Copa aumenta preocupação com terrorismo e ataques de facções criminosas

Especialista em segurança alerta para riscos de ações de grupos como o PCC e articulação de atentados planejados no exterior

Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola é um dos líderes do PCC. Foto:Divulgação
Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola é um dos líderes do PCC. Foto:Divulgação

As forças policiais brasileiras estão com suas ações preventivas voltadas contra um eventual ataque do terrorismo internacional durante a Copa do Mundo, mas o inimigo pode estar dormindo ao lado, mais precisamente nas cadeias.

“Os órgãos de segurança têm indicativos de que bandidos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital) teriam participado das manifestações do ano passado. É provável que integrantes dessa organização tentem agir antes do início ou durante a Copa do Mundo para coagir as autoridades”, alerta André Luís Woloszyn, especialista em sistemas estratégicos, tenente-coronel reformado da Brigada Militar gaúcha e ex-analista da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência no governo Fernando Henrique Cardoso.

“Esse grupo já fez isso em 2006 e em 2012 em São Paulo. É o chamado terrorismo criminal. Eles têm uma pendência com o Estado”, afirma.

Autor do livro “Guerra na Sombra – bastidores dos serviços secretos internacionais”, em que analisa o terrorismo e o papel das agências de espionagem e contraespionagem e chefe de segurança do Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, Woloszyn afirma que o Brasil não é alvo do terrorismo internacional, mas a neutralidade em conflitos, a diversidade cultural, espírito hospitaleiro e dimensões territoriais – também contribuíram para tornar o país abrigo de imigrantes suspeitos.

“O Brasil é esconderijo de pessoas ligadas a células terroristas, procuradas em outros países. Na hipótese de se planejar um atentando, como é o estilo dessas organizações, essas pessoas eventualmente podem ser usadas”, disse o especialista. Ele ressalva, no entanto, que embora seja necessário reforçar a prevenção, não há motivos para paranoias, já que esses grupos são monitorados pelos órgãos de segurança, inclusive na região de Foz do Iguaçu, ponto da tríplice fronteira Brasil-Paraguai-Argentina.

Woloszyn lembra que há poucos anos o Brasil era visto pela comunidade internacional como paraíso de mafiosos, criminosos de guerra e assaltantes famosos. Entre os mais célebres estão o ladrão de bancos Ronald Biggs, o nazista Josef Mengele e o mafioso arrependidoTomaso Buschetta. “O que pode ocorrer aqui é a execução de um atentado planejado no exterior”, diz.

Analista de sistemas estratégicos, Woloszyn ressalta que os riscos maiores para grandes eventos estão em eventuais ações orquestradas pelo crime organizado. A musculatura adquirida pelo PCC ao longo de 20 anos de preparação e de omissão dos governos, segundo ele, demonstra a fragilidade do sistema de segurança pública. A organização, que hoje controla 90% da massa carcerária paulista e, nas ruas, o tráfico de drogas, roubos e contrabando de armas, tem entre seus objetivos bélicos o enfrentamento ao Estado.

“Um evento como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas viram prato cheio para o terrorismo. Não que o Brasil seja alvo, mas porque para cá virão delegações de países que são alvos de grupos do Oriente Médio ou da Ásia”, afirma o especialista. “Esse é sempre um momento muito delicado porque o terrorismo age procurando produzir um efeito psicológico se aproveitando da mídia”, diz.

Woloszyn afirma que no campo cibernético, o Brasil é vulnerável por não possuir domínio tecnológico para ações preventivas, como ficou demonstrado na denúncia de Edward Snowden ao revelar os tentáculos da Agência de Segurança Nacional (NSA). Por essa razão, segundo ele, o Brasil tornou-se dependente dos únicos países que detêm os 12 provedores existentes no mundo (10 deles nos Estados Unidos, um na China e outro na Russia). “Um apagão cibernético que provoque um colapso e produza o caos está hoje mais ao alcance do terrorismo do que um atentado a bomba”, diz.

Segundo ele, os grupos especiais das forças de segurança têm treinamento de primeiro mundo, mas baixa articulação internacional e nenhum domínio tecnológico.

“Quem não tem isso está fora do processo internacional. Se as forças especiais tiverem de entrar em ação para neutralizar um criminoso é porque a inteligência preventiva falhou”, observa o especialista.

Woloszyn ressalva, no entanto, que para se prevenir, as forças de segurança reforçaram a cooperação internacional com os serviços secretos de países mais experientes no combate ao terrorismo, como Inglaterra, Espanha, Alemanha, Israel e Estados Unidos.

O problema dessas agências, diz o especialista, é um fenômeno típico da espionagem e contra espionagem: a compartimentação da informação, ou seja, cada um procura controlar o que sabe e isso facilitando atentados.

“Descobriu-se, depois do 11 de Setembro de 2001, que várias agências investigavam o mesmo grupo, mas não conversavam entre si”, lembra.

O especialista diz que é necessário fazer uma distinção clara entre terrorismo e crime organizado tanto nas ações institucionais de prevenção ou de repressão quanto na legislação. Woloszyn alerta que, tomado pelo clima emocional gerado com a morte do cinegrafista Sergio Andrade, da rede Bandeirantes, o Congresso pode aprovar uma lei esdrúxula e inadequada, em que o direito de se manifestar posse ser confundido com atentado terrorista.

“O Congresso analisa 12 propostas que há dez anos não saem do papel. Algumas são claramente inconstitucionais porque confundem vandalismo, lesões corporais ou o emprego de violência em conflito ou distúrbios com terrorismo”, observar Woloszyn. Segundo ele, o debate gerado pela morte do cinegrafista ganhou contornos de irracionalidade e entrou no jogo político, uma receita perfeita, segundo ele, para manter o país na contramão da história quando o assunto é segurança e combate a impunidade.

Fonte:IG

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