Copa e eleições – Alex Medeiros

Por Eduardo Giannetti FOLHA DE S. PAULO   O pré-Copa foi tenso e repleto de maus augúrios: ruas indiferentes, obras…

Por Eduardo Giannetti

FOLHA DE S. PAULO

 

O pré-Copa foi tenso e repleto de maus augúrios: ruas indiferentes, obras por um fio, greves, ameaças de ação violenta. Não durou. Foi só rolar a bola para o clima virar. Bandeiras por todo lado, lágrimas ao som do hino a capela, ruas em festa. O transe coletivo da Copa venceu. Até quando?

A Copa une o Brasil. “O povo”, reflete o poeta Drummond, “toma pileques de ilusão com o futebol e o carnaval, suas duas fontes de sonho”. O sonho é belo, porém efêmero. Quando a bola parar, ganhe ou perca a seleção, a amarga realidade nos tomará outra vez com suas unhas de bronze.

Estamos a três meses da eleição. A vizinhança no tempo entre Copa e eleições – fruto da única medida aprovada na revisão constitucional de 1993, a redução dos mandatos executivos de cinco para quatro anos – é um desserviço à nossa democracia: não pelo eventual impacto do torneio nas urnas (duvidoso), mas pelo encurtamento do tempo real de campanha.

Democracia não é só voto – é debate e participação. Uma vez a cada quatro anos, renova-se a chance de refletirmos e fazermos valer nossas escolhas sobre os rumos da nação. A sincronia entre Copa e eleições – e isso logo no país do futebol! – conspira contra o ideal de uma democracia de alta intensidade.

Copa do Mundo e eleição competem pela atenção dos brasileiros. A disparidade, porém, é esmagadora. O futebol empolga e arrebata; a política deprime e exaspera.

Por que não vemos, na área política, a mesma floração de talentos jovens e aptos a nos representar no jogo democrático? Por que não participamos do debate eleitoral com o mesmo entusiasmo e paixão com que nos dedicamos a esmiuçar cada lance da “pátria em chuteiras”?

O futebol traduz o modo de ser e sentir brasileiros: o nosso poder de adaptação e superação; a criação de boas formas de existência coletiva; a improvisação talentosa e uma compreensão lúdica da vida.

Nossa vida pública, ao contrário, parece enredada numa espiral entrópica. Quanto mais ela teima em nos decepcionar com seu fisiologismo e impudor, maior o sentimento de aversão a ela.

E, quanto maior a aversão, mais crescem o desânimo e o indiferentismo que favorecem o atual estado de coisas e nos empurram rumo às piores práticas na política.

Como reverter esse quadro? A resposta é uma só: participação. A Copa é fogo-fátuo, mas o resultado das urnas ficará conosco – é o futuro da nação em jogo. Se nós dedicássemos às eleições uma fração da energia alerta que devotamos à Copa, como no esboço das manifestações de junho, nós mudaríamos o Brasil.

A política existe para expressar nossos valores e sonhos, não para nos enojar. (EG, economista)

Neymar

A violência do Chile e da Colômbia com Neymar tem semelhança com o que os portugueses fizeram com Pelé na Copa de 1966. O caso agora é totalmente diferente do que houve com o rei na Copa de 1962, quando o motivo da saída foi um estiramento.

Repercussão

O mais importante jornal do mundo, The New York Times, publica na edição de hoje duas páginas com episódios do jogo de ontem, Brasil 2 x 1 Colômbia. A contusão de Neymar e o gesto de David Luiz trocando camisa e consolando James Rodriguez.

Repeteco

A cena de David Luiz (até agora o melhor jogador da Copa) me fez lembrar um fato inesquecível da Copa de 1974. O holandês Kroll consola Marinho Chagas (que chora), troca as camisas e ergue o braço do brasileiro para os aplausos da torcida laranja.

Zagueiros

“Quem não tem cães, caça com gatos”, postou a paulistana Letícia Machado no Twitter em alusão aos gols de Thiago Silva e David Luiz, os dois zagueiros do Brasil que cumpriram o papel que seria dos atacantes. Fred, Hulk, Jô e Bernard são a incerteza.

Alerta

O fato é mais grave do que todas as ameaças terroristas possíveis. Agora é oficial de que um surto de ebola (talvez o vírus mais fatal conhecido) iniciado na África Ocidental está fora de controle e já matou nas últimas horas 468 pessoas e infectou outras 759.

Escandaloso

Em junho, o MP pagou a seus membros R$ 326.821,90 de auxilia moradia, mostrou o repórter Dinarte Assunção em matéria no Portal No Ar. O volume é 3.000% mais caro do que o preço dos alugueis de todos os imóveis alugados para abrigar promotorias.

Filosofia da miséria

Essa gastança graciosa do MP deve deixar muito satisfeito o jornalismo bajulatório e pseudomoralista que só vê atos não ortodoxos no mundo político. O constante discurso de alguns promotores contra benesses nos três poderes lembra a ironia de Proudhon.

Lula lá

Na convenção do PSD potiguar, o PT exibiu material publicitário com a imagem de Lula junto à Fátima Bezerra e Robinson Faria. Na convenção do PT de Pernambuco, fotos de Lula com João Paulo e Armando Monteiro (PTB). Dilma sumiu mesmo.

Dilma

O jornalista Guilherme Fiuza, um dos melhores textos da revista Época, lançará em agosto o livro “Não é a mamãe – Para entender a Era Dilma”. Um apanhado das suas melhores crônicas publicadas na revista e também em jornais. Na capa, o babyssauro.

Padrão FIFA

Em diversas cidades-sedes da Copa, o serviço de vigilância sanitária identificou casos de mal-estar causados pelas quentinhas consumidas por voluntários da FIFA, alguns de gastroenterites agudas. Em Brasília, uns 80 casos de vômitos e diarreia no estádio.

Contratação

Alguns sites da Europa afirmam nesse sábado que o artilheiro uruguaio Luís Suarez já é jogador do Barcelona, que teria fechado negociação com o time inglês do Liverpool. A FIFA também já teria amainado a pena do rapaz, que está liberado para treinamentos.

Literatura

O poeta maranhense Ferreira Gullar, 83, poderá assumir a cadeira do escritor Ivan Junqueira na Academia Brasileira de Letras. A defesa do seu nome na substituição já está sendo feita por acadêmicos como FHC, Eduardo Portella e Merval Pereira.

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