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“Como se Fossem Letras”

Data: 04 março 2013 - Hora: 17:00 - Por: Dani Pacheco

O encontro foi combinado numa padaria da cidade, era final de uma manhã ensolarada, o trânsito enlouquecedor e o desejo de ser pontual para aquela entrevista estava deixando os nervos à flor da pele. Quando ao entrar naquele recinto rico de gulodices e cheio de gente, percebe-se lá no fundo aquele tão conhecido sorriso calmo e tranquilizador. Tranquilizador? Nem tanto. Como entrevistar uma pessoa que seu oficio é o mesmo – entrevistar e escrever.

Ao caminhar em sua direção surge a lembrança que o livro é sobre reportagens, entrevistas, perfis, ensaios e crônicas. Escolhidas para brindar 10 anos de colaborações do jornalista potiguar em revistas, jornais e sites. Daquele jornalismo que não permite medo de se entregar por completo, que vai aonde tem que ir, sem contar, o fato dele sempre conseguir estabelecer o tão sonhado tempo necessário para poder produzir e lapidar a melhor maneira de contar suas histórias. Envolta entre os pensamentos, de repente, se ouve: “Oi, fiquei tão feliz quando você me ligou hoje cedo”…

Num despertar ele continua, “sabe é isso que gosto. Esses encontros, o bate-papo, escrever…”. E, o motivo daquela entrevista era exatamente isso, o lançamento do livro “Como se fossem palavras” (Ed. Jovens Escribas) de autoria de Paulo Araújo que acontecerá nesta quinta-feira, dia 7, a partir das 19h, no Solar Bela Vista (Avenida Junqueira Aires, na Ribeira).

“Escolhi os textos que escrevi durante esses anos que mais gosto. São duas entrevistas, uma com o mestre Ariano Suassuna e outra com Ingrid Betancourt. Cinco reportagens, entre elas “O Imortal Cordel” no qual amei adentrar por essa imensidão, aliás, que não o vejo apenas como arte, mas também, como importante veículo de comunicação”, outra é “No País de Mossoró: A Locomotiva do Oeste”, onde me deparei com a riqueza daquele lugar que impressiona pela sua  dimessão, entre outras.

Naquele momento já estava claro que não havia necessidade de nervosismos. Paulo Araújo (o jornalista) já estava com a entrevista toda planejada na sua mente e não parava de falar, “no livro separei um capítulo só para os perfis, onde selecionei textos com personagens internacionais, como Grace Kelly, com o texto “A Atriz que Inventou a Princesa”, como “20 anos esta noite”, onde destaco o talento e criatividade de Juraci Lira. Ainda selecionei duas crônicas “De Gingas e Tapiocas” e “Somos Festeiros por Natureza”.

Em 2008, Paulo Araújo fez parte da equipe de jornalistas brasileiros que criou o primeiro jornal de economia e finanças de Luanda. A experiência acabou resultando num longo panorama sobre a cultura africana, publicado em 2009 na revista da Livraria Cultura. No livro, além dessa reportagem, comparece um bem humorado “Dicionário Angolano” para entender o país africano que mais se parece com o Brasil e os causos de confusão linguística entre brasileiros, angolanos e portugueses – mesmo falando o mesmo idioma.

Da África ao Seridó. O livro dividido em cinco capítulos traz um panorama, com explicações didáticas e exemplos práticos, das várias maneiras de fazer jornalismo sem a preocupação com o factual. Como disse outro jornalista e colunista deste vespertino Vicente Serejo que assina o prefácio da obra, “Paulo Araújo reúne aqui verdadeiras esculturas nascidas do seu olhar, bem cuidadas no esmero de fazê-las com a tinta da emoção e do bom humor”.

Outro destaque da obra “Como fossem palavras” é o texto escrito na época em que era aluno do curso de Estilos Jornalístico, do professor Vicente Serejo, que é uma adaptação da história de Chapeuzinho Vermelho para o Rio Potengi.

“Bem, acho que é isso”, suspira o jornalista Paulo Araújo. Penso agora sim, começaremos a entrevista. Ao começar os questionamentos, entre suspiros e olhares que faziam levar o entrevistado ao estado proposto inicialmente. “Como se fossem palavras… ouvi essa frase pela primeira vez ao visitar uma caverna no interior do Rio Grande do Norte onde tinha ido ver algumas pinturas rupestres. Quando um menino da região que se fazia guia, olhou para mim e disse: “isso aqui. Esses desenhos… É… Como se fossem palavras”.

“É isso que gosto. Não vou lutar mais contra isso. O que me dá tesão é ouvir gente e escrever para contar diferentes histórias que encontro pelo mundo. Aquelas que no corre-corre de todos os dias as pessoas esquecem de contar. Emociono-me com os personagens que me deparo. E, quero que outras pessoas possam desfrutar do mesmo. Ou simplesmente, saber que temos muitas coisas lindas e heróis anônimos”, conta Paulinho, como é chamado carinhosamente por muitos comunicadores da cidade.

Ao escolher Ingrid Betancourt e o mestre Ariano Suassuna para abrir o livro, seria impossível não questionar se essas entrevistas que enchem o primeiro capítulo não representava essa empreitada. Ele pensou. E, confessou: “escolhi retratar a longa conversa que tive com Suassuna por ocasião dos seus 80 anos por admirar a sua postura e o seu amor a nossa cultura nordestina. Amo ser nordestino e tenho muito orgulho de ser seridoense. Escolhi esses textos que considero fortes para fazer o que você faz nesta página ‘perturbar’ a sociedade com histórias reais de pessoas que mostram que quando se consegue superar o medo não é preciso mais nada na vida”.

E, continua contando que, “e, na verdade tenho um grande sonho de ver Ariano Suassuna e Ingrid conversando entre eles. Bem, acho que não conseguirei realizar. Aliás, quem sabe? Já a entrevista com Ingrid foi por conta da coragem daquela mulher. E, principalmente, por ela ter conseguido dominar o medo e se manter viva em meio aquele terror. Quando lembro que ao chegar naquela entrevista estava nervoso. E, me deparei com uma mulher dona de um corpo frágil, cheio de marcas de torturas, sem contar as cicatrizes que não vi, mas sei que em sua alma tinha muitas. Me acalmei. Ao ouvir ela falar que o maior medo que ela tinha era sair daquele terror em que se encontrava ao ser mantida refém pela guerrilha por sete anos na floresta amazônica e não ver mais seu pai vivo. Fato que aconteceu. Percebi naquele momento, que estava diante de uma mulher forte, iluminada e que com sua simplicidade me tranquilizou e permitiu que eu fizesse ali o que mais gostava.

Esse livro além de ser um registro da carreira jornalística de Paulo Araújo, “também é um balanço sobre o meu trabalho. Um resumo, que como Fialho  dos Jovens Escribas, chamou de coletânea, isso nas palavras de um editor. Mas, eu pensei também nas pessoas que não sabem o que é isso, o leigo que não saber distinguir o que é uma entrevista de uma reportagem ou de um perfil, por exemplo. Por isso, em cada capítulo escrevo em itálico um breve texto explicando cada gênero”, conta o autor.

Sobre o autor

Paulo Araújo começou a carreira como repórter da TV Universitária da UFRN, onde formou-se em Comunicação Social em agosto de 2000. Foi o primeiro potiguar a participar do Curso Abril de Jornalismo na revista Veja, em 2001, e trabalhou durante oito anos na Editora Abril, em São Paulo, com passagem pelas revistas Nova Escola, Veja na Sala de Aula, AnaMaria e Gloss. Em 2008, foi colaborador da revista Época, da Editora Globo, e participou da equipe de consultores brasileiros que criou o Jornal de Economia e Finanças de Angola. De volta ao Brasil, em 2009, foi diretor de jornalismo da TV Ponta Negra (SBT) e da SIM TV (Rede TV). Atualmente, colabora com as revistas da Livraria Cultura, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Glam e Versailles.

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