Comissão da Verdade quer identificar empresas que apoiaram golpe de 1964

Investigação quer descobrir o papel de grupos econômicos na condução do golpe

Comissão Nacional da Verdade quer achar cúmplices. Foto: José Cruz/ABr
Comissão Nacional da Verdade quer achar cúmplices. Foto: José Cruz/ABr

O apoio logístico e financeiro de empresários à ditadura que começou a governar o Brasil no dia 1º de abril de 1964 se transformou em objeto de estudo da Comissão Nacional da Verdade e de acadêmicos empenhados em identificar os cúmplices dos militares 50 anos depois do golpe de Estado. Um grupo de acadêmicos de diferentes universidades, centros de estudos e organizações sociais lançou nesta semana no Rio de Janeiro o grupo de pesquisas “Mais Verdade” a fim de investigar “o papel de grupos econômicos na preparação e condução do golpe”.

Além de tentar identificar os empresários e empresas que apoiaram o golpe, os pesquisadores convocados pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) também se propõem investigar “a variação do patrimônio destes grupos nos últimos 50 anos e suas relações históricas com o Estado brasileiro”.

O assunto também se transformou desde janeiro deste ano em alvo da Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 pela presidente Dilma Rousseff para identificar os responsáveis pelas violações de direitos humanos durante a ditadura. “No final de março queremos divulgar um primeiro comunicado sobre isso. As empresas apoiaram o golpe, mas também apoiaram o processo repressivo com dinheiro, armas, carros, gasolina”, assegurou recentemente a advogada criminalista Rosa Maria Cardoso, uma das integrantes da Comissão.

A advogada explicou que o grupo que coordena está tentando identificar empresários ou empresas que possam ser responsabilizadas. “Essa busca não é de agora. Já há muitas investigações sobre o apoio civil ao golpe. O que diferencia as análises de agora é a busca específica de empresários que apoiaram não só o golpe, mas também a repressão”, disse à Efe a historiadora Martina Spohr, pesquisadora do Núcleo de Documentação da Fundação Getulio Vargas. “Já se sabia da participação de políticos e personalidades, mas a intenção agora é identificar a responsabilidade de empresários no financiamento. Há uma nova perspectiva de estudos na qual se fala do golpe empresarial-militar”, acrescentou a historiadora, autora de publicações acadêmicas sobre o assunto.

Spohr lembrou que os primeiros estudos que mostraram o dedo dos empresários no golpe datam do anos 80 quando o pesquisador uruguaio René Armand Dreifuss identificou as entidades empresariais que financiaram uma campanha contra o presidente João Goulart, derrubado por suas supostas inclinações comunistas. “Os novos enfoques pretendem aprofundar algumas vias de pesquisa de Dreifuss, como a participação de empresários de outros países no golpe, e a contribuição financeira de empresas a operações de repressão no Brasil”, completou a historiadora.

Os arquivos empresariais aos quais Dreifuss teve acesso lhe permitiram descobrir que entidades como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), integrados por empresas, foram planejados pelo general Golbery do Couto e Silva, um dos conspiradores, para buscar apoio ao golpe entre empresas. “As duas receberam dinheiro de empresas estrangeiras por intermédio do então embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Lincoln Gordon”, afirmou Ivan Seixas, também integrante da Comissão da Verdade.

O IDAB financiava as campanhas de políticos opositores de Goulart enquanto o IPES financiava campanhas nos meios de comunicação contra o governo. A Comissão da Verdade também quer identificar empresários que entregaram aos militares listas de empregados que consideravam de esquerda ou líderes sindicais, que deviam ser vigiados.

Rosa Maria Cardoso considera que os empresários ainda podem ser responsabilizados por suas ações de apoio à ditadura. “A legislação sobre isso foi aperfeiçoada. Documentos da ONU dizem que as empresas podem ser responsabilizadas se foram cúmplices de ditaduras. Pelo menos as que apoiaram o processo repressivo têm uma responsabilidade criminal”, explicou. “Estamos tentando identificar empresários que podem ser responsabilizados. Se não conseguirmos os nomes, podemos responsabilizar as empresas”, acrescentou.

Já Martina Spohr considera difícil que esses empresários possam ser responsabilizados por falta de provas. “Além disso, a Comissão da Verdade não tem poder punitivo. Limitada pela Lei de Anistia, a comissão só pode realizar um relatório e recomendar que o Ministério Público abra uma investigação”, concluiu a historiadora.

 

Fonte: EFE / R7

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