A comoção e o desafio – Vicente Serejo

A comoção com a morte de Eduardo Campos deve ter sido um bom fermento para fazer crescer o sentimento de…

A comoção com a morte de Eduardo Campos deve ter sido um bom fermento para fazer crescer o sentimento de oposição, mas não foi o único condimento. Para que o Brasil conhecesse as idéias de Eduardo Campos, foi preciso que ele vivesse um martírio. Fosse arrancado da vida e deixasse como herança um pedido para que ninguém desistisse do Brasil. A pátria de chuteiras, como definiu Nelson Rodrigues, ao retratar a alma coletiva do povo brasileiro derrotada por sete a um na Copa do Mundo.

Tudo aconteceu mais fortemente – perdoem o lugar comum – no seio da classe média. Bem ali, no campo de ação do vetor do processo formador da opinião pública que é a classe média, com seus claros sinais de exaustão. É sempre messiânica a reação de um povo que facilmente se comove diante do martírio, daí seus grandes cultos populares aos místicos, políticos e bandidos. É como se a morte ao invés de sepultar tivesse a estranha força da ressurreição no plano mágico dos efeitos transcendentais.

Mas, nem por isso, pelo disparo nas pesquisas, é fácil vencer Dilma Rousseff, embora Marina tenha estado sempre acima de Campos nas cotações eleitorais prévias. Humilde e vencedora, ela é a brasileira que também chegou lá e, como Lula, depois de viver o martírio social. Estudou já adulta, perdeu Chico Mendes, líder dos povos da floresta morto pela intolerância e também seu líder; a mulher frágil que enfrentou os fortes e não desistiu, mesmo depois de ter o sonho do um partido assassinado.

Dados publicados pela revista Veja desta semana revelam: existe hoje no Brasil um contingente de 40 milhões de eleitores beneficiados pelo bolsa-família. Para que se possa medir seu significado, é de uma magnitude, como força ativa e votante, superior aos 32 milhões de eleitores de São Paulo, o maior colégio eleitoral urbano do Brasil. Segundo a Veja: um eleitor que sequer se interessa por quem são e o que pensam o s adversários de Dilma. É aquela de Lula, e a que vai manter o bolsa-família.

O que há de favorável a Marina é ter consolidado o segundo turno agora com rosto conhecido, o que antes parecia indefinido pela liderança de Aécio Neves sobre Eduardo Campos. A morte trágica pulverizou o rosto do candidato do PSB, suas idéias e sua singularidade, e ainda deixou aos brasileiros a herança que é Marina. Uma Silva como Lula. A sustentar a bandeira daquele que se sacrificou pelo ideal de ser o porta-voz da indignação de cada brasileiro que sonha com um Brasil justo para todos.

A luta não será fácil, mesmo que se tenha a projeção de um segundo turno possível com Marina a enfrentar Dilma. Parece que o Brasil afastou a retórica de Aécio Neves, o neto de Tancredo, aquele que não passa sentimento de luta, mitigado por uma mineirice que cobre seu estilo de um escancarado maneirismo numa hora que exige o confronto para a mudança. O PT não terá escrúpulos em inventar podres para sujar a imagem de Marina. Mas não será tão fácil diante de um povo comovido e atento.

 

TEVÊ

Começa hoje com os candidatos ao governo a feérica propaganda eleitoral no rádio e na tevê, nas terças, quintas e sábados. Assim como todas as segundas, quartas e sextas serão dedicadas ao Senado.

ARSENAL – I

Todos juram que irão cumprir o desejo do eleitor que não deseja assistir a baixarias. Não é verdade. Os eleitores gostam de saber dos podres dos políticos e os próprios políticos estão armados até os dentes.

ALIÁS – II

Todas as equipes de produtores saíram em busca de cortes e depoimentos que poderão ser disparados durante o confronto. Tudo vai depender do nível de irritação com a eficácia da propaganda adversária.

MAIS – III

O estilo do PR já pode ser constatado nas redes. Não pouparam nem a morte de Eduardo Campos nos efeitos que a tragédia de Santos produziu. Foi tratado, embira anonimamente, como um reles traidor.

THEMIS – I

A Justiça precisa ajustar seus astrolábios para o novo desenho formado por estrelas de um céu que não é o mesmo. Diante de decisões jurídicas que hoje caem na opinião pública causando constrangimento.

FORÇA – II

As decisões estão ganhando sentido ético de reprovação o que exige não apenas capacidade de luta nos conselhos e tribunais superiores, como os melhores e sólidos argumentos diante da opinião pública.

DÚVIDA

O que faltou para, desde o início do processo de violência aberta se instalar na cidade, colocar nas ruas os pelotões especializados da Polícia? Faltou decisão se teme perder o controle e gerar o extermínio?

ATENÇÃO

Pelo visto e ouvido serão grandes as pelejas jurídicas envolvendo a propaganda eleitoral, mas a Justiça não será tolerante com os abusos. Uma coisa é o bom sendo pra evitar excessos. Outra são os excessos.

OLHO – I

Falar nisso os institutos de pesquisa sabem que a sociedade também não é mais a mesma. Parece mais atenta. Uma coisa é pesquisa como instrumento de trabalho, outra é pesquisa para registrar e publicar.

POR – II

Falar em registro já tem instituto sob o olhar severo da Justiça. Velhas manobras e sutilezas que antes eram fáceis agora poderão complicar. A Justiça pode determinar o confisco das planilhas para exames.

COLAPSO – I

É gravíssima a situação financeira do Governo Rosalba Ciarlini. Pode não chegar a um colapso com os cortes realizados às pressas, mas deixará dívidas acumuladas que não serão pagas nos próximos anos.

PIOR – II

Basta uma falta de rigor absoluto na seleção das prioridades e o Estado terá graves sinais de colapso na compra de material de urgência para a saúde e a distribuição gratuita de remédios essenciais na Unicat.

COMIDA

A edição da revista Gosto mostra o que é a Comida de Cinema. Como uma macarronada preferida de Charles Chaplin conhecida como ‘Spaguetti das Montanhas’ feito com alfavaca e quatro ovos batidos.

POESIA

Do poeta Abel Silva os quatro versos iniciais do poema ‘Louça Fina’ do seu ‘Só uma palavra me devora': ‘Todo amor carrega / o medo de quebrar / como uma louça fina / no mármore do olhar’.

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