Comunicação e esquizofrenia
Nas aulas noturnas do Atheneu daqueles anos setenta, Senhor Redator, nas discussões que reinventavam o mundo no calor da juventude, ouvi muitas vezes ser repetido a frase de Vladimir Illich Ulianov do esquerdismo como a doença infantil do comunismo. Pode não ser o caso, mas vale como parábola talvez um pouco mais radical: a esquizofrenia é a doença fatal da comunicação. Não é difícil demonstrar com os exemplos que a realidade produz, principalmente no marketing governamental.
A comunicação é um ato retórico e nisto não há novidade. Suscetível de ser confirmado ou desmentido ao longo do seu curso, a partir da emissão. Se for fato, é perfeito. Se for falso, é ineficaz. E o modelo vale para a comunicação governamental ou não governamental. Tanto faz. Quanto maior for sua área de abrangência tanto maior será o seu efeito positivo ou negativo. Principalmente nas ações públicas consagradas como deveres de governo e postas acima de circunstâncias político-partidárias.
O gestor público nem sempre percebe com clareza de visão crítica que os deveres de estado são ungidos como algo superestrutural. E três deles de um poder disseminador acima de qualquer controle pelo sistema dito oficial, por ordem de universalização: segurança, saúde e educação. O medo atinge do miserável ao milionário, indistintamente. A doença a um universo em torno dos 70% da população que não dispõe de plano de saúde; e educação, a única herança que a classe média deixa a seus filhos.
Bastam esses três, inquestionáveis como deveres, para se ter a liturgia completa da missão de governar em qualquer das três esferas – municipal, estadual e federal. Quando um governo, nascido da oposição, se elege, e logo no primeiro turno, o voto encerra com a punição da derrota aqueles que não atenderam a expectativa dos cidadãos. Depois da posse, só há uma tarefa: governar melhor para honrar a escolha, sem insistir na culpa das falhas do passado, quando esse passado já foi punido pela derrota.
É da consciência coletiva a certeza de que a candidatura de oposição é um ato voluntário e sua vitória o pressuposto de uma vida melhor para todos. Mais: que o hoje, como o ontem, também é feito das mesmas dificuldades. Ninguém pode assumir com a bandeira da oposição nas mãos se não for para promover mudanças. Eleição é um tribunal sem apelação, sumário e definitivo. Triste do governo que não representar uma revolução pelo voto, erguendo sobre o falso a verdade que imaginou construir.
Quem pretender que nos dias de hoje, em pleno processo de organização política e de liberdade de expressão, se conquista uma sociedade edulcorando o bolo e adoçando o glacê, colhe um fracasso. Principalmente, se além de não ouvir a voz das ruas ainda cometer o erro tolo de ser perdulário com o tempo, acreditando na má lição provinciana de que o poder econômico tudo pode comprar. É esquecer a lição de Benjamin Franklin de que tempo é dinheiro. Verdade que o mundo nunca ousou duvidar.
FICA – I
O PMDB não vai deixar o governo. Pelo menos até dezembro. Esse silêncio é uma tática. Os líderes só esperam baixar a poeira dos pedidos – recursos hídricos, agricultura e leite – para saírem as nomeações.
MAS – II
Tem uma coisa: quem assumir terá observador de olho em tudo. Até nas promessas de pagamentos de dívidas devidas e justas. Como aconteceu e foi abortado pelo comando na boca do caixa. Que tentem.
SAÚDE – I
Os números mostram que o amor dos hospitais, aqui e no Brasil, pelos planos de saúde privados é um amor perverso. São eles, os planos com seus ‘donos’ pessoais, que somam o recorde de reclamações.
JOGO – II
As empresas de saúde pagam melhor aos hospitais, mas esse preço vai para os clientes que precisam levá-los à Justiça para ter exames e cirurgias. Agora, com a nova lei, terão que justificar e por escrito.
ALIÁS – III
Há uma estratégia silenciosa em alguns hospitais de Natal depois dos fracassos das tentativas de greve no ano passado: estão lentamente desacelerando o atendimento aos clientes Unimed até seu corte final.
METAS – IV
Alguns dos hospitais já reduziram sem alarde a 60% do atendimento de antes, mas evitam o corte nas UTIs onde a diária é paga a R$ 100 reais. É que fechar porta de UTI é difícil diante da opinião pública.
SAÍDA – V
Para a Unimed – que também reclama dos custos hospitalares elevadíssimos – a única saída possível é a ampliação do seu próprio hospital com as obras já iniciadas. Uma concorrência que atiça as reações.
GASTO
As câmaras municipais da região metropolitana de Natal vão criar uma federação. Pra quê? Onde fica essa região dita metropolitana? Entre Macaíba e Coité ou depois, entre São Gonçalo e Rego Moleiro?
NAVIOS
Foi uma boa garantir 24 escalas de cruzeiros no porto de Natal. E se não nos trouxerem riquezas ainda assim é melhor ficar a ver belos navios entrando no Potengi do que assistir à nossa própria pobreza.
BOSQUE
Marcos Sá prepara a nova temporada de shows no Bosque dos Namorados, que agora se chama Parque das Dunas. Levando artistas locais para seu palco ao ar livre. Sempre com bons shows instrumentais.
AVISO
Fúnebre: depois do falecimento da grama do girador da Ponte Newton Navarro do lado da Redinha, os coqueiros também já começam a morrer de sede. Mesmo sendo o caminho do jet para o litoral Norte.
APURO
A agência de filatelia dos Correios, na Ribeira, dispõe de um só funcionário obrigado também a fazer serviços externos. Como não se dividi em dois, a agência vive fechado. Seria o tal do apuro gerencial?
VISITAS
Prazerosas as visitas de Rubem Braga nos seus belos ‘Retratos de Paris’. Seus encontros com Picasso, Chagall, Matisse, Thomas Mann, Sartre, Corine Luchaire e uma professora de filosofia muito bonita.
FRASE
De Thomas Mann, citado por Rubem Braga no terceiro dos seus três textos sobre o escritor: ‘A Igreja Católica e o comunismo são dois pontos de fraqueza. Os dois têm a mesma atração para as almas cansadas da liberdade’.


