Como a máfia de ‘Família Soprano’ revolucionou as séries de TV

Livro narra evolução das produções a partir da vanguardista produção, passando por 'Breaking Bad' e 'Mad Men'

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Trajando seu usual roupão de banho, Tony Soprano entra na piscina de sua casa para alimentar os patos selvagens que ali se instalaram. O temido e poderoso chefão da máfia parece ter desenvolvido certa ternura pelos animais, e é quando os vê voando para longe que tem sua primeira crise de pânico. A cena resume o tipo de personagem, vivido por James Gandolfini na clássica série Família Soprano, que tornou-se marca registrada para as mais aclamadas produções desde então.

A verdade é que Tony Soprano foi o primeiro de uma série de protagonistas marcantes que se tornaram sucesso de público e crítica justamente pelo fato de serem pouco convencionais: são homens perturbados, de moral dúbia, que desafiam leituras superficiais e convocam o espectador a se engajar emocionalmente com a trama – sempre ambígua.

Representam o “homem oprimido”, define o jornalista Brett Martin em Homens Difíceis, que cita ainda Walter White/Heisenberg, de Breaking Bad, e Don Draper, de Mad Men. Segundo Martin, as três séries ganharam a dimensão que têm hoje por promoverem uma revolução na própria estrutura das narrativas, o que ecoa no fortalecimento da figura do showrunner-autor. Ele é a mente criativa com a visão do todo, e acumula as funções ainda de produtor executivo e roteirista. No caso das séries citadas, trata-se de David Chase, Vince Gilligan e Matthew Weiner, respectivamente.

Ao Estado, Martin falou por telefone sobre a evolução que esses homens propuseram e que é o centro de sua obra. O livro marca o início da Escola de Séries, parceria entre a ESPM Rio, o grupo The Alchemists, a Esmeralda Produções e o Sebrae Rio.

 

O que é ser um “homem difícil” na televisão?

Há um duplo sentido nesse título, porque a primeira geração de dramas de sucesso de que falo traziam protagonistas que podem ser definidos como complicados e às vezes até maléficos. Então são homens difíceis nesse sentido. Por outro lado, os showrunners são homens tentando passar uma visão muito específica do que tinham em mente, e aprendi que, para ter uma ideia, ver ela se desenvolver e protegê-la, você precisa ter uma certa atitude em relação a ela. De certa forma, é difícil lidar com eles, porque não podem ser sempre bonzinhos, ou arricam perder o rumo de onde querem chegar. Claramente há um comportamento típico entre eles, mas, por outro lado, há exemplos que provam que é um mito que é preciso ser um “babaca” para passar sua visão artística. Vince Gilligan é a prova viva disso. Breaking Bad tem a marca genial dele e ele é uma das pessoas mais simpáticas que já conheci.

Como nasceu seu interesse por esses homens e por que você decidiu contar suas histórias?

Antes de tudo, comecei como alguém que assistia às séries, antes mesmo de me tornar um jornalista nessa área. E em algum momento, dentro das conversas que eu e muita gente tinha normalmente sobre cinema, teatro e literatura, começaram a aparecer os seriados, o que cada um estava vendo. A televisão estava na cabeça das pessoas. Na mesma época, fui chamado pela HBO para escrever sobre a estreia de Família Soprano nos Estados Unidos, e tive o privilégio de passar algum tempo no set. Foi incrível ver tantas pessoas com talentos artísticos reunidos com autonomia para fazer aquele tipo de trabalho na televisão. Tudo isso conduzido por um homem, o showrunner, que no caso, era, mas que, num campo mais amplo, se tornaria um novo tipo de artista.

As séries que você elegeu têm protagonistas emocional e psicologicamente profundos. Por que o “homem oprimido” faz sucesso?

Apenas vi as séries como todo mundo (risos). Certamente esa abordagem é o que tornou esses personagens o sucesso que foram, o alto nível de inteligência com que foram criados e abordados o tempo todo. Há muita verdade nas emoções que eles sentem, e todos vivemos num mundo em que as questões psicológicas que eles têm são comuns. Não tenho nenhum treinamento para fazer análises psicológicas, e vi todos os programas como um espectador normal, no máximo duas vezes. Mas tive a chance de entrevistar longamente cada um dos showrunners, e suas personalidades acabaram transparecendo ao longo de nossas conversas.

Você compara Scorsese e Coppola dos anos 1970 aos showrunners. É certamente uma afirmação polêmica. Como a sustenta?

Concordo que ainda há quem acredite que as séries de TV sejam inferiores aos filmes. Não são, ao menos não todos. No livro conto que, quando David Chase criou Família Soprano, apesar de ter conquistado algo tão grandioso, ainda nutria ele mesmo preconceitos contra a televisão. Há outro caso, de quando perguntaram a Allan Ball, criador de Six Feet Under, que tipos de filme ele deveria estar fazendo, e ele disse que acreditava que as melhores histórias voltadas para adultos nos últimos vinte anos não estavam nos filmes. É claro que o cinema é uma grande arte e há filmes excelentes sendo feitos, mas há muitos títulos feitos para crianças ou para o grande público, tentando atingir o maior número de pessoas possível. Essas séries de TV, por sua vez, é para onde você vai quando quer histórias mais intrincadas. Qualquer um que ainda tenha preconceito contra os grandes seriados simplesmente não tem prestado a devida atenção a eles.

Já há alguns anos é corriqueira a comparação entre as séries e o cinema. Ela é válida?

Essa comparação não é mais tão necessária como foi um dia. É uma pergunta boba em muitos sentidos. Não se trata de definir se uma série de TV é melhor que um filme, isso não é importante. Os bons dramas não precisam mais provar que são bons e se comparar com os filmes, isso já está provado. A televisão já demonstrou que é capaz de atingir grandes níveis artísticos se tiver espaço e liberdade para isso.

Isso tem a ver com o meio de transmissão? Até alguns anos atrás, os seriados “desapareciam” após serem exibidos na TV. Só recentemente, com os DVDs e a internet é que é possível retornar a uma produção de anos atrás…

Certamente. Chegamos a um nível tecnológico que permite rever episódios, voltar a alguma cena, guardar em casa da mesma forma como guarda um filme. Foi uma evolução importante: do DVR ao DVD e, agora, as mídias digitais. Elas foram um componente poderoso na mudança de percepção do público e na revolução dos seriados.

Você identifica três grandes revoluções na história das séries: nos anos 1950, nos 1980 e nos 2000. Os serviços sob demanda e de streaming podem impulsionar ainda outra mudança radical na estrutura das produções?

Do ponto de vista criativo, estamos começando um capítulo em que a definição do canal de televisão está sendo expandida e precisa passar a incluir streaming, Netflix e etc. Mas, analisando friamente, o Netflix decidiu fazer House of Cards pelo mesmo motivo que a HBO fez Família Soprano anos atrás. Num mundo em que há tantas opções para o público, a única chance de sobrevivência é dar poder artístico e criar conteúdos inovadores.

Mas a forma como o público consome certamente mudou, assim como seu jeito de se relacionar com a trama e os personagens. Isso não interfere no modo de pensar um novo projeto?

Certamente os roteiristas têm de ter liberdade para criar universos complexos e bem pensados para o espectador que irá assistir de novo, voltar a uma cena em busca de detalhes, com atenção. É quase uma prova para o espectador.

De todos os “homens difícies” que você teve a chance de se aproximar para o livro, qual o fascinou mais?

Cada um é “difícil” de sua própria maneira, todos são fascinantes. E é essa a jornada que quis demonstrar no livro, parte da lição que quis passar, que personalidades tão radicalmente diferentes artisticamente encontraram espaço na televisão. Eles eram totalmente diferente, Matt Wilner e Vince Gilligan. Não consigo responder a essa pergunta diretamente porque todos me fascinaram de um modo diferente.

 

Fonte: Estadão

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