kuti foi disponibilizada de graça na Net

São quase 50 álbuns do inventor do afrobeat a meros dois cliques

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Se Bob Marley pregava a paz como arma contra a opressão, Fela Kuti cantava todo mundo pra porrada. O multi-instrumentista, ativista político e criador de um dos gêneros musicais mais ricos e apreciados, o afrobeat (uma mistura de jazz, funk, psicodelia e ritmos africanos), hipnotizou a massa em sua Nigéria natal nos anos 1970 e foi o principal inimigo das ferozes ditaduras que assolaram o caudaloso país com mais de 150 milhões de habitantes, meio cristão, meio islâmico, berço de uma cultura milenar, cuja influência chegou até o Brasil – caso dos iorubas, a segunda maior das 389 etnias nigerianas. Para destacar sua importância para a musica, uma turma ligada a Fela lançou um projeto grandioso, com seus quase 50 discos postados de forma gratuita na net, com a opção de comprar os downloads por preços acessíveis (U$9,00, em média). Tudo está no endereço www. felakuti.bandcamp.com.

Fela Kuti morreu de AIDS em 1997. Em seu funeral, mais de um milhão de pessoas foi se despedir do homem que virou símbolo de um continente miserável, após décadas de exploração europeia. Episódios impressionantes são registrados em sua biografia, como a invasão que sua República Kalatuka sofreu em 1977. O lugar fora montado como uma comuna hippie independente do governo, nos arredores de Lagos, para Fela, banda e seus familiares. Ali tudo era permitido. A maconha, uma de suas paixões, corria solta. E a poligamia, talvez a maior delas, ao lado da música e da política, também. Após lançar o disco “Zombie”, em que criticava o governo de forma direta, cerca de mil soldados invadiram a fazenda e baixaram a lenha, estupraram mulheres e o pior: jogaram sua mãe (uma senhora com mais de setenta anos) de uma janela do segundo andar. Os ferimentos com a queda seriam responsáveis por sua morte, semanas depois.

A resposta de Fela foi brutal. Mandou o caixão com o corpo da mãe para o palácio presidencial, organizou uma cerimônia em que casou de uma só vez com 27 mulheres e lançou outro disco virulento. Só não foi morto por que era uma sumidade internacional. O povo delirou, mas o regime não, e um exílio forçado em Gana o tirou de circulação por um tempo. Fela Anikulapo Ransome Kuti (1938-1997) gravava em inglês e em dialeto ioruba para ser compreendido por estrangeiros e nativos. Natural de Ogun, um dos 36 estados nigerianos, a mãe do ídolo, uma feminista atuante na época de libertação colonial, foi a primeira mulher nigeriana a dirigir um automóvel. Enquanto o pai era pastor protestante (Tinha como ser normal?). Nos anos 1970, foi para os Estados Unidos e descobriu o movimento Black Power. Suas músicas enormes, verdadeiras jams alucinógenas, com letras focadas em críticas sociais, e de uma riqueza sonora que até hoje ecoa no stereo de muita gente boa.

Em 1980 ele criou o partido Movement of the People e tentou ser candidato a presidente, mas foi vetado pela justiça manipulada do país. Sua música era uma combustão criativa ligada a sua postura política. Em um país rico em matéria-prima, com uma economia que atualmente cresce numa média 8%, 9% por ano, porém devastado pela corrupção, a pobreza endêmica o deixava maluco. Para a população, que aumenta em média 2% ao ano (bem acima do resto do mundo), o Estado é inexistente. Mais da metade dos habitantes tem menos de 18 anos e estão desempregados, em lugares inóspitos sem água, luz e educação (isso em 2014). Em contrapartida, os chefes moram em mansões nababescas, andam de limusine e viajam à Europa e Estados Unidos nas férias. Fela Kuti não aceitava isso de braços cruzados. E a música era sua arma. Ninguém dos 60s e 70s, nem a Geração Flower Power, nem os punks, tiveram tanta força quanto ele. O amigo leitor tem material de sobra para passar o final de semana bem acompanhado. Começar pelo álbum “Zombie” (1976) pode ser uma boa.

 

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