Confetes, serpentinas…

Ora, ora, Senhor Redator, pra negar? Meu carnaval já não tem confetes e serpentinas. E agora, invisível e melancólico, faço…

Ora, ora, Senhor Redator, pra negar? Meu carnaval já não tem confetes e serpentinas. E agora, invisível e melancólico, faço parte do último bloco que vai passando pelas ruas com seus mascarados tristíssimos, como se saudassem as cinzas de uma alegria que ficou esquecida em algum lugar da alma.

Sim, os sábados eram gordos e neles havia uma alegria de viver. Com o tempo, essa alegria foi ficando magra. Como se todas as coisas também perdessem a cor e a vida sem graça, como um fim de festa.

Tristeza de viver? Não. É a própria vida que é assim. Uma bela aventura. Como uma viagem de descobertas que aos poucos vai cumprindo seu roteiro. E a cada estação todas as coisas fossem vividas com a intensidade de um nunca mais. O fim de tudo faz parte de todos os começos. Como seria então começar se depois de todas essas estações o fim não fosse ficando mais próximo por mais feliz que tenha sido a partida? Viver é uma viagem. Curta para uns, longa para outros, mas uma viagem. E só.

Mesmo que todos os sonhos sejam possíveis e realizados a cada tempo, a viagem segue essa viagem. A ninguém será dado desviver o tempo vivido. E a bagagem vai pesando, caindo sobre nossos ombros como um fardo. Acomodamos as alegrias num canto, as tristezas noutro, as frustrações noutros mais. E, algumas vezes, tão suave é viver, nem percebemos que vamos guardando em nós mesmos um tempo imenso de vida. No sótão da alma, misturados aos nossos sonhos e as nossas velhas fantasias.

Onde o arlequim daquele antigo carnaval e o beijo terno daquela colombina, quando a festa da vida parecia sem fim? Viver é colar lembranças num álbum de fotografias. Nem precisa que sejam de verdade as lembranças todas que ficaram pregadas na alma. Basta que tenhamos vivido intensamente cada instante. E agora sem mais precisar esconder de nós mesmos o palhaço que fomos quando o medo não castigava aquelas coisas proibidas e o ridículo caia sobre nós como uma promessa de felicidade.

Que intensos ciúmes de um tempo que passou escorrem nos versos dessas velhas canções tão ingênuas e que pareciam eterniza com perfeição os nossos sonhos. A vida é como se fosse um filme. Passa. Quadro a quadro, em sessões contínuas, numa longa tarde de domingo. A quem deixarei os beijos de Greta Garbo e John Gilbert daquelas histórias de amor? Nunca pensei que fossem acabar num álbum de fotografia se eram tão íntimas e se voltavam para casa comigo como fossem minhas?

Ora, é filme tudo isso que passa. Lá de fora, do outro lado da rua, chegam os restos das canções do carnaval que começa. Nunca imaginei que numa hora assim, tão sem graça, e no banheiro de um bar, um mundo de lembranças desabasse de suas telhas velhas. Prisioneiro da inesperada solidão, ainda tentei fugir lendo os nomes riscados nas paredes sujas. Mas, no chão, como se chamassem os olhos para um adeus, os pedaços encarnados e tristes de uma serpentina. Pisados. E respingados de urina…

 

‘Carnaval à porta. ‘Já lhe ouço os guizos e tambores’.

Machado de Assis, ‘Diálogos

e Reflexões de um relojoeiro’.

 

‘O carnaval é a única festa nacional que consola a gente do calor, da queda do mil réis, da política, dos programas de salvação pública e dos desastres de aviação militar’.

Ribeiro Couto,

‘Conversa Inocente’.

 

– ‘Um desafogo na existência árida dos brasileiro, que vive sem comodidade, sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma’.

Gilberto Amado,

‘A Chave de Salomão’.

– ‘Do ponto de vista folclórico e etnográfico o carnaval é um índice anual de sobrevivências e elementos reais da psicologia coletiva…’.

Câmara Cascudo, Dicionário

do Folclore Brasileiro.

 

– ‘A máscara e a veste com que o indivíduo sai às ruas nesses três dias de exibição cômica, dão-nos uma idéia de sua individualidade.’

Henrique Castriciano no artigo ‘Carnaval’, 1899.

 

‘Quero beber! Cantar asneiras / No estado brutal das bebedeiras / Que tudo emborca e faz em caco… Evoé Baco!’.

Manuel Bandeira em ‘Bacanal’.

 

‘Nunca fui carnavalesco, mas, como todo melancólico e contemplativo, gosto do ruído da multidão e não fugia a ele’.

Lima Barreto em crônica

no carnaval de 1920.

 

‘Chegou foi o tempo delas pegarem os homens, / porque chegou o carnaval do Recife, /o carnaval mulato do Recife, / o carnaval melhor do mundo!’.

Ascenso Ferreira no poema ‘Carnaval do Recife’.

 

‘Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais / Brincando feliz. / E nos corações / Saudades e cinzas / Foi o que restou’.

Vinícius de Morais na ‘Marcha

da Quarta-feira de cinzas’.

 

‘Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas, onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete’.

Clarice Lispector na

crônica ‘Restos do carnaval’.

 

‘Se a única coisa de que o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano’.

Graciliano no livro

‘Em Liberdade’.

 

– ‘No Corcovado, Cristo, braços abertos, parecia abençoar a cidade pagã. Tornou-se maior a tristeza nos olhos de Pauto Rigger. Levantou os braços num gesto de supremo desespero e murmurou fitando a imagem gigantesca: – Senhor, eu quero ser bom! Senhor, eu quero ser sereno… Lá longe, desaparecia lentamente o País do Carnaval’. Final de ‘O País do Carnaval’.

Jorge Amado, Rio, 1930.

 

‘Todo ano é a mesma coisa: você chega, fica aqui três dias e aí vai embora. Volta um ano depois, todo animadinho, querendo me levar para a gandaia. Olha, honestamente, cansei’.

De Fernanda Young na

crônica ‘Para o Carnaval’.

 

‘O cheiro dos lança-perfumes, os confetes, as serpentinas, a música, tudo era transfiguração. Para o adolescente tímido, as mocinhas deixavam de ser intocáveis, ao mesmo tempo que ficavam muito mais maravilhosas – ciganas, piratas de coxas nuas, odaliscas, bailarinas, pierrettes’.

Rubem Braga na crônica ‘Os Carnavais de antigamente’, ‘Crônicas do Espírito Santo’, 1958.

 

‘Deus me abandonou / no meio da orgia / entre uma baiana e uma egípcia. / Estou perdido. / Sem olhos, / sem boca / sem dimensões. / As fitas, as cores, os barulhos / passam por mim de raspão. / Pobre poesia.’

Carlos Drummond de Andrade, poema ‘O Homem e seu carnaval’. Do livro ‘Brejo das Almas.

 

‘Ah, em tempo: que neste carnaval vocês tenham a sua porção de mario de andrade, percam o trem, percam a vergonha, mas não percam a alegria’.

Mário de Andrade fechando uma carta a Manuel Bandeira, pedindo desculpas por ter faltado a um encontro durante o carnaval de 1923, no Rio.

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