Comparar e constatar
Se fosse comparar a geração argentina um pouco mais nova com a seleção brasileira de 1982, o Brasil ganharia 20, em 19 partidas imaginárias. Não, não errei na matemática. O Brasil de Zico era melhor que a Argentina de Maradona em 1982, imagine do que a turma sucessora do Diego nos anos 1990. E sou vacinado contra ufanismo.
Por favor não confundir: Tudo baseado em Zico. Em 1990, Maradona driblou o time inteiro de Lazaroni, o Lazarento, que tinha de camisa 10, Silas, bom jogador, mas bem equivalente a uma média requentada se comparado ao baixinho Geovani, renegado pelo estilo acadêmico, como se a forma de Ademir da Guia, o Divino do Palmeiras humilhado por Zagallo fosse pecado.
Jogador de futebol de botão e pino-gol, imaginei um embate razoável: Cerezo seria o Verón. Até na magreza e no jeito desengonçado e elétrico se parecem. Verón nunca jogará mais que Cerezo. Se alegarem a falha de Cerezo contra a Itália, peguem o vídeo de Verón contra a Holanda em 1998, quartas-de-final.
Falcão, bem, aí é complicado. Falcão foi tão espetacular que fica um jogador difícil de ser parâmetro. Jogava nas três posições do meio-campo como um regente de improvisos que faziam do seu desempenho em campo, fantasias trocadas a cada lance mágico. O mais próximo argentino foi Ardiles.
Perto como Natal de Porto Alegre(RS). Porto Alegre de Falcão e do poeta Mário Quintana, o passarinho que, do gênio à beira-rio, recebeu a solidariedade da morada em seu hotel. Falcão é tão difícil de imitar quanto alguém copiar a dupla Kleiton e Kledir, os que lhe transformaram eterno tornando-o verso de canção.
Zico duelava com Maradona e Maradona tinha mais ginga, balanço, quem sabe, intimidade superior de morro. Zico, nos confrontos entre Brasil e Argentina, jamais perdeu para Maradona e sempre deixava o dele. No particular, fico com Zico. Poderia até escolher Rivelino, o cara que Maradona imitava nos seus lances precoces de bairro pobre portenho.
Semelhança havia entre Sócrates e Riquelme. Magros, cerebrais, pensadores, administradores de campo, dominadores da faixa intermediária, dribladores curtos, goleadores da sutileza. Sócrates foi o Riquelme brasileiro? Menos. Riquelme é a versão próxima do Sócrates argentino.
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Riquelme também, num exercício de Simenon, o detetive de Georges Simenon, dos autorais da literatura policial, travava frevos com Rivaldo, um canhoto esquálido e excepcional, melhor jogador da Copa do Mundo de 2002. Rivaldo, genial, abdicou do individualismo para reforçar a fortuna do gordo Ronaldo.
Riquelme joga bola feito o compositor que está em recesso criativo e pede um violão. Passa um tempo e compõe um repertório inteiro, sem gritos ou berreiros, cabelos ou guitarras elétricas, iguais às que desfiguram um produto nordestino, o forró verdadeiro, que padece por Dominguinhos.
O Real Madrid, com sua constelação antipática, em 2000, pensou que faria do Boca Juniors, partido do passional, um otário na final do mundial em Tóquio. Claro. Lá estava Roberto Carlos, o brasileiro que jogou 1,1333% de Marinho Chagas, Raul, Sávio e companhia midiática.
Uma barbada antecipada. Real campeão de novo. Havia um Sócrates de camisa azul com corte amarelo no peito de onde sai o sentimento e a honra. Riquelme driblava dois, três, quatro, jogando o corpo ao vento e a liberdade aos pés. Um Sócrates de frieza.
Riquelme é um chato, a humanidade concorda. Sócrates não falava. Murmurava a quem chegasse com conversa repetitiva e abençoada de fã. Em campo, decidia. Uma vez, fez coreografia contra o Palmeiras.
Ia a um lado, o zagueiro Márcio o acompanhava. Ia ao outro, lá ia Márcio. Saiu pela lateral, Márcio foi atrás, arrancou, fumante inveterado, chutou para classificar o Corinthians.
A imprensa blogueira traz, a cada segundo, capítulos novos. Riquelme vai para o Palmeiras. Riquelme não vai mais. O Fluminense quer Riquelme. O Fluminense quer sim. O Palmeiras agiu com Riquelme numa arrogância ridícula.
Há que se perguntar ao Sócrates portenho, com traços de Ademir da Guia, se lhe interessa jogar em time rebaixado à segunda divisão e que tem, de ídolo, um mascarado chileno(Valdívia), apenas firuleiro e encrenqueiro. O Palmeiras atual nem merece Riquelme.
No Fluminense, poderia ser o Rivelino de 1975, marco inicial de uma máquina, que punha os craques para jogar, a torcida para comemorar, Nelson Rodrigues para escrever o inimitável e a galeria de troféus sempre aberta a soltar arroz em pó. A cada campeonato chegava uma taça, de campeão.
No Vasco, um clube desmoralizado, seria impossível. Com Riquelme no Brasil, Sócrates seria homenageado. Messi, o pleonasmo, até aplaudiria.
Onde jogar
Já foram reservados 400 mil ingressos para a Copa das Confederações este ano. O problema é ter onde jogar. Apenas o Mineirão e o Castelão de Fortaleza estão prontos. O restante segue na estatística de engenharia: 51,33%, 67,14%, parece também pesquisa eleitoral.
Concentrar
Sugestão(modesta) ao ABC: Concentrar no superintendente de futebol Gustavo Mendes as informações sobre reforços para evitar contratempos como os de Júnior Xuxa e Leandrão que foram ao twitter sem combinar com seus clubes.
Migué
Rodrigo Tiuí preferiu a dinheirama do suspeitíssimo ex-senador Luiz Estevão, dono do Brasiliense, a vir para o América. Eles se merecem.
China
Nada impede que o presidente do América, Alex Padang, deixe Isac na China, resolva assuntos ligados a investimentos no clube e dê um pulo na Coréia, para trazer de volta o goleador Lúcio Curió. Uma turnê oriental.
Limpeza
Natal está mais limpa. Ponto. Natal precisa reconstruir a infraestrutura da Praia dos Artistas e do Meio. Está um Vietnã. Três dias depois de encerrada a guerra.
Segundona
ABC e América também devem ficar na segundona do movimento “Futebol melhor”, lançado pela Ambev. Do Nordeste, só Bahia e Vitória.
Tanzânia em Natal
A Tanzânia é bem capaz de travar um clássico com a Groelândia na Arena das Dunas, mas esteve em Natal há exatos 39 anos, para um amistoso contra o ABC, em retribuição à visita alvinegra durante excursão para Europa e Ásia, no ano anterior. O ABC venceu por 2×0, dois de Alberi, para variar. Público de 9.211 pagantes no Castelão (Machadão).
O ABC
O ABC venceu com Erivan (Floriano); Sabará (Gonzaguinha), Válter Cardoso, Telino e Anchieta; Nilson Beckenbauer (Aélio), Danilo Menezes e Alberi (Jaime); Soares, Jorge Demolidor (Libânio) e Moraes. Na Tanzânia, o goleiro Muchidini, o meia Chitete e o ponta Dilunga, todos pernas de pau.


