Comovente
É comovente o personagem da semana. Ele recompõe a imagem e o gestual verdadeiros e mutilados do futebol patropi. É Rafinha, o Mogli do Flamengo, o menino magro e cativante destruidor de defesas com a sutileza dos hábeis de campo de várzea.
A derrota do Vasco me doeu menos que o sentimento pelo choro de Rafinha, menino pobre e sofrido, lembrando a mãe após um gol de desabafo e explosão.
Rafinha é um sobrevivente. Parece um garoto de beira de açude seco, carregando latões sem destino pelos grotões sertanejos. Até uma cicatriz daquelas riscadas de faca ele exibe em seu rosto docemente feio e inocente(ainda). Rafinha foi o único em um decadente Flamengo 4×2 Vasco sem um gênio em campo.
Longe de mim o despeito do fracasso(mais um) do meu time de coração. É que a vista sofre ao não ver mais em campo Zico de um lado e Roberto Dinamite de outro. Vasco de Geovani, Romário, Tita, Mazinho, Dunga, Acácio, Donato e Mauricinho, contra o Flamengo de Andrade, Adílio, Bebeto, Jorginho, Aldair, Leandro, Júnior e Renato Gaúcho . Com 150 mil pessoas no Maracanã.
Apenas 12 mil viram Rafinha, o solitário, dar um baile de carnaval antecipado, com marchinha de Braguinha, no decantado zagueiro Dedé do Vasco, completando 150 jogos. Rafinha jogou a 150 quilômetros por hora e Dedé deixou cair sua máscara correndo atrás do esquálido candidato a craque.
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Dedé, o gigante, desacreditou do nanico rubro-negro. Claro, hoje, no futebol brasileiro, prevalece a tese obtusa de que tamanho é o documento da competência, certificado do talento.
Imaginem aí um Dario, o cômico Dadá Maravilha, sendo o melhor do país por este critério e não Zico ou Geovani, maravilhas de anões dos meus olhos vivos. Dedé pagou caro pela prepotência e virou vilão desmoralizado de desenho animado. Rafinho foi o Bip Bip, o Papa-Léguas, e Dedé o humilhado Coiote.
Rafinha representa a revitalização da molecagem, da quebra de regras. Na reprise do golaço que fez, é preciso entender seu ato de burla absolutamente legítima. Ele toma a bola do lamentável quarto-zagueiro André, do Vasco na intermediária e parte sem olhar para os lados, algo básico e corriqueiro para os homens ofensivos criados sob a rigidez e a frieza das táticas de treinadores medíocres.
Nem a verve de Carlos Lacerda convenceria o simplório de carteirinha e assistência médica básica. Não, não foi o senhor Dorival Júnior, um treinador da casta das cartilhas e notebooks, o ideólogo da astúcia do menino. Nunca.
Rafinha, nos seus ímpetos de lutador bravio pela sobrevivência, em campo e na rua, partiu como quem vai à guerra. O gol era a cidadela inimiga e ele seguiu voando baixo em linha reta, para a frente, sem delongas, breques ou recuos. Avançou na infantaria do artilheiro verdadeiro, mirou como o goleador feiticeiro e matou o frágil e incompetente Alessandro, pobre goleiro.
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É dos Rafinhas que precisamos nós. Rafinha, no calor do intervalo, desceu ao vestiário cercado de repórteres e demonstrou uma lucidez incomum, uma sensatez de Mário Henrique Simonsen, o grande economista brasileiro do meu tempo. “Pé no chão, todo dia tenho que matar um leão.”
A fritura do menino começou. Já o estão chamando de Neymar da Gávea, como querem, a todo custo que Neymar seja melhor do que Messi como se o impossível fosse o sétimo céu ou a separação dos mares narrada pela Bíblia Sagrada.
Rafinha é a realidade nua. Rafinha luta, corre e sangra. É o cara que poderia ser motoboy, operador de xérox, cozinheiro do McDonalds, malabarista de laranjas em sinal de trânsito, pedinte, nunca o assaltante, o traficante portador de fuzil em favela trocando tiro com a polícia.
Rafinha é o pobre obstinado, digno, valente, que resiste ao primeiro não, ao segundo, chora, limpa as lágrimas na camisa, dá o troco aplicando um drible, disparando rumo ao gol, balançando a rede, correndo para a torcida, lembrando da mãe. Da mãe. Boleiro que lembra da mãe tem coração.
O personagem da semana, o ídolo em meio ao miserê de craques, parece ser aquele cara bacana que a gente quer ter como amigo e abraçar, ajudar, torcer para vencer na vida. Rafinha, o tampinha, apimentou o futebol insosso pelos Aurélios Adolfos que infestam os clubes e retiram da peleja, a malandragem, o passo elétrico aproximado de um lampejo garrinchiano.
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Hernanes
O pernambucano Hernanes, Profeta da Lazio, é o maior craque de meio-campo do Brasil e, na hora em que alcança a graça de ser convocado, leva uma pancada na cabeça e é cortado. Estou de banzo. Pior ainda: Entra Jean, do Fluminense, comunzinho, comunzinho.
Renan Marques
Vi jogar algum tempo atrás. Dentro da área foi um azougue. Tanto que se transferiu para o exterior. Hoje é o dia de Renan Marques mostrar sua fama pelo América contra o ASA de Leandro Campos. O comendador do ABC tenta acabar com um terrível tabu de perder todas para o técnico do América, Roberto Fernandes.
Bahia
O Bahia não entregou o jogo contra o Ceará. O Bahia já havia mostrado contra o ABC no Frasqueirão que é um time convencional. Agora vai com tudo amanhã contra o alvinegro. Mas o ABC não deve se amedrontar.
Alexandre
O ABC, se contasse com Alexandre desde o ano passado, nem teria mandado embora Renatinho Potiguar da forma humilhante conforme procedeu. Alexandre é sombra e titular. Jeff Silva não joga mais de jeito nenhum. Tomara.
Brincadeira odiosa
Ainda brincaram com o assalto à sede do América. E gente de classe média, nas redes sociais e blogues. Amanhã ninguém sabe.
Demônios da Garoa
Servidor público do Bandern, macauense da gema e hoje no Procon Legislativo, o amigo advogado Getúlio Teixeira nasceu para servir. Humilde, fica feliz com a alegria dos outros. Espécie extinta. Com a minha por exemplo. Me deu um DVD dos Demônios da Garoa, cantando Adoniran Barbosa. Garantiu meu sábado.
Normando
Normando Bezerra, da Fera do Alecrim, a torcida mais pacífica e fiel do Brasil, me mandou e-mail sobre crônicas e notas publicadas esta semana. Saiba, Normando, que o Alecrim é um pedaço fraterno do meu coração desde o tempo de um bigodudo comentando futebol. Quem não gosta do Alecrim, não gosta de ser humano. Do ser, humano.


