Corno assumido, Falcão diz: ‘Tem chifre na relação Neymar e Marquezine’

Cantor brega também mostra outro lado além do bom humor característico. Formado em arquitetura, ele critica o padrão Fifa e a organização da Copa

Falcão: irreverência em pessoa. Foto: Divulgação
Falcão: irreverência em pessoa. Foto: Divulgação

Existe um cearense muito bem articulado por trás do girassol, dos óculos escuros e dos ternos extravagantes característicos do cantor Falcão. Natural em 1957 em Pereiro, município a cerca de 340 km de Fortaleza, Marcondes Falcão Maia, 56 anos, formou-se em arquitetura pela Universidade Federal do Ceará.

Nesta entrevista, na capital cearense, ele conta sobre esse lado pouco conhecido, também fala de futebol, de Copa e não esquece seus temas favoritos: o brega e os cornos.

Por que Fortaleza é a capital do humor?

Principalmente de uns 20 anos para cá houve um “boom” de humor de bar na cidade, assim como aconteceu com o stand-up comedy em São Paulo. No começo dos anos 90, em todo bar tinha um cara fazendo humor, que era mais escrachado e caricato. Eu comecei fazendo essa música bem humorada, me entrosei com esse pessoal e eu fazia meu show de música de sacanagem e os caras faziam show de humor. Muita gente boa começou junta. Eu fazia show no mesmo bar que o Tom Cavalcante. Isso é uma história que vem rolando no Ceará desde o século XIX, porque essa terra aqui sempre foi de um povo gaiato, sacana. No século XIX, houve a Padaria Espiritual, que é anterior à Academia Brasileira de Letras. Era um pessoal que se reunia para fazer humor, literatura e poesia pela cidade. Acho que tudo começou daí, mas a minha teoria é que o povo cearense e nordestino em geral é bem humorado, porque é sofrido e feio. O cara sendo feio, passando seca e fome, ele tem de ser alegre, senão morre.

Você se considera apenas cantor ou humorista também?

Eu sou um cantor de fuleragem, que é como chamamos aqui. Eu me meti no meio do pessoal do humor, mas não sou comediante. Eu faço a piada musical.

Você gosta de futebol?

Eu sempre fui um torcedor fervoroso do Ceará Sporting Club. Eu era quase vizinho do PV (estádio Presidente Vargas) e assistia a quase tudo quanto era jogo. A primeira Copa que eu vi para valer mesmo foi a de 70, embora eu já tivesse ouvido alguma coisa pelo rádio em 66. De lá para cá eu sempre curti muito futebol, que é indispensável na vida do brasileiro. Você não pode viver sem futebol. Tem que ser futebol, mulher, cachaça e brega. Se o cara for corno ainda melhora, porque essas quatro coisas se unem ao chifre (risos).

Por que você fala tanto dos cornos?

Isso é uma brincadeira nossa, dos nordestinos. Era uma coisa muito pejorativa. Quando eu era menino, o corno ia para o inferno e, se não se vingasse da mulher, virava até motivo de escárnio popular. Então, começamos a fazer essa brincadeira na música, e ninguém fica mais zangado quando é chamado de corno (risos). Quem começou a falar muito no tema foram Waldick Soriano, Reginaldo Rossi…aqui em Fortaleza você é chamado de corno a cada esquina!

Quem é o maior corno da Copa?

Rapaz, em termos de Brasil, estou achando estranha essa história de Neymar com essa Marquezine. Vai e vem, não vem. Deve ter chifre pelo meio (risos). Está parecendo uma relação chifrônica. No futebol mundial, não sei se ainda está na seleção inglesa aquele zagueiro que foi chifrado solenemente por um colega de time. Aquele é um exemplar para ser admirado por toda comunidade futebolística. Ele é o cara.
Nota da Redação: No início de 2010, o então capitão John Terry perdeu a braçadeira do English Team após ter um caso com a esposa de Wayne Bridge, colega de seleção. Os dois não foram convocados para a Copa.

O que é pior: perder um pênalti na final da Copa ou ser corno?

Perder o pênalti é muito pior. Ser corno é muio legal, se o cara souber administrar o chifre. O chifre até traz coisa boa para o indivíduo, o cara fica mais sensível. Tenho quase certeza que o Roberto Baggio perdeu aquele pênalti em 94 porque soube alguma coisa sobre a mulher dele. Se ele tivesse administrado melhor o chifre, teria captado mais energias para fazer aquele gol.

Você é corno?

Eu acho que fui uma vez. Eu namorava uma criatura quando eu tinha uns 18 anos, passei um fim de semana sem ir na casa dela, e quando eu reapareci ela já tinha casado. Isso era um chifre antigo, então.

Para você que gosta tanto do tema: o que é mais brega nessa Copa?

Rapaz, tem muita coisa brega. Eu estava principalmente analisando os uniformes, e o da Seleção Brasileira é meio bregoriana. Embora a gente ame a camisa amarela, ela tem uma gola meio estranha. O Felipão, em si, é um cara brega. O Dunga era um cara metido a fashion, mas no fundo era totalmente brega.

L!Net: Você sente falta das camisas extravagantes do Dunga?

Até que não. Treinador brasileiro de futebol tem de se vestir como treinador mesmo. Não pode querer ser europeu, querer ser um Mourinho no modo de se vestir. A verdade é que o Dunga serviu de cobaia para a filha estilista dele (risos).

O padrão Fifa é brega?

Eu acho brega, porque tenta impor uns negócios no nosso país que tem uma tradição muito maior do que a Fifa no futebol. A Fifa não pode vir aqui e falar que o sujeito não pode mijar para o lado esquerdo e tal. Isso é frescura. Cresci assistindo a jogos no PV comendo cai duro. Era o seguinte: o cara vinha com uma lata cheia de pão e outra cheia de carne moída. Na hora mesmo o cara puxava uma faca, abria o pão e colocava carne moída dentro. Custava 50 centavos. A Fifa proibir um negócio desse é uma breguice total (risos). Também tinha um refresco que vinha dentro de uma laranja de plástico. Você comprava, tomava aquilo, mijava dentro da laranja e jogava nas costas de outro cabra lá embaixo. Eu acho que isso pegaria muito bem na Copa do Mundo. Seria lindo jogar uma laranja dessa nas costas do Galvão Bueno.

Como arquiteto, qual a sua análise dos bilhões de reais investidos nos estádios?

É uma das coisas do padrão Fifa que eu não gostei. Por exemplo, em São Paulo não precisava ter sido construído o Itaquerão. Bastava dar um tapa no Morumbi ou no Pacaembu mesmo. E, como arquiteto, falo que aquele projeto do Itaquerão é horroroso. O cara pegou uma caixa de sapato, fez a maquete e mandou construir o estádio. No Recife também não precisava ter sido construído um estádio. Lá tem o estádio do Santa Cruz, que é muito grande. Se precisava de estádio, tinha que fazer sem a Fifa falar. Assim como a mobilidade urbana. Tem que ser feita sem Copa. No geral, não precisava de tantas sedes. Se tivesse dez, oito, estavam bom demais. Tinha que aproveitar mais os estádios que já existiam. Fizeram um outro Maracanã.

Qual seu grande ídolo no futebol?

Na época de menino, na década de 70, todo mundo era se apaixonou por Pelé, e até hoje eu sou santista por causa de Pelé. Sou torcedor do Santos nesse território de flamenguista que é o Ceará. Daquela Seleção de 70 eu também curtia muito o Rivellino. Ele era uma referência do jogador que veio do futebol de salão, o que nós jogávamos muito no interior do Ceará. Então todo mundo era doido pelo Rivellino também!

Como era seu desempenho no futebol de salão?

Era muito ruim (risos). Então depois eu comecei a jogar basquete por causa da minha altura.

Jogava em qual posição?

Nosso time não tinha esquema tático, não. Eram todos por um e nenhum por ninguém. Atacar em xis e defender em zigue-zague.

E você passou para o futebol com quantos anos?

Joguei futebol até dez, 12 anos, na época da Copa de 70. Nesse tempo eu ainda morava no interior. Quando eu me mudei, tinha 1,90m com 14 anos. Então, no Ceará, um cara com 1,90m era uma espécie de Shaquille O’Neal (risos). Aí me levaram para um time de basquete. No basquete estudantil eu fui contemporâneo de Oscar Schmidt. Ele jogava na seleção de Brasília, e eu na de Fortaleza. Eu era pivô, claro, por ser o mais alto. Nessa época a raça cearense ainda era baixinha. Hoje, não. O time do Ceará que está no NBB (Basquete Cearense) é muito alto.

Bom humor e cornos à parte, você parece uma pessoa muito antenada a muita informação.

É a questão da leitura. Eu sempre gostei muito de ler. Quando eu tinha 11, 12 anos, eu fiz a assinatura do jornal “O Pasquim”. Fui o único menino de 11 anos no mundo que tinha isso. Passei na banca, achei legal…Eu leio muito e vivo dizendo para o meu filho que o cara que não lê, não sobrevive.

Fonte: Lancenet

Compartilhar: