Coração trintão
Terminar um namoro após os trinta anos é terrível – ainda mais quando se mora sozinho. Longe da família, amigos servem de porto seguro, mas em sua grande maioria, estão casados e cheios de filhos. Os solteiros são raridade. E tem a vida noturna, repleta de gente com o RG mais atual que o seu. A velha necessidade do sábado à noite – que idade a gente tem de chegar para isso acabar?
Nas primeiras saídas, ouvimos em cada bar “Cadê fulana?”. Duas palavras que ativam todo um processo. Não demora a reverberar em nossa mente: Agora quem dividirá o sofá e a taça de vinho durante os filmes, o Altas Horas, etc? (a cerveja velha de guerra retorna com todo gás, para desespero da barriga já protuberante). Qualquer casal avistado é motivo de reflexão como a cena perfeita da felicidade. É o retorno à bagunça dos livros e jornais espalhados pela casa – impressionante como as mulheres transformam os homens em seres ordeiros e assépticos. Dizem que o apartamento de uma solteirona tem onze vezes menos bactérias do que a morada de um homem solitário.
Náusea, paranóia, insegurança, autopiedade, temor, dúvida, perda do apetite, noites insones e esperas agonizantes pelo toque do telefone. Difícil fugir desses sintomas quando recebemos um fora. Tudo vai bem (para um dos lados, pressupõe-se) até que um belo dia alguém resolve por um ponto final na relação. O chão cede e a cabeça ferve. Na tentativa de reconquista, escolhemos hora e palavras erradas. A precipitação é quem manda. Pensamos: porque ela vai embora toda vez que algo dá errado?
Ao ler “Alta Fidelidade”, do inglês Nick Hornby, um emaranhado de memórias e semelhanças nos acomete da primeira a última linha. Vivemos ou conhecemos quem tenha vivido algo parecido com a história de Rob, homem de 35 anos, dono de uma loja de discos decadente, namorado de Laura, advogada elegante, bem sucedida. Enquanto Rob passa o dia falando sobre música com dois amigos fracassados, Laura freqüenta ambientes sofisticados, e conhece gente descolada e glamorosa.
Vida boa, assim ele pensava, destruída após Laura resolver abandoná-lo para viver com o ex-vizinho do andar de cima. O mesmo que protagonizava espetáculos ‘auditivo-sexuais’ para o casal em plena rotina dos três anos de relação (“Como ele demora!”). Com o tempo, Rob ficou chato, inseguro e quebrou o encanto que namorada sentia por ele. Cometeu o erro do comodismo pessoal e profissional. Esqueceu que existia outra Laura longe dele, com outros amigos, opiniões, prazeres e necessidades. Quis transformá-la em um apêndice do marasmo em que vivia.
O livro foi transformado em filme pelo diretor Stephen Frears, com John Cusack, Joan Cusack, Catherine Zeta-Jones e Tim Robbins no elenco. Entre o sofrimento da rejeição e novas experiências, o amor reluz como uma árvore supostamente morta que tem na força da raiz bem plantada e cultivada a superação contra a queda das folhas. Cru e sem casca, Hornby arrasa e promove as relações. Disseca pormenores fundamentais sobre a vida conjugal em uma linguagem simples e objetiva.
“Escreva em um papel as quatro piores coisas que vocês já fizeram à sua parceira, mesmo se, especialmente se, ela não soube disso [...] e agora, quem é o babaca?”.


