Como se fossem esculturas…
São verdadeiros e merecidos esses elogios que embora tisnados de um velho bem-querer que vem de longe, de uma admiração dos tempos da sala de aula. Paulo Araujo, do menino da vila antiga do Totoró, sertões velhíssimos do Seridó, ao redator que está aqui, depois de vencer no exigente mercado profissional de São Paulo. Passou por todas as fogueiras com a luz do seu talento e sem se deixar queimar nas chamas da vaidade provinciana.
Este foi o arremedo de prefácio que alinhavei para seu livro, orgulhoso de ter sido o escolhido.
Em meados dos anos noventa, faltando pouco para acabar o Século XX, um inesperado sucesso editorial nos Estados Unidos, com dois milhões de exemplares vendidos, atraiu a atenção de várias editoras do mundo, inclusive no Brasil: a versão politicamente correta dos contos de fadas narrados por James Finn Garner. Dois pequenos volumes com pouco mais de cem páginas cada um, num estilo que surpreendeu leitores mais velhos com se as fábulas infantis também envelhecessem.
Assim, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Rapunzel e Cinderela ou as histórias de bichos – A Cigarra e a Formiga, A Tartaruga e a Lebre e o Gato de Botas – de repente saltaram do mundo encantado dos olhos infantis e com narrativas livres de preconceitos e discriminações caíram nos olhos dos mais velhos. A ousadia de Garner foi manter o enredo dos contos, mas reescrevê-los sem as maldades que, embora algumas vezes desumanas, davam às histórias um sentido mágico.
Nas novas narrativas a cesta que Chapeuzinho Vermelho leva à vovozinha não tem doces, só frutas frescas e água mineral. A feiticeira de Rapunzel faz o bem. E Cinderela não teme voltar a ser borralheira quando, à meia noite, tocam as badaladas. Ao contrário: fica no salão sem precisar mais encenar sua velha farsa. Até suspira, aliviada, livre do incômodo de roupas e sapatos apertados. E a festa fica mais animada com todos dançando até o dia amanhecer, como se felizes para sempre.
A experiência que desenvolvi como professor da cadeira Estilos Jornalísticos, do curso de Comunicação, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, embora também inspirada nos contos infantis, foi mais simples. Pedi que cada aluno escolhesse um conto e recontasse sua história. Os personagens teriam que ser mantidos, mas o enredo nasceria da criatividade de cada um. A idéia foi estimular a construção de novos enredos com a liberdade de imaginar narrativas e desfechos.
Ali não nasceu apenas uma nova história do Lobo Mau, esta que agora, tantos anos depois, fecha o elenco de textos deste livro de estreia. Foi a revelação precoce de um jornalista além do diploma de bacharel: Paulo Araújo. Pouco depois, ainda muito jovem, ele já integrava a equipe de redatores e editores da revista Escola, de São Paulo, assinando grandes reportagens e entrevistas nas páginas de uma publicação da Editora Abril de circulação nacional para leitores especializados.
O talento, na nova história de Chapeuzinho Vermelho, nasce da ousadia de abandonar os papéis rígidos do bem e do mal e tecer um novo enredo a partir da heroicização da solidão humana, mas sem impor a vitória da bondade. Ao leitor, cabe escolher. E escolher livre do velho e clássico maniqueísmo dos contos de fadas. Não como exercício de fabulação, mas da escolha de um bem e de um mal que embora contracenem livres da glória, só são gloriosos de sua própria humanidade.
Talvez nem precisasse desnudar o Lobo Mau de Paulo Araújo. Talvez fosse melhor deixá-lo enroscado no seu pelo, entre o real e o irreal, só com os olhos do lado de fora. Como um lobo de verdade. Ou, talvez não. O jornalismo levou anos construindo uma pirâmide invertida para ser sua forma técnica de narrativa. E outros tantos a desmontar sua rigidez, até ser reconhecido como um novo gênero. Uma invenção de Truman Capote, Tom Wolf, Gay Talese e Norman Mailler, para citar os principais, nos Estados Unidos dos anos sessenta. A técnica e o talento estavam juntos.
Foi o novo jornalismo que fez do jornalista um escritor moderno. Como nas reportagens, entrevistas e ensaios que Paulo Araújo reúne neste livro – Como se Fossem Letras… Bom tecelão, ele cumpre a trindade de Montaigne – O estilo deve ter três virtudes: clareza, clareza, clareza. Mas num corte enxuto que não negue ao leitor a emoção com o requinte de não reverberar e ferir a harmonia da informação precisa, nem tampouco empobrecê-la da dor e do prazer de ser humana.
A entrevista e o ensaio são as mais belas e complexas construções da narrativa jornalística. A pergunta é o cinzel que recorta a forma bruta e ergue, a cada toque, diante do leitor, a realidade como exercício de compreensão. O ensaio é a escultura erguida pelo próprio autor. Como se diante do bloco de mármore ou de argila, recortando ou modelando, o redator fosse eliminando o excesso para libertar a forma pura. Até que a escultura-texto, livre e perfeita, flutue nos olhos do leitor.
Duas entrevistas se erguem aqui como esculturas entre linhas que parecem feitas de letras e, no entanto, são cortadas no mármore da alma humana: com Ingrid Betancourt e Ariano Suassuna. Não nascem de simples conversas ou daquele jogo disfarçado que tenta esconder o gato e o rato, um fugindo do outro como numa disputa velada. São belos exemplos do modelo dialógico que defende Edgar Morin quando pensa na entrevista como uma possibilidade real de interpenetração dos dois universos: quem pergunta e quem responde. Mas ambas na direção das mesmas descobertas, sem nada sonegar ou esconder à curiosidade do leitor, pulsando em timbres, ritmos e dicções.
Paulo Araújo reúne aqui verdadeiras esculturas nascidas do seu olhar, bem cuidadas no esmero de fazê-las com a tinta da emoção e do bom humor. Reportagens, perfis, entrevistas, ensaios e crônicas nascidas do talento de quem sabe olhar as pessoas e as coisas. Retirando tudo quanto possa ferir a nitidez no seu olhar perfeito de repórter que se envolve numa teia de exercício e paixão. Do sertão velho e monumental, plantado entre lajedos, ao continente africano, onde dormem as raízes ancestrais de homens que, de tão eternos nos seus hábitos e sonhos, até parecem deuses.
Redinha, verão luminoso de 2013.
Vicente Serejo
AMANHÃ
Quinta, boca da noite, Paulinho Araujo reúne os seus muitos amigos nos jardins do Solar Bela Vista, na ladeira da Junqueira Aires, para lançar seu livro ‘Como se fossem letras’. Edição Novos Escribas.
IMAGENS
Dias 14 e 15 próximos, abertura do fórum estadual de turismo, nos salões do Centro de Convenções, serão expostas 150 fotografias turísticas de Canindé Soares. Com trilha sonora de autores potiguares.
VIOLÊNCIA
Natal bate recorde de violência com 235 homicídios sem considerar os assaltos e arrombamentos que fazem esta cidade não ter sossego. Ainda há quem ache que tudo não passa de exagero da imprensa.
GUARDIÃ – I
Justa a escolha da deputada Gesane Marinho para homenagear a mulher: Maurizélia Brito, a guardiã do Atol das Rocas, hoje considerada uma das mais preservadas reservas naturais de litoral brasileiro.
ALIÁS – II
Os rochedos de São Pedro e São Paulo são temas de estudos do professor Raimundo Arraes nos cursos de mestrado e doutorado do Departamento de História da UFRN. Será transformada em livro.
PERGUNTA – I
Da série perguntar não ofende, como sugere, via e-mail, um leitor: quais as providências da UFRN para corrigir as acumulações de empregos de 664 professores e técnicos com a dedicação exclusiva?
MEMÓRIA – II
O leitor lembra que a UFRN bateu o recorde no quadro publicado pela Folha de S. Paulo na edição de 17 de outubro do ano 2012. No texto, o jornal afirma que representa ‘um dos casos mais graves’.
MODELO – III
A autonomia universitária não se faz no sentido de encobrir erros. Exige transparência exemplar para a comunidade que a mantém. Ainda mais em dúvidas apontadas pelo Tribunal de Contas da União.
RECORDES – IV
No quadro publicado com o título de ‘Instituições com problemas’, a UFRN tem o maior número de casos, seguida das universidades federais de Goiás e Amazonas. O que já se revela pelas companhias.
CAUSA – V
A rigor, a UFRN, para alguns observadores atuantes na vida acadêmica, paga o preço de responder ao mesmo mando há vinte anos, o que atrofia seu ritmo de renovação e contribui para o aparelhamento.


