Como a elite escuta tanta porcaria vulgar, feito cão vira-lata ?

O problema é quando o mesmo lixo é consumido pelos filhos da elite. Ah, camarada, aí o negócio complica

Conrado Carlos
Editor de Cultura

Você já deve ter percebido a quantidade de bandas de forró e suingueira que usam expressões, como ‘rico’, ‘playboy’, ‘classe A’, ‘carrão’, ‘ostentação’, ‘você é liso, eu estou podendo’, e por aí vai. Algumas, inclusive, encaixaram os termos em seus nomes de guerra. São as campeãs de audiência, as líderes na parada de sucesso das rádios comerciais. “É o que povo gosta!”, dizem os mascates da estética alheia, contrários ao capítulo um do manual básico da comunicação.

Nos últimos dez anos, a coisa piorou. Como a massa teve contato com bens materiais outrora restritos aos substratos mais elevados da pirâmide social, esse tipo de brincadeira ficou mais fácil de ser digerida, com alto poder de sedução. O lascado quer relógio vistoso, dar um trato no cabelo (encontramos salões de beleza nos locais mais degradados possíveis), tomar Old Parr e dirigir um Camaro Amarelo. Mesmo que o bairro onde mora seja detonado.

Só que ele olha em volta e não encontra meios para isso. O que ele faz? Se endivida, sofre ou vai roubar, como fez Isaac Heleno, o Rivotril lá de Mãe Luiza. Mas até aí, tudo bem, é problema deles, dos lascados. Eles que fiquem lá na periferia com as noias e as invejas de sub-raça, não é mesmo? O problema é quando o mesmo lixo é consumido pelos filhos da elite. Ah, camarada, aí o negócio complica. A juventude dourada tem os mesmos desvios da rafaméia.

E talvez isso explique um pouco a violência endêmica, a falta de respeito às leis e a picaretagem intrínseca que nos avisam o tempo inteiro de que nunca na história deste país a coisa esteve tão brutal. Como pode um menino que estuda numa boa escola, tem acesso a todos os meios de comunicação modernos e frequenta ambientes onde a prosperidade e a organização são visíveis, escutar tanta porcaria vulgar, feito um cão vira-lata?

Várias dessas músicas disparam sorrisos coletivos, pois todos percebem que se trata de uma milacria. Mas o que importa é a zona, o clima farrista em que só os velhos e conservadores encontram defeito. Outro dia eu atravessava a rua em um sinal, quando vi uma menina bonita parada com seu HD20, da Hyundai. A janela estava aberta e a condenada cantava bem alto: “Ah, eu já não sei o que fazer, duro, pé rapado, com salário atrasado”.

Era Lepo Lepo, do Psirico, tema presente em dez de dez listas das mais executadas no Brasil Profundo. Ela cantava com gosto, quase revirando os olhos. A batida estafante, repetitiva. A melodia, pobre, sustentando uma letra boba, feito diálogo de novela das sete. E eu ali com vontade de rir, cheio de soberba intelectueba para cima da felicidade dos outros. Mais um pouco e ela perguntaria qual era a minha. E soltaria: “Vai a pé que eu vou de carro!”.

trhrthwerwer

Paraíso artificial
Pessoal que faz a editoria de polícia tem assunto de sobra nessa época do ano em que escasseiam releases dos órgãos públicos (para desespero de muita gente). Agora foi a movimentada Búzios, bem aqui pertinho, que registrou um ato de violência sintomático da anarquia que impera no país. Um sujeito, provavelmente inconformado com o fim da relação, atirou seis vezes contra a ex-mulher e seu novo namorado, em plena praia, às 15h30. Enquanto isso, nos alpendres, o Old Parr e os quitutes correm soltos.

Carnaval alternativo
As comemorações de 10 anos do Centro Cultural Dosol começarão no dia 21 de fevereiro, às 22h, com uma grande festa a fantasia com a presença do DuSouto, Rastafeeling, duas das bandas com maior público em Natal, e discotecagem de música brasileira. Serão apenas 300 ingressos disponíveis para venda no Café da Praça, Natal Shopping, por R$20,00. Se você não aguenta mais ouvir marchinhas ou pop baiano, vale correr para garantir a entrada.

Alice
O mundo encantado de Alice no País das Maravilhas tomará conta do Natal Shopping a partir desta segunda (13). Baseado nos grandes parques temáticos do mundo fantasioso de Alice, o cenário será montado na Praça de Eventos. Acompanhadas pelo frenético Coelho Branco, além de interagir com os personagens e espelhos mágicos, a garotada poderá participar da confecção de bombons de chocolate, de oficinas de pintura, brincar nas xícaras giratórias e no labirinto, além de jogar boliche de cartas e Gatebol (espécie de jogo com mini taco), com a Rainha de Copas. A programação acontece durante todo o dia (até 13 de fevereiro), das 10h às 22h, e a entrada é gratuita.

Livro
Outro lançamento da Companhia das Letras que animou amantes da literatura foi “Lionel asbo – Estado da Inglaterra”, de Martin Amis. Sátira sobre a sociedade inglesa, é a história de um valentão que adora espancar desafetos e pessoas comuns, por puro prazer. A vida na pequena criminalidade é uma verdadeira vocação. Desde a infância, ele acumula episódios de arruaça e passagens por diversas prisões inglesas. Não à toa, decidiu mudar seu registro de batismo, adotando como sobrenome a sigla Asbo (em inglês, Condição de Comportamento Antissocial). E o pior: ele acaba de ganhar 140 milhões de libras esterlinas na loteria.

Humildade
Anderson Silva dizer que Chris Weidman não o venceu é, no mínimo, desrespeito com o americano. Ele diz que foi uma fatalidade e que tem plena certeza que iria vencer o luta do último dia 28. O primeiro round mostrou o contrário, com Weidman dominando todas as ações (deu knockdown no pé da orelha, botou para baixo e soltou a marretada durante cinco minutos). A defesa do chute que culminou com a fratura na fíbula do brasileiro foi treinada à exaustão – lógico que sem a intenção de destruir osso algum. Agora é se recolher na humildade, pois ainda assim o Spider é o maior de todos os tempos.

Blog
A proposta politicamente correta de Bono Vox para um mundo melhor continua dando certo. Ontem à noite, o U2 venceu o Globo de Ouro de Melhor Canção, por “Ordinary Love”, do filme “Mandela”. Segundo Rodrigo Constantino, em seu livro obrigatório, “Esquerda Caviar”, a pergunta é: quem faz mais por quem, o irlandês que culpa os ricos do Ocidente pela miséria africana ou o discurso pró-África que o deixou milionário, doador de parcos U$180 mil para instituições de caridade, em 2008, sócio do Facebook e da revista Forbes? No blog www.conradocarlos.jornaldehoje.com.br tem o clipe da música mediana.

 

Compartilhar: