Crédito está voltando aos poucos para financiamento de automóveis

Depois de três meses de queda na oferta de financiamentos, consumidor ainda encontra dificuldades para liberação do dinheiro, mas a expectativa é de melhora

Foto: Divulgação
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Se você foi até uma concessionária ou revenda de seminovos recentemente e saiu de lá frustrado, sem conseguir um financiamento para o seu carro novo, saiba que você não está sozinho. Essa realidade tem sido frequente nos distribuidores de veículos nacionais. No entanto, surgem em maio os primeiros sinais de que este cenário pode melhorar em breve.

O primeiro indicativo vem do Banco Central (BC). O volume total de crédito para automóveis concedido em abril é maior que em março. Depois de três meses consecutivos de queda no total ofertado pelas instituições financeiras, em abril o BC apurou R$ 7,6 bilhões concedidos à compra de veículos – R$ 1 bilhão a mais que em março.

O número de abril é, em partes, fruto da mão pesada da Caixa. No mês, o Salão Auto Caixa em todo o Brasil negociou R$ 228 milhões em crédito automotivo – valor 40% maior que a média diária de contratação de 2013. Mas não é só isso.

Os bancos, que vinham temerosos pela alta inadimplência desse tipo de financiamento, já podem contar com um indicador ainda mais positivo. O índice de pagamentos atrasados recuou em 0,1 ponto porcentual, chegando a 4,9%. A discreta evolução tem um importante significado para a indústria: é o menor nível desde agosto de 2011. Há um ano, essa parcela era de 6,2%, ainda grande. Chegar aos 4,9% pode significar um respiro para as instituições financeiras.

“Está entrando mais água limpa agora, mais clientes adimplentes, então há uma espécie de saneamento do crédito acontecendo”, comenta o presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), Ilídio dos Santos.

O executivo e lojista sinaliza que a seletividade dos bancos anda impedindo que algumas operações aconteçam. “Basta consultar o nível de endividamento da pessoa pelo CPF [Cadastro de Pessoa Física]”, explica. “Se percebem que há muitos parcelamentos e valores em aberto com aquele cliente, negam. Estão preferindo o crédito mais seguro.”

Isso sem contar o mau preenchimento das fichas. “Frequentemente saem da lojas fichas mal preenchidas, sem comprovação de renda, por exemplo. Naturalmente, agora o banco vai negar”, diz Santos.

Alta inadimplência fez bancos recuarem e consumidor continua endividado 

Em 2012, a inadimplência chegou a 7% do total de financiamentos concedidos à compra de veículos. Calejados pelo aumento do ano passado e com aversão aos riscos da concessão de financiamentos, as instituições financeiras têm buscado terreno seguro para este ano entrecortado pela Copa do Mundo e pelas Eleições.

Temem perder dinheiro. “Os bancos tomaram um prejuízo cavalar”, conta Nicolas Tingas, economista chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). “Entre 2012 e 2013 foi necessário rever o conceito de exposição ao risco.”

Foi neste momento que acabou a mamata dos “60 meses sem entrada”. A entrada de 30% passou a ser necessária e o parcelamento já não passa dos quatro anos. “O cliente não conseguiu dar conta das prestações todas que assumiu, então veio a inadimplência”, diz.

Desde o final do ano passado, o volume concedido para a compra de veículos vem caindo. Dos R$ 9,4 bilhões liberados em dezembro, somente R$ 7,5 bilhões foram liberados em abril, segundo o Banco Central. No mercado de seminovos, de cada dez solicitações enviadas, apenas três são aprovadas.

Tingas explica que não se tratou de um aumento das exigências dos bancos, mas da piora nas contas do consumidor. “A capacidade de pagamento piorou. Cresceu o número de solicitantes sem condição de pagar”, explica.

Faz sentido. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), nesta terça-feira, aponta um crescimento no número de famílias endividadas no mês de maio – a parcela chega a 62,7% dos brasileiros.

Estes estão enrolados com o cheque pré-datado, o cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos, entre outros. “Estamos vendo um fenômeno de consumidores endividados, com a renda mais comprometida que o adequado e sem a percepção clara dessa situação”, pontua Tingas, que não vê excesso de zelo das instituições financeiras. “Os bancos não têm mais capacidade de arcar com prejuízos de inadimplência.”

Essa também é a opinião de Décio Carbonari, que preside a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). O executivo acredita, ainda, que o brasileiro entendeu os efeitos do endividamento excessivo. “O cliente está se arriscando menos.” A mudança de comportamento estaria começando a dar seus primeiros resultados nos números de abril do Banco Central.

Montadoras, concessionários e revendas de seminovos lamentam

A falta de disponibilidade de crédito tem sido mencionada pelas montadoras como um importante entrave à recuperação das vendas de veículos. As empresas têm uma certa razão. Com cerca de 80% das suas vendas negociadas com utilização de crédito, os financiamentos acabam sendo fundamentais para a operação normal deste mercado.

Flávio Meneghetti, presidente da Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores (Fenabrave), é um dos que se preocupa com essa cautela dos bancos. “Levantaram a barra de exigência, é natural”, comenta.

No entanto, ele ressalta que a dificuldade para retomar o bem diante da inadimplência é uma das principais reclamações do setor financeiro. São, em média, 200 dias para conseguir tomar de volta metade dos veículos inadimplentes – a outra metade se quer é encontrada. “A própria legislação dificulta que os bancos reduzam seu risco e facilitem o crédito”, lamenta. “Uma gestão moderna não pode dificultar a tomada de um bem dado em garantia.”

“Projeto do fundo de investimentos provavelmente não sai”, diz Carbonari

De olho em um possível aumento de vendas de carros, governo e bancos estariam negociando a formação de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) que limitaria a perda dos bancos. O projeto, ainda não confirmado pelo Ministério da Fazenda, limitaria as perdas dos bancos a 10% do teto de sua participação no fundo.

O movimento é similar ao que aconteceu em 2008, durante a crise financeira, em que o governo liberou os depósitos compulsórios dos bancos para aquisição das carteiras de crédito de bancos menores.

“Imagine esse público que financia o carro em quatro anos, paga três parcelas e fica inadimplente. Não terá como sustentar perdas desse tipo”, comenta Carbonari. “Esse projeto do fundo de investimentos provavelmente não sai.”

Fonte: IG

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